7 de dezembro de 2022

14 Maria era imaculada, sem pecado e a maior criatura que já existiu? (Resposta a Dave Armstrong)

 

Este já é meu quarto artigo em resposta à incansável saga de Dave Armstrong em passar vergonha tentando “refutar” meus artigos, que fica cada vez mais divertida na medida em que avançamos. Anteriormente, já refutei os pavorosos artigos de Dave sobre as almas debaixo do altar, sobre o celibato obrigatório e sobre a intercessão dos santos. Mesmo que demore cem anos, farei questão de responder um a um dos artigos do meu mais novo fã, ainda que seja difícil acompanhar o ritmo quando o meu oponente tem um imensurável tempo livre para escrever vinte artigos no tempo em que eu só consigo escrever um. Mesmo assim, aqui vamos nós novamente.
 
No dia do meu aniversário (11/09), Dave me homenageou com uma resposta ao meu artigo de 2017 intitulado “Maria era uma mulher qualquer?”, onde basicamente afirmo que Maria não era uma “mulher qualquer” em um sentido depreciativo ou diminutivo (como comumente usamos a expressão), mas que biblicamente não está num degrau acima de todas as mulheres – ou de toda humanidade –, como se fosse uma semideusa com superpoderes. Mas, para Dave e muitos outros papistas, basta você dizer isso que é automaticamente acusado de “odiar” Maria, e uma tempestade de rótulos pejorativos são jogados na sua cara – como se a própria Maria não se visse numa posição de serva, como todos os demais (Lc 1:48).
 
O próprio título do artigo de Dave já diz muito sobre isso: “A depreciação estúpida de Lucas Banzoli de uma “Maria” imaginária”. Ou você concorda com os dogmas marianos criados com séculos ou até milênios de atraso, ou vai ser atacado como um monstro abominável que visa “depreciar” a mãe de Jesus só por discordar deles. Há mais chances de você discutir com um militante do PSOL sem ser atacado com rótulos pejorativos do que discordar dos dogmas marianos sem que o debatedor papista apele para a vitimização e a agressão ao primeiro sinal de que não consegue rebater os argumentos, já que é muito mais fácil apelar à emoção do que discutir com a razão. E Dave nos brinda com um exemplo fenomenal disso. Ele escreve:
 
Os católicos consideram Maria a maior criatura de Deus e o ser humano criado mais sagrado, porque Deus a escolheu para gerar o Deus encarnado: Jesus. Protestantes como Lucas simplesmente colocam isso na categoria de “deusa” porque parecem constitucionalmente incapazes de compreender o fato de que diferentes pessoas têm diferentes níveis de santidade; portanto, pode haver um “santo” entre aqueles que são excepcionalmente santos, e pode fazer isso sem se tornar Deus, e permanecendo bastante humano.
 
Isso é realmente elevado e exaltado e digno de honra e reverência (não de adoração), mas não tem nada a ver com ser uma suposta “deusa”. Se, de fato, os católicos acreditassem que Maria era uma “deusa”, então certamente o termo apareceria em documentos católicos oficiais [magisteriais] em algum lugar. Mas é claro que não. Se Lucas ou qualquer protestante negar isso, deixe-os apresentar as evidências documentadas. "Aguenta ou fica quieto!". Muitas felicidades nessa empreitada!
 
Primeiro, eu nunca falei em “documentos oficiais magisteriais” que declaram Maria uma deusa. Eu falei sobre ela ser tratada como uma deusa por grande parte dos católicos, o que é bem diferente. Quando alguém diz que Edir Macedo (um pastor da teologia da prosperidade, caso Dave não tenha o desprazer de conhecê-lo) “adora o dinheiro”, obviamente ele não está querendo dizer que Macedo literalmente afirma (de forma oficial e solene) que adora o dinheiro, ou que haja um “documento magisterial” de sua igreja que assim o afirme. Como é evidente, isso é apenas uma conclusão tirada da prática, a partir das atitudes, não a partir da teoria.
 
Os próprios católicos fazem isso o tempo todo, como Dave faz ao longo de todo o artigo ao me acusar de “difamar” Maria. Eu poderia perguntar em qual “documento oficial” eu abertamente digo que “odeio” Maria ou qualquer coisa do tipo (e o mesmo para qualquer igreja protestante), e ele obviamente não será capaz de citar algum. Mas ele se sente na liberdade de pensar assim, a partir do que ele interpreta das minhas palavras (e o mesmo para as suas ridículas acusações de que eu sou “não-teísta” e que nego a divindade de Cristo). Portanto, o “desafio” de Dave é simplesmente tolo e sem sentido. Não precisamos de um parágrafo no catecismo que diga expressamente “Maria é uma deusa e nós a adoramos”; precisamos apenas ver de que forma ela é tratada na prática, que em absolutamente nada se difere de qualquer pagão adorando seus deuses e deusas.
 
Por coincidência, estive hoje mesmo lendo essa coletânea de orações babilônicas, datadas de 1600 a.C (parte do projeto do meu novo livro consiste em ler o máximo de documentos antigos possíveis). O que mais me chamou a atenção foi que tudo o que o autor ora ali à deusa Ishtar é indistinguível do que qualquer católico reza a “Nossa Senhora”, com a única diferença de que o católico não a chama explicitamente de “deusa”. Entre outras coisas, o autor pagão reza:
 
“Senhora majestosa, cujos comandos são poderosos... Ó minha senhora, ensina-me o que fazer, designa-me um local de descanso! Perdoa o meu pecado, levanta meu semblante! (...) Minha deusa, que é a senhora da súplica, que ela possa apresentar minha oração a você!”
 
Se essa exata e mesma oração fosse apresentada a um fiel católico unicamente sem a presença do termo “deusa”, ele não teria dúvidas de que era só mais uma reza convencional à Nossa Senhora, já que tudo o que é dito ali (“Senhora majestosa”, “poderosa”, “perdoa o meu pecado”, “senhora da súplica” e o pedido de intercessão junto a Deus) é indistinguível do que qualquer católico reza cotidianamente. Mas é a oração de um pagão a uma deusa pagã, que na prática não se difere em nada do que um católico faz e pensa. O pagão também rezava à sua deusa de joelhos, também tinha imagens da mesma, também levava essas imagens em procissão, também lhe dirigia orações, também clamava por sua intercessão e se referia a ela usando os mesmos títulos de honra, sem distinção. Se ele ressuscitasse no século XXI e visse um católico rezando a Maria, provavelmente pensaria que era apenas um outro nome para Ishtar.
 
Mas se Dave está tão interessado em documentos, ele pode gostar de ver o que diz um dos livros mais lidos e aclamados na história da Igreja Romana, “As Glórias de Maria”, escrito por ninguém menos que Santo Afonso de Ligório. Vejamos que coisas maravilhosas e nem um pouco idólatras ele escreve neste livro:
 
“Feliz aquele que se abraça amorosa e confiadamente a essas duas âncoras de salvação: Jesus e Maria! Não perecerá eternamente” (p. 31)
 
“Por conseguinte estão sujeitos ao domínio de Maria os anjos, os homens e todas as coisas do céu e da terra(p. 35)
 
“Maria, para salvar as nossas almas, sacrificou com amor a vida de seu Filho” (p. 47)
 
“Maria imolou a sua alma para a salvação de muitas almas” (p. 47)
 
“Do Eterno Pai diz o Evangelho que amou os homens a ponto de por eles entregar à morte seu Filho Unigênito (João 3:16). O mesmo também se pode dizer de Maria: Tanto amou os homens, que por eles entregou seu Filho Unigênito” (p. 53)
 
“Então com suma dor e com intenso amor para conosco, Maria estava sacrificando por nós a vida de seu Filho(p. 56)
 
“Os pecadores só por intercessão de Maria recebem o perdão(p. 76)
 
“Seguindo a Maria, não errarás o caminho da salvação” (p. 85)
 
“Se Maria é por nós, quem será contra nós?” (p. 90)
 
Sois onipotente, ó Maria, visto que vosso Filho quer vos honrar, fazendo sem demora tudo quanto vós quereis” (p. 100)
 
“Muitas coisas se pedem a Deus, e não se alcançam. Pedem-se a Maria, e conseguem-se” (p. 118)
 
“Ide a Maria! O Senhor decretou não conceder favor algum sem a mediação de Maria. Por isso nas mãos dela está nossa salvação(p. 144)
 
“Quando nos vem tentar o demônio, não deixemos de fazer como os pintinhos, que, mal enxergam o gavião, correm logo a refugiar-se sob as asas da mãe. Logo que nos assaltam tentações, sem discorrer com elas, refugiemo-nos depressa sob o manto de Maria. E vós, Senhora, deveis defender-nos... Depois de Deus outro refúgio não temos senão vós, que sois a nossa única esperança protetora, em quem confiamos(p. 85)
 
“Ah! Como fogem os demônios à presença de Nossa Senhora! Se na hora da morte tivemos Maria a nosso favor, que poderemos recear de todo o inferno?” (p. 90)
 
“Salve esperança de minha alma... salve, ó segura salvação dos cristãos, auxílio dos pecadores, defesa dos fiéis, salvação do mundo(p. 98)
 
“Em vós, Senhora, tendo colocado toda a minha esperança e de vós espero minha salvação(p. 147)
 
“Acolhei-nos sob a vossa proteção se salvos nos quereis ver; pois só por vosso intermédio esperamos a salvação(p. 147)
 
“É tributada ao Filho e ao Rei toda a honra que se presta à Mãe e à Rainha” (p. 131)
 
“Maria é advogada poderosa para a todos salvar(p. 151)
 
“Maria é toda poderosa junto a Deus“ (p. 151)
 
Se o pagão babilônico da oração acima se deparasse com essas declarações tão fortes, provavelmente pediria para ir com calma e pegar mais leve na idolatria, pois até para ele isso passava dos limites. Como historiador, desconheço um autor pagão que exaltasse uma deusa mais do que este autor católico o faz. Se um pagão na Babilônia dissesse que Ishtar faz muitas coisas que nem Marduk (o deus principal do panteão babilônico) faz, ele provavelmente seria apedrejado por blasfêmia, mesmo que todos considerassem Ishtar uma deusa. Mas Ligório faz isso em relação a Maria e Deus, e mesmo assim Dave acha que ele não era idólatra. Esse é o tipo de aberração que só a apologética católica é capaz de nos apresentar.
 
Talvez Dave diga que este é só um livro “qualquer” que não representa a posição da Igreja, já que não é um “documento oficial magisterial”. Mas o que a Igreja Católica fez com Ligório após a escrita dessa monstruosidade idólatra descarada? Na mesma época em que milhares eram perseguidos e assassinados pela Inquisição e que centenas de livros eram incluídos no Índex (uma relação de obras proibidas e censuradas), a Igreja na época não só não tomou nenhuma medida contra Ligório, como o alçou ao patamar de santo e doutor da Igreja, além de torná-lo bispo! Ao que parece, quanto mais herege e idólatra alguém for, mais reconhecido e prestigiado é.
 
Pouquíssimas pessoas na Igreja acumularam tantos títulos de honra quanto Afonso de Ligório, especialmente após a publicação dessa obra – que não tardou em se tornar um verdadeiro best-seller da época e que continua influenciando milhões de católicos até hoje. E isso ainda é pouco se comparado ao ainda mais escandaloso “Tratado da Verdadeira Devoção à Santíssima Virgem”, de São Luís de Montfort, que consegue ser ainda mais idólatra do que Ligório – e que foi ainda mais prestigiado como um prêmio por sua idolatria (há alguns anos um leitor do site fez uma dissertação sobre este tratado, que você pode baixar aqui). E eu nem vou falar das famigeradas “aparições marianas”, onde a suposta "Maria", em um gritante e abismal contraste com a Maria da Bíblia, não é nada a mais que uma fanática obcecada por autoengrandecimento e ávida por exaltação pessoal, a um ponto em que nem mesmo Deus reivindica na Bíblia (você pode ver alguns exemplos aqui e aqui).
 
Em suma, a Igreja Romana realmente não escreve com todas as letras em um “documento oficial magisterial” que “Maria é uma deusa e precisa ser adorada”, mas ela exalta quem assim se refere a ela, beatifica os seres mais idólatras que já existiram, recomenda a leitura desses livros idólatras, reconhece “aparições” marianas pavorosamente idólatras e não faz absolutamente nada para coibir a imensa onda de idolatria entre leigos católicos que não perdem a primeira oportunidade de se prostrar perante um pedaço de pau e pedra. É claro que, com tudo isso, um “documento oficial magisterial” nem mesmo é necessário – como se fosse preciso desenhar para tornar as coisas mais óbvias.
 
 
Maria era simplesmente excepcionalmente santa: tanto que ela era mais santa do que qualquer outro ser humano criado: e isso como resultado de Deus realizar um milagre especial de remover o pecado original dela na concepção.
 
Isso é apenas o que Dave afirma, sem provar o ponto em momento algum do artigo (embora uma tentativa pobre e patética tenha sido feita mais à frente em cima do texto que chama Maria de “bem-aventurada”, como se isso implicasse que ela era “mais santa que qualquer outro ser humano criado” ou que “o pecado original foi removido dela na concepção”). Nem mesmo Tomás de Aquino em plena Idade Média acreditava nisso (veja aqui), mas Dave quer nos convencer de que algo que a Bíblia sequer chega perto de afirmar em momento algum é exatamente aquilo que ela queria dizer mas não disse.
 
 
A maioria dos protestantes não aceita isso, já que eles têm essa ideia errônea e antibíblica de que todos os seres humanos são mais ou menos iguais e não exibem diferenças de grau de santidade e retidão. (...) Vamos dar um passo atrás e estabelecer primeiro a premissa que Lucas parece negar: que existem diferenças de santidade entre os seres humanos.
 
O que se segue aqui é uma série de textos desnecessários para tentar “provar” uma coisa que eu nunca neguei: que “existem diferenças de santidade entre os seres humanos”. É engraçado como Dave diz que eu “pareço negar” tal premissa, sem que apontasse qualquer citação minha onde eu afirmasse tal coisa. Primeiro ele cria o espantalho, depois bate no espantalho e pensa que seus leitores néscios vão reconhecer o grande feito. Para quem quiser, recomendo este vídeo do ano passado, onde eu mostro que existem graus diferentes de pecado e de santidade. É gracioso que Dave passe quase metade do texto batendo num espantalho e citando uma enxurrada de textos avulsos como lhe é de costume, para provar um ponto que eu jamais neguei. Sorte a dele que ele tem tempo sobrando o suficiente para atacar quantos espantalhos quiser, o dia todo se preciso for.
 
Vamos então à parte que interessa. Eu escrevi:
 
Certa vez uma mulher (qualquer?) no meio da multidão disse a Jesus: “Bem-aventurado o ventre que te trouxe e os peitos em que mamaste!” (Lc 11:27). O que foi que Jesus respondeu? Se ele fosse católico, saberíamos muito bem como seria a resposta, e exaltaria Maria ainda mais. Mas o que ele realmente respondeu foi: “Mas ele disse: Antes, bem-aventurados os que ouvem a palavra de Deus e a guarda” (Lc 11:28). Note que Lucas, o evangelista, introduz a resposta de Jesus com um “MAS”, para deixar claro que ele estava contrapondo o que foi afirmado pela mulher. E quando cita a resposta de Jesus, inicia com um “ANTES”, colocando qualquer pessoa que ouve a palavra de Deus como bem-aventurado antes que Maria. Aquela mulher da multidão achava que Maria era especial e mais importante que todas as outras por ter dado à luz a Jesus – este é exatamente o mesmo argumento católico! –, mas Jesus a contradiz e coloca qualquer pessoa que guarda a palavra de Deus acima.
 
E Dave respondeu:
 
Jesus não estava negando que Sua mãe era abençoada, mas, em vez disso, afirmando isso e avançando para fazer um ponto mais geral (que provavelmente incluiria Maria também: como o exemplo de uma descrição geral de santidade). Este dificilmente é um caso que ilustra “o catolicismo deu errado”. Na verdade, não é nenhum problema (nenhum, seja qual for), se corretamente entendido. Jesus afirma Sua mãe e sua santidade, e passa a fazer outro ponto, assim como fez em várias outras passagens semelhantes. Ele também se referia a Maria quando exaltava aqueles que “ouvem a palavra de Deus e a obedecem”.
 
Note como Dave é realmente um mestre na arte de distorcer o que os outros dizem e atacar espantalhos: eu nunca disse que Jesus “estava negando que Sua mãe era abençoada”, mas que ele contrapôs a exaltação indevida da outra mulher da multidão, que pensava que Maria fosse superior às outras apenas pelo fator biológico (i.e, por ter dado à luz a Cristo), que é exatamente o mesmo que alegam os papistas para dizer que Maria foi “a maior criatura que já existiu” – não porque um texto bíblico assim o afirme, mas apenas porque deu à luz a Jesus.
 
Em outras palavras, dentro do pensamento católico, o que faz Maria ser tão superior a todas as outras pessoas que já existiram (incluindo os profetas, patriarcas, apóstolos e etc) é um fator biológico, não um fator espiritual. E Jesus está aqui justamente rebatendo o “argumento biológico”, ao mostrar que ele é de pouca importância se comparado ao que realmente interessa, que é guardar a Palavra de Deus. Isso obviamente não significa que Maria não guardasse a Palavra de Deus também, mas significa que o que faz de alguém especial não é o fator biológico, mas o espiritual. Para ser mais claro: qualquer um que guarde a Palavra de Deus pode ser tão bem-aventurado quanto Maria, já que não é o fator biológico que está acima do espiritual, mas o contrário.
 
É exatamente por isso que Jesus não aproveita a ocasião para concordar com a mulher da multidão e exaltar sua mãe ainda mais, como qualquer católico faria em seu lugar. Em vez disso, ele tira o foco da questão biológica (que para Jesus era sem relevância) para a questão espiritual (que é o que realmente interessa). Nenhuma pessoa de mente sã diria que as mães dos personagens bíblicos mais louváveis – gente como Moisés, Davi, Daniel, Abraão, Paulo, Pedro e a própria Maria – eram melhores que as outras mães só porque foram escolhidas para darem à luz a pessoas santas e ilustres. De fato, nós nem mesmo sabemos os nomes da maioria delas, ou se foram salvas ou não.
 
Elas podem até ter sido “melhores” que as outras (o que é impossível de saber), mas por terem guardado os mandamentos de Deus, e não simplesmente por terem dado à luz a pessoas de grande importância. Ainda que Jesus seja incomparavelmente mais importante que todos eles, é a mesma lógica que se segue aqui, como o próprio Jesus ensina no texto em questão. Se Maria era melhor ou mais santa que as outras mulheres, o fato de ter dado à luz a Jesus per se não é o fator que determina isso, como pensam as mentes materialistas dos apologistas católicos.
 
Apenas se sua conduta foi superior a todas as outras é que poderíamos afirmar tal coisa, o que é impossível de se dizer taxativamente, já que a própria Bíblia não afirma que Maria foi mais santa do que todas as criaturas que já existiram. Essa é apenas uma presunção que os papistas fazem, baseada única e exclusivamente no aspecto biológico, o qual, como já apontado, foi claramente subestimado por Jesus e tratado como algo de menor importância – certamente não algo decisivo que faria de Maria superior a tudo e a todos. É isso o que Dave não consegue entender, em sua ânsia de encontrar no aspecto biológico a justificativa para sua idolatria mariana.

Se o "argumento biológico" fizesse algum sentido, uma das primeiras mulheres a ser honrada como "imaculada" e "sem pecado" deveria ser a mãe de Maria, que teria dado à luz a um ser imaculado, imune ao pecado original, a "medianeira das graças", "co-redentora", "rainha do céu" e "esposa do Espírito Santo". Trata-se de um privilégio único e quase tão grande quanto o de ter dado à luz ao próprio Cristo. Mas a mãe de Maria é simplesmente esquecida pelos romanistas, a maioria dos quais sequer sabe o seu nome, ao passo em que Maria é idolatrada sob o mesmo pretexto que faria com que sua mãe fosse tão exaltada quanto.
 
Dave então cita em apoio à sua interpretação o que comenta a Enciclopédia Católica sobre o texto:
 
À primeira vista, parece que o próprio Jesus menosprezou a dignidade de Sua Santíssima Mãe. (...) Na verdade, Jesus coloca o vínculo que une a alma com Deus acima do vínculo natural de parentesco que une a Mãe de Deus com seu Filho divino. A última dignidade não é menosprezada; como os homens naturalmente a apreciam mais facilmente, é empregada por Nosso Senhor como um meio para dar a conhecer o real valor da santidade. Jesus, portanto, realmente, elogia Sua mãe da maneira mais enfática; pois ela superou o resto dos homens em santidade não menos do que em dignidade.
 
De fato, está claro que “Jesus coloca o vínculo que une a alma com Deus acima do vínculo natural de parentesco”. O que não está nem um pouco claro é o malabarismo que o autor faz em seguida para tentar dar algum valor decisivo ao vínculo de parentesco mesmo assim, já que é no que os católicos se sustentam para defender a superioridade de Maria. O autor citado diz que Jesus usa o parentesco “como um meio para dar a conhecer o real valor da santidade”. Mas ele claramente não faz isso, pois parte nenhuma do texto assim o afirma. Isso é o que Dave e o autor da Enciclopédia Católica querem que o texto diga, e não o que o texto efetivamente diz. Tudo o que o texto diz é que a bem-aventurança não está condicionada a um fator biológico, mas à obediência a Deus. E justamente por isso qualquer pessoa que seja obediente a Deus como foi a mãe de Jesus pode ser tão bem-aventurado quanto ela. Impossível ser mais claro.
 
Portanto, o texto de forma alguma apoia a conclusão de que Maria “superou o resto dos homens em santidade não menos do que em dignidade”, já que o objetivo do texto é justamente desvincular a dignidade de qualquer conceito puramente biológico. Isso não significa que ser mãe seja algo sem valor ou que não haja nenhuma importância nos vínculos parentais, mas que esses vínculos não são o que define o caráter ou a santidade de uma pessoa (ou seja, não tem qualquer efeito em questões relacionadas à salvação). Os papistas fazem precisamente o inverso, ao fazer com que a espiritualidade de alguém dependa do parentesco, como se Maria tivesse que ser mais santa que todas as outras apenas porque deu à luz a alguém mais importante que todos os outros (ou seja, um argumento baseado puramente no aspecto biológico, e que não faria o menor sentido se aplicado também a outras mães).
 
 
Trata-se de uma mulher que foi aclamada pelo anjo Gabriel (que outro ser humano é tratado assim por um anjo?), chamada duas vezes de “bem-aventurada” por Isabel (mãe de João Batista: Lc 1:42, 45), precisamente porque ela era a Mãe de Deus Filho e acreditou no anjo quando foi informada disso. A própria Maria responde: “Desde agora todas as gerações me chamarão bem-aventurada” (Lc 1:48). E, claro, os católicos fazem isso e quase todos os protestantes não. Cumprimos a profecia.
 
Aqui somos mais uma vez brindados com um novo ataque à espantalho, como se realmente os protestantes não reconhecessem Maria como bem-aventurada. Em todos esses anos, nunca vi um único evangélico que não reconhecesse Maria como bem-aventurada. Nunca. Ou Dave mente descaradamente sobre o protestantismo como mente sobre tudo o que diz respeito à Bíblia, ou pensa que “chamar de bem-aventurada” seja uma espécie de mantra que precise ser literalmente repetido verbalmente o tempo todo, como fazem os muçulmanos sempre que mencionam Maomé e acrescentam “que a paz esteja com ele” (por mais irritante que seja ter que repetir isso o tempo todo).
 
Não me impressionaria se for realmente essa a interpretação de Dave, dado o apego papista à repetição exaustiva de frases em suas rezas mecânicas e sem vida. Talvez Dave também pense que quando Deus diz que os habitantes de Sião “serão chamados povo santo, redimidos do Senhor” (Is 62:12), é porque vão ficar repetindo o tempo todo a expressão “povo santo, redimidos do Senhor”, como uma palavra mágica, ou que quando Deus diz a Isaías que “você será chamado reparador de muros, restaurador de ruas e moradias” (Is 58:12), significa que quando nos referimos a Isaías em nossos dias não devemos dizer apenas “Isaías”; devemos chamá-lo de “reparador de muros, restaurador de ruas e moradias” (da mesma forma que devemos chamar Maria de “bem-aventurada” sempre que a mencionamos).
 
Como é óbvio, «todas as gerações me chamarão bem-aventurada» não tem nada a ver com acrescentar um “bem-aventurada” sempre que for falar da “virgem Maria”, mas com reconhecer a bem-aventurança de Maria ao ser escolhida como mãe do salvador. Isso não significa que nós protestantes não digamos isso verbalmente também, quando é necessário e oportuno (e não como um mantra). Eu poderia fazer um imenso compilado só de pregações evangélicas de pastores protestantes exaltando as virtudes de Maria e chamando-a (literal e verbalmente, como Dave gosta) de bem-aventurada, mas como não sou um desocupado que passa o dia todo escrevendo na internet, vou me poupar do trabalho (apenas para citar alguns exemplos, veja aqui, aqui e aqui).
 
 
(Meu artigo) Ou seja: se Maria era bem-aventurada, era por guardar a Palavra de Deus, sendo portanto tão bem-aventurada quanto qualquer outra pessoa que também guarda a Palavra, e não de uma forma privilegiada e superior só por ter sido a sua mãe. Essa é uma mensagem dura, é verdade.
 
(Resposta do Dave) É “ambos”; não “ou”, como na frequente mentalidade protestante “dicotômica” antibíblica. Maria guardou a Palavra tão bem que não pecou. Quem pode mantê-lo melhor do que isso? Mas ela também foi privilegiada por ser a mãe de Deus encarnado: uma realização humana absolutamente única. Ou alguém compreende a sublime maravilha disso ou não.
 
Primeiro, a Bíblia não diz que “Maria guardou a Palavra tão bem que não pecou”. Na verdade, indica o contrário: ao dizer que “quando seus familiares ouviram falar disso, saíram para apoderar-se dele, pois diziam: ‘Ele está fora de si’” (Mc 3:21), entre esses familiares que o texto se refere se encontrava nomeadamente a mãe de Jesus (v. 31). Se achar que Jesus estava louco (“fora de si”) é pecado, então obviamente Maria pecou, pelo menos nesta ocasião (o texto não faz qualquer questão de excetuar Maria, como se ela tivesse vindo com uma intenção totalmente diferente dos irmãos de Jesus).
 
Mesmo que não houvesse nenhum texto bíblico indicando um pecado de Maria, disso não decorre que Maria era “impecável”, já que também não temos registro de um pecado cometido por alguns personagens muito mais citados na Bíblia, como Daniel – e nem por isso Roma afirma que Daniel era imaculado e sem pecado. A Bíblia também não menciona explicitamente um pecado de José e de João Batista, que também não são imaculados na visão católica. E, para piorar, temos muitos textos bíblicos que afirmam categoricamente que “todos pecaram” (Rm 3:23), o que significa que é a exceção que deve ser provada, e não a regra. E não há um único texto que sugira, o mais remotamente que seja, que Maria é uma exceção à Romanos 3:23 e a todos os outros textos que declaram a universalidade do pecado e dos pecadores.
 
No mais, Dave apenas apela para a mesma lógica do “argumento biológico” já refutado anteriormente – a de que Maria teria sido mais santa que todos os demais «por ser a mãe de Deus encarnado». Ninguém está aqui discutindo o quanto isso deve ter sido um privilégio incomparável a qualquer outro que pudesse ser mencionado – o que está em jogo é se isso é razão suficiente para cravar que, por ter sido privilegiada dessa forma, teve necessariamente que ser imunizada ao pecado, incluindo o pecado original (na contramão do que pensavam os próprios teólogos católicos até a Idade Média, incluindo os papas, como você pode ver aqui).
 
E quando vemos a forma com que o próprio Senhor Jesus reagiu à questão – deixando claro que o único aspecto importante para determinar a santidade de alguém era o espiritual, não o biológico –, é evidente que a resposta é não. Note que nenhum dos outros grandes privilegiados da Bíblia foram imunizados ao pecado para concluírem a obra que Deus confiou a eles. Não houve ninguém mais importante no AT do que Moisés, escolhido para libertar o povo de Deus do Egito, para liderá-lo até a terra prometida e que ainda tinha a honra de conversar com o Senhor face a face (Êx 33:11). Mas Moisés não era imaculado: ele tinha matado um egípcio e foi impedido de entrar em Canaã por ter pecado mesmo depois de tudo o que Deus fez por ele e através dele.
 
Noé era o homem mais justo de sua época, escolhido para preservar toda a humanidade sobrevivente em sua arca, e mesmo assim foi flagrado bêbado e nu. Jó também era o homem mais justo de seu tempo, e apesar de não ter blasfemado contra Deus em sua provação, por diversas vezes resmungou de sua condição e foi repreendido pelo Senhor no final do livro (“Quem é esse que obscurece o meu conselho com palavras sem conhecimento?” – Jó 38:2). Davi foi o primeiro rei escolhido pelo Senhor segundo a integridade do seu coração e não pela aparência, e mesmo assim adulterou e conspirou no assassinato de Urias. Abraão teve o imenso privilégio de ser escolhido como o pai de muitas nações, o primeiro com que Deus firmou uma aliança, e mesmo assim teve relações com uma concubina por titubear em relação à promessa e mentiu em relação a Sara.
 
Poderíamos regressar até mesmo a Adão, este sim criado literalmente sem pecado, que recebeu o privilégio de ser ninguém menos que o primeiro ser humano criado, o pai e cabeça de toda a criação, e nada disso o impediu de cair. Basta ler a Bíblia com um mínimo de honestidade para constatar que não importa o quão grande privilégio Deus concedeu a alguém; este alguém ainda continuava passível de errar e errava. Ninguém na Bíblia se torna imune ao pecado a despeito de qualquer grande privilégio ao qual tenha sido encarregado – na verdade, isso nem mesmo os tornava necessariamente mais espirituais do que os outros (que não receberam o mesmo privilégio).
 
Os irmãos de Jesus também tinham o privilégio de serem seus parentes (mesmo se fossem primos, não mudaria o fato de serem parentes), mas isso não os impediu de serem incrédulos em relação a Jesus durante o seu ministério terreno (Jo 7:5). Eles não eram mais espirituais ou mais santos do que os discípulos de Jesus, apesar destes não terem nenhuma relação sanguínea com ele. Mas é difícil ter de explicar essas coisas a alguém que nem lê a Bíblia, nem tem disposição de entender. Para quem só usa a Bíblia para distorcê-la e tirar dela algum pretexto sórdido que justifique uma falsa crença prévia, nem mesmo toda a clareza do mundo é suficiente para descauterizar uma mente já completamente submersa no engano.
 
 
É a isso que me referia anteriormente, ao descrever muitos protestantes como tendo uma “formação teológica” “deficiente e insuficiente” e “espiritualmente empobrecidos ou atrofiados” e sofrendo de “ignorância espiritual” e um triste estado de “esquecimento de realidade espiritual autoevidente e ensinos bíblicos manifestos”. Martinho Lutero não sofria dessas deficiências. Ele “entendeu”: de uma forma que Lucas parece literalmente incapaz de compreender: “Ela se tornou a Mãe de Deus, em cujo trabalho tantos e tantos bens são concedidos a ela que ultrapassam a compreensão do homem...”.
 
Dispensarei o comentário sobre os gentis adjetivos que Dave usa aqui contra os protestantes, e falemos um pouco sobre essa artimanha de citar Lutero a seu favor. É curioso que Dave pense que todo protestante deva seguir o pensamento de Lutero – especialmente quando o próprio Lutero vinha de uma transição de uma mentalidade católica para uma nova, que ele foi amadurecendo aos poucos e com o passar do tempo –, como se Lutero fosse uma espécie de papa infalível do protestantismo e, portanto, se ele chamou Maria de “mãe de Deus” ou disse qualquer coisa a respeito dela, nós devemos pensar assim também. É difícil colocar na cabeça de um católico que Lutero não era um papa, nem jamais se viu assim, e que ele mesmo nunca exigiu que todos os protestantes pensassem como ele.
 
A propósito, na própria citação feita não há nada de imaculada conceição ou impecabilidade de Maria. James Swan tem uma série de artigos sobre a mariologia de Lutero, que se distingue profundamente da mariologia (que está mais para “mariolatria”) católica (veja aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui, ufa!). O que é realmente intrigante é que Dave não use o mesmo critério quando papas supostamente infalíveis afirmaram exatamente o contrário do que ele defende (estes sim teoricamente autoritativos, que os católicos deveriam seguir pelo menos em tese). Em plena Idade Média, por exemplo, o papa Clemente VI (1291-1352) afirmou:
 
“Mas a Santíssima Virgem foi concebida em pecado original, como muitos santos parecem dizer, e pode ser provado por muitos motivos. Parece que a Igreja não deveria realizar um festival de sua concepção. Aqui, não estou disposto a disputar, eu digo brevemente que uma coisa é clara: a Santíssima Virgem contraiu pecado original. A causa e a razão é esta: como sendo concebida da união de homem e mulher, foi concebida através da paixão, e, portanto, ela teve o pecado original em causa, que seu filho não tinha, porque Ele não foi concebido da semente do homem, mas através da respiração mística: ‘O Espírito Santo virá sobre ti’. E, portanto, não ter pecado original é um privilégio singular de Cristo somente(Sermão do Advento do Senhor)
 
Você pode ver outros muitos papas, teólogos e doutores da Igreja Católica se pronunciando contra a imaculada conceição neste artigo do Bruno Lima, que fez um excelente compilado a respeito. Então, em síntese, Dave quer que os protestantes sigam a opinião de Lutero sobre Maria (que está longe de ser a mesma opinião católica e também está longe de ser autoritativa aos protestantes), mas não quer seguir o que os próprios papas escreveram a respeito (os quais são supostamente infalíveis e cuja palavra tem teor autoritativo a todos os católicos).
 
Se Lutero diz algo que soe “católico”, ele não perde a oportunidade de usar contra os protestantes; mas quando os próprios papas e santos dizem algo que soa “protestante”, são sumariamente ignorados por Dave e por todos os apologistas católicos. É assim que a apologética católica funciona.
 
 
Essa é a principal consideração da singularidade de Maria. Ela era a Mãe de Deus [o Filho]. Ninguém mais foi ou é. Ninguém teve a insondável honra e privilégio de não apenas carregar o Deus encarnado por nove meses, mas viver com Ele e criá-lo por trinta anos, quando o resto do mundo não O conhecia (eles tinham apenas três anos para fazê-lo). Maria, portanto, teve uma ligação íntima com Jesus por dez vezes mais anos do que qualquer outra pessoa, exceto São José. Isso também não é incrivelmente único e tudo menos “comum”?
 
Não estamos discutindo aqui o privilégio. A questão é se esse privilégio torna a pessoa imune ao pecado – algo que Dave não provou, não tentou e nem chegou perto, limitando-se a mudar o foco da discussão como lhe é de costume. Preste atenção no nível do “argumento”: Maria é mais santa que qualquer outra pessoa, porque conviveu com Jesus por dez anos a mais que qualquer um. Sim, ele realmente argumenta isso a sério! Por essa mesma lógica, Judas, que conviveu três anos com Jesus, deve ser mais santo que Dave, que conviveu zero. Os apologistas católicos conseguiram literalmente o feito de fazer uma conta matemática capaz de calcular a medida de santidade de alguém a partir do tempo que essa pessoa passou – num sentido carnal, não num sentido espiritual – com Jesus. Seria cômico se não fosse trágico!
 
Eu ainda me pergunto por que então a Igreja Romana não declara José igualmente imaculado, já que o próprio Dave admite que essa “matemática da santificação” excetua o pai de Jesus. Ou então por que os irmãos (“primos”) de Jesus, que conviveram trinta anos com ele de perto, eram incrédulos (Jo 7:5), diferentemente de discípulos que Jesus havia acabado de conhecer e logo decidiram segui-lo (Jo 1:35-49). Parece que a calculadora não funciona numa hora dessas, apenas quando é conveniente para fundamentar a mariolatria que se sustenta em rigorosamente nada.
 
 
Em segundo lugar, ela era cheia de graça (e assim chamada pelo anjo Gabriel); isto é, sem pecado: o que é consistente com sua Imaculada Conceição.
 
Isso beira o inacreditável. Dave está realmente se esforçando em se superar nos devaneios, agora chegando a argumentar que ser “cheia de graça” equivale a ser “sem pecado”. Se é assim, Estêvão, que é chamado de “cheio de graça” (At 6:8), seria “sem pecado” também. Curiosamente, Roma não afirma que Estêvão é imaculado, mas Maria (que nem mesmo é chamada de “cheia de graça”, mas de “agraciada”) sim. Você pode ver uma discussão mais aprofundada sobre a tradução do vocábulo grego kexaritomena neste artigo, por um estudioso do grego. Por falar nisso, eu me lembro que uma das primeiras discussões teológicas que eu acompanhei foi com um padre que provava que a tradução católica está errada, pois segue a Vulgata, e não o grego. E atualmente muitas traduções católicas corrigiram o equívoco, traduzindo assim:
 
"L`ange entra chez elle, et dit: Je te salue, toi à qui une grâce a été faite; le Seigneur est avec toi" (Bible de Jérusalem)
 
"Alégrate tú, la Amada y Favorecida; el Señor está contigo" (Bíblia Católica Latinoamericana)
 
"Alégrate, favorecida, el Señor está contigo" (Bíblia de Mateos-Schökel)
 
"And he came to her and said, "Hail, O favored one, the Lord is with you!" (Revised Standard Version)
 
"He went in and said to her, 'Rejoice, you who enjoy God's favour! The Lord is with you" (New Jerusalem Bible)
 
"And coming to her, he said, "Hail, favored one! The Lord is with you" (The New American Bible)
 
"O anjo entrou onde ela estava e lhe disse: Alegra-te, favorecida, o Senhor está contigo" (Bíblia do Peregrino)
 
"E entrando o anjo onde ela estava, disse: Salve agraciada; o Senhor é contigo" (Versão Nácar-Colunga de 1960)
 
Paulo também disse que Deus “nos encheu de graça no Amado” (Ef 1:6) e que “Deus é poderoso para fazer abundar em vós toda a graça” (2Co 9:8); em todos os apóstolos “havia abundante graça” (At 4:33), e “todos nós recebemos também da sua plenitude, e graça sobre graça” (Jo 1:16). Nem por isso Dave afirma que todos os cristãos regenerados são imaculados, que nunca pecaram ou que nunca mais vão pecar. Note como isso muda misteriosamente em relação a Maria, quando ser alvo da graça implica magicamente em impecabilidade, porque sim. Mesmo que se argumente que no caso de Maria é diferente porque ela não apenas tem graça, mas é “cheia” de graça (o que já vimos ser uma tradução equivocada), o próprio Dave reconhece que a tradução protestante é “perfeitamente apropriada”:
 
Curiosamente, a tradução que ele usou para Lucas 1:30 foi traduzida para o inglês pelo Google: “Do not be afraid, Mary; you have been graced by God!” [Português: “Não tenha medo, Maria; você foi agraciada por Deus!”]. Esta é uma boa tradução, porque a palavra grega é “graça” [charin / χάριν]. Muitas traduções usam “favorecida por Deus” aqui, mas “agraciada por Deus” é perfeitamente apropriado.
 
Então, se “agraciada” é uma tradução «perfeitamente apropriada», e numerosas pessoas são agraciadas por Deus ao longo de toda a Bíblia (e inclusive chamadas de cheias ou plenas de graça), só podemos concluir que: (1) existem inúmeros outros imaculados que a Igreja Romana ainda precisa acrescentar à lista (talvez Dave possa enviar uma petição ao Vaticano, ele certamente tem tempo de sobra pra isso), ou (2) o fato de ser agraciado(a) por Deus não prova porcaria nenhuma daquilo que ele tenta argumentar aqui.
 
 
Em terceiro lugar, ela foi chamada de “bem-aventurada” de maneira extraordinária, e precisamente porque ela era a mãe de Jesus.
 
Sim. E como já demonstrado, isso não implica de maneira nenhuma que ela fosse necessariamente imaculada, impecável ou a mais santa de todas as criaturas que já existiram. Essas são coisas que o texto simplesmente não afirma, e que não decorrem necessariamente de premissa nenhuma. Mais uma vez, Dave pega um texto que diz apenas “bem-aventurada”, e o tortura impiedosamente até que o texto diga o que ele quer ouvir.  
 
 
Eu simplesmente observaria que, se Lucas concorda com a Escritura que Maria foi “bendita entre as mulheres” e “certamente muito abençoada”, então por que ele não a chama do que nós a chamamos: “A bem-aventurada Virgem Maria”? Os católicos fazem literalmente o que a Bíblia prediz: nós a chamamos de “bem-aventurada”: exatamente como a Bíblia diz que aconteceria em “todas as gerações”.
 
Isso já foi explicado acima. Mais uma vez, Dave comprova que o entendimento que ele tem de “bem-aventurada” é uma espécie de mantra que precisa toscamente ser repetido à exaustão, exatamente como os muçulmanos fazem com Maomé (“que a paz esteja com ele”). É como se um muçulmano não desejasse paz a Maomé a não ser que faça questão de mencionar verbalmente a cada vez que se refere ao mesmo. Com Dave, é a mesma coisa: se não acrescentarmos o “bem-aventurada” a cada vez que mencionamos Maria, é porque não a consideramos bem-aventurada. É realmente difícil saber se é pra rir ou pra chorar.
 
Em Isaías, temos uma profecia messiânica que diz que Jesus “será chamado Maravilhoso, Conselheiro, Deus Poderoso, Pai Eterno, Príncipe da Paz” (Is 9:6). Imagine se um católico, a cada vez que mencionasse Jesus, precisasse acrescentar o «Maravilhoso, Conselheiro, Deus Poderoso, Pai Eterno e Príncipe da Paz» antes ou depois. É coisa de louco. Mas se usarmos a lógica de Dave a sério, todos os católicos estariam em pecado porque nenhum deles chama (verbalmente falando, como um mantra que precisa ser repetido) Jesus assim – embora reconheçam que ele é tudo isso. Parece que a lógica vale pra Maria, mas não se aplica a mais ninguém. Aliás, nem os próprios evangelistas chamam Maria de “bem-aventurada” nas outras vezes que se referem a ela, o que na cabeça de Dave deve significar que eles também “não cumpriram a profecia”. Haja a paciência...
 
 
Quinto, temos os dados de Apocalipse 12, que é sobre Maria e ilustra uma forte exaltação celestial e veneração de Maria.
 
Apocalipse 12 nem sequer fala de Maria. É incrível como Dave distorce as simbologias apocalípticas a todo momento, como fez com as “almas debaixo do altar”, se esforçando em interpretar a Bíblia como uma criança de quatro anos desprovida de qualquer racionalidade ou senso crítico. Mas é compreensível, já que é o único jeito de enfiar goela abaixo as suas manobras heréticas (seria consideravelmente mais difícil endossar a mariolatria nas cartas apostólicas doutrinárias, onde Maria nem mesmo chega a ser mencionada!). Eu já abordei o significado da “mulher” de Apocalipse 12 neste artigo, para quem tiver interesse.
 
 
Nós veneramos Maria pelos motivos acima: todos eminentemente bíblicos. Ponto. É a Bíblia que “colocou Maria em um pedestal”. A verdadeira rixa de Lucas é com as Sagradas Escrituras. Por isso, seguimos esse exemplo, pois desejamos fundamentar todas as nossas crenças (ou que estejam em harmonia com elas) na revelação bíblica.
 
É curioso que não tenhamos visto um único desses “motivos eminentemente bíblicos” ao longo de todo o artigo de Dave – talvez ele esteja guardando uma carta na manga e esperando o momento oportuno para nos mostrar esse texto bombástico, que até hoje ninguém nunca viu. Em todo o artigo, o único texto bíblico citado é o que chama Maria de “bem-aventurada”, o que Dave tortura a ponto de transformá-lo em uma declaração de impecabilidade e superioridade sobre todas as criaturas de Deus. Este é o nível da apologética católica quando se aventura a tentar parecer “bíblica”.
 
Também é curiosa a afirmação de Dave de que “a Bíblia colocou Maria num pedestal”, quando ela nem mesmo é mencionada após os evangelhos, à exceção de uma menção breve e de passagem no começo de Atos (onde ela é mencionada com os irmãos de Jesus e os apóstolos reunidos em oração – At 1:13-14), livro este onde Lucas se volta totalmente aos atos dos apóstolos, e não de Maria. E em todas as 21 cartas apostólicas doutrinárias não vemos nada além de um silêncio sepulcral. Nem Paulo, nem Pedro, nem Tiago, nem João, nem Judas e nem o autor de Hebreus falaram dela ou sequer a mencionaram em suas cartas, nem mesmo quando a ocasião era oportuna. Para citar um exemplo, quando Paulo menciona a encarnação de Cristo, ele diz apenas “nascido de mulher” (Gl 4:4), sem nem mesmo se preocupar em citar o nome da mãe de Jesus.
 
Se levássemos a lógica de Dave a sério, ele deveria fazer questão de dizer “a bem-aventurada virgem Maria”, mas aparentemente Paulo também “não cumpria a profecia”, igual os protestantes malvados. Mesmo nos evangelhos, onde Maria é mencionada por razões óbvias, ela geralmente só aparece em textos que falam de Jesus, não onde o foco está nela mesma. Até mesmo o texto que Dave adora citar aqui, onde Maria diz que todas as gerações a chamariam de bem-aventurada, inicia dizendo que Deus “atentou para a baixeza da sua serva” (Lc 1:48), em um imenso contraste com a “Maria” das aparições, que em vez de rebaixar a si mesma reivindica glória e honra pessoais numa soberba e vaidade inesgotáveis.
 
O que Dave quer nos convencer aqui é que a Bíblia «coloca num pedestal» alguém de quem os apóstolos se silenciaram completamente, mesmo sendo tão importante doutrinariamente (até mesmo em termos de salvação!). Isso não é nenhuma depreciação a Maria, é apenas colocar as coisas como elas são. Na Bíblia, diferente do catolicismo, Maria é bem-aventurada, é bendita entre as mulheres, é uma mulher santa e virtuosa, mas não impecável, não imaculada, não uma semideusa que se coloca acima até mesmo dos anjos (cf. Hb 2:9). Infelizmente, no entanto, para quem a trata como uma deusa, qualquer coisa seria “difamar” Maria.
 
Em seguida, Dave responde ao texto que diz:
 
“E a multidão estava assentada ao redor dele, e disseram-lhe: Eis que tua mãe e teus irmãos te procuram, e estão lá fora. E ele lhes respondeu, dizendo: Quem é minha mãe e meus irmãos? E, olhando em redor para os que estavam assentados junto dele, disse: Eis aqui minha mãe e meus irmãos. Porquanto, qualquer que fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, e minha irmã, e minha mãe(Marcos 3:32-35)
 
Em resposta, ele cita um tal de James Spencer Northcote – que a paz esteja com ele – que diz:
 
Jesus aproveitou esta oportunidade para mostrar que Ele considerava todos os Seus seguidores (no que se tornaria a Igreja cristã) como família. Da mesma forma, Ele disse a Seus discípulos: “Eu os chamei de amigos” (Jo 15:15). Não se segue que isso seja “uma rejeição desses parentes” (ou seja, sua família imediata). Ele simplesmente passou de uma conversa literal sobre famílias para uma concepção e visão mais amplas de famílias como aquelas que fazem “a vontade de Deus”. Assim, Jesus costumava usar “irmãos” para descrever aqueles que não eram sua família imediata. (...) Não é uma rejeição de Sua mãe e pai e meio-irmãos e/ou primos... é simplesmente o começo do Corpo de Cristo, e a Igreja cristã sendo considerada como uma grande e extensa família.
 
E então ele complementa:
 
Nada disso tem relação com o status espiritual de Maria. É simplesmente Jesus “expandindo o círculo” dos crentes cristãos, por assim dizer. Protestantes como Lucas veem isso como uma suposta difamação de Maria porque já estão predispostos a fazê-lo antes de lerem o texto. Tal visão não é inerente ao texto.
 
Note como Dave é que já está predisposto a enxergar “difamação a Maria” em qualquer coisa, mesmo quando em nenhum momento o texto foi usado para “difamar” Maria (o termo que ele usa no inglês é denigration, que o dicionário define como «a ação de criticar injustamente alguém ou alguma coisa», como se alguém aqui estivesse “criticando” Maria!). Nós apenas dizemos o que o texto explicitamente diz: que qualquer um que fizer a vontade de Deus é «irmão» (adephos) e até mesmo «mãe» (meter) espiritual de Jesus.
 
Isso obviamente não é o mesmo que negar que existam os vínculos parentais naturais, mas significa que o vínculo espiritual, para Jesus, tinha muito mais valor que o vínculo biológico – reforçando tudo o que vimos em Lucas 11:27-28. Note o quão importante é o contexto aqui, pois a mãe e os irmãos de Jesus lhe estavam chamando do lado de fora, e em vez de lhes atender o pedido e sair para falar com eles, Jesus continua dentro da casa falando com a multidão. Em outras palavras, Jesus claramente prioriza os seus seguidores em detrimento da sua família.
 
É justamente por isso que ele justifica essa escolha ao dizer que qualquer um que faz a vontade de Deus é da sua família, como que dizendo que ele não estava desonrando sua família, porque todos ali eram “família”. Em outras palavras, a família natural não estava acima da família espiritual e nem era mais importante que ela. E se isso é assim, qualquer argumento em torno da suposta superioridade/impecabilidade de Maria que se baseia exclusivamente na relação parental (e não em algum texto que objetivamente assim o afirme) é reduzido às cinzas.
 
 
Mas pode (de fato deve) haver um ser humano que seja mais santo do que qualquer outro, assim como existem pessoas que jogam basquete melhor do que qualquer outra, ou correm mais rápido, ou entendem matemática melhor do que qualquer outra, etc. Os católicos dizem – com base na Bíblia e na Tradição Sagrada ininterrupta – que essa pessoa é a Bem-Aventurada Virgem Maria.
 
Sim, há pessoas que “jogam basquete melhor do que qualquer outra”, mas nenhuma que acerte todas as cestas sem nunca errar um único lance (até Jordan errava). Também há pessoas que “correm mais rápido”, mas nenhuma que corra na velocidade da luz ou que nunca tenha perdido uma corrida na vida (até Bolt perdia). Também há pessoas que “entendem matemática melhor que qualquer outra”, mas nenhuma que tenha solucionado todas as equações existentes ou que nunca tenha errado um cálculo (até Einstein errou). Portanto, o que Dave está argumentando vai contra os próprios exemplos que ele passa na analogia: que existiu um ser humano não-divino (Maria) que não apenas foi mais santo que todos os outros, mas que nunca cometeu um único pecado.
 
Talvez seja por isso que muitos católicos a vejam literalmente como uma espécie de divindade – tal como as palavras de Afonso de Ligório –, já que é difícil imaginar como tal feito seria possível com qualquer ser humano não-divino. Ela é chamada de “esposa do Espírito Santo”, é considerada “co-redentora” e alguns até querem que ela seja reconhecida oficialmente como um quarto membro da Santíssima Trindade (que teria que mudar de nome). A partir do momento em que se diz que ao longo de todos seus longos de vida na terra Maria não teve sequer um único pensamento impuro ou cometeu um único ato pecaminoso, é inevitável associá-la a um ente quase divino, senão com a própria divindade.
 
(Meu artigo) Enquanto o católico rebaixa todo mundo para elevar Maria de forma idólatra (...)
 
(Resposta do Dave) Nós não fazemos tal coisa. Simplesmente dizemos que ela não tinha pecado e era a maior criatura de Deus (o que alguém logicamente tem que ser; por exemplo, talvez um protestante diria que essa pessoa era São Paulo).
 
Isso é algo que simplesmente não pode ser provado. Mesmo quando Jesus fala daquele que foi o maior entre os nascidos de mulher até o seu nascimento, ele não aponta a sua própria mãe, como qualquer papista faria, mas João Batista:
 
“Digo-lhes a verdade: Entre os nascidos de mulher não surgiu ninguém maior do que João Batista; todavia, o menor no Reino dos céus é maior do que ele” (Mateus 11:11)
 
Se não surgiu ninguém maior que João Batista, Maria pode estar no máximo no mesmo nível dele, mas não acima, como defende Dave e os demais apologistas que a colocam acima de todos os homens e até mesmo dos anjos. Mais uma vez, isso não é “depreciar” Maria. São os católicos que depreciam João Batista ao fazê-lo menor do que Maria, quando o próprio Senhor Jesus disse que não havia ninguém maior do que João.
 
Para piorar, católicos como Dave não apenas dizem que Maria foi a maior humana que já existiu, mas a maior criatura, colocando-a acima até dos anjos. Isso não só é obviamente impossível de ser provado, mas é efetivamente refutado nas Escrituras dado o fato de que o próprio Senhor Jesus foi inferior aos anjos enquanto esteve entre nós:
 
“Vemos, porém, coroado de glória e de honra aquele Jesus que fora feito um pouco menor do que os anjos, por causa da paixão da morte, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todos” (Hebreus 2:9)
 
Mesmo sendo Deus encarnado, Jesus na terra foi feito «um pouco menor do que os anjos», porque na hierarquia divina os anjos estão acima dos seres humanos, e Jesus havia se tornado um ser humano completo. Se até mesmo Jesus esteve abaixo dos anjos, quem Dave Armstrong pensa que é para dizer que Maria está acima? Mesmo se Maria estivesse no céu agora, ela ainda seria humana, e, portanto, inferior aos anjos na hierarquia. E a Bíblia é muito clara em dizer que a glorificação só ocorre na ressurreição (1Co 15:51-54; Cl 3:4), não em um suposto estado intermediário (algo que Dave já deveria saber, de tanta vergonha que já passou tentando refutar os meus artigos sobre imortalidade da alma).
 
 
E não fazemos dela um ídolo porque não a cultuamos ou adoramos como uma deusa. Nós a veneramos e honramos, o que é algo perfeitamente bíblico.
 
Isso é uma repetição do que já foi refutado no começo. Da boca pra fora, eles chamam de “veneração”, mas, na prática, tudo o que fazem é indistinguível de uma verdadeira adoração (como eu mostrei neste artigo). É por isso que os católicos no geral rezam muito mais o Ave Maria do que o Pai Nosso, que o Rosário e o terço são muito mais centrados em Maria do que em Jesus, que existem milhões de igrejas com o nome de “Nossa Senhora de alguma coisa” para quase nada que remeta a Jesus, que Maria é muito mais enfatizada nas missas do que Jesus, que eles têm muito mais imagens de Maria do que de Jesus, e que mesmo quando Jesus aparece é na forma de um bebê indefeso nos braços de Maria, para ressaltar a imagem da superioridade da mãe sobre o filho (mesmo que a própria Maria se reconhecesse como uma serva do Senhor).
 
Só um completo alienado ou mal-intencionado não seria capaz de perceber como Maria tem um lugar de primazia no catolicismo que vai muito além de Cristo – chamando isso de “adoração” ou não. Como eu já explorei este assunto amplamente neste artigo de 2013, não me prolongarei aqui a respeito (quem sabe um dia escreva um livro inteiro só sobre isso, para a alegria de Dave, que vai ter mais um livro gigantesco para ocupar o seu tempo livre).
 
 
Que afirmação estranha, visto que os católicos têm muitas santas que veneramos e proclamamos quatro Doutoras da Igreja: Santa Teresa de Ávila (1515-1582), Santa Catarina de Sena (1347-1380), Santa Teresa de Lisieux (1873-1897) e Santa Hildegarda de Bingen (1098-1179). Os Doutores da Igreja são “santos cuja escrita ou pregação se destaca por guiar os fiéis em todos os períodos da história da Igreja” (Fr. John A. Hardon, SJ, Modern Catholic Dictionary).
 
Este comentário se relaciona com meu comentário sobre a misoginia, que, embora não seja o tema central do artigo, é importante que se destaque que sempre esteve presente na Igreja Romana, principalmente durante a Idade Média e nos séculos posteriores à Reforma. No momento eu estou no processo de escrever um livro justamente sobre a história da misoginia, e um dos períodos mais sombrios para ser mulher era justamente na Europa católica medieval. Temos um exemplo primoroso disso em São Tomás de Aquino, o “príncipe da escolástica”, tido por muitos papistas como o maior intelectual da história da Igreja, que, não obstante, estaria provavelmente atrás das grades se expressasse nos dias de hoje as mesmas abominações misóginas que expressava em sua época.
 
A misoginia de Aquino já foi amplamente documentada neste artigo de 2018, onde eu mostro algumas citações da Suma Teológica (sua obra mais famosa) onde ele chama as mulheres de «macho degenerado», que tem «menor virtude e dignidade que o homem», que é «um ser deficiente e falho», que tem «maior discreção racional», que era classificada com «as crianças e os dementes» por «falta de razão», que era obrigada a obedecer a vontade do seu marido por ele ser seu «superior», que o sexo masculino é o «mais nobre», que o homem é «mais perfeito» e «mais digno» do que a mulher, que a mulher tem menor «vigor de alma» que o homem, que ela só existe para gerar descendência, que o homem podia se casar com uma criança de 12 anos ou até menos (Maomé aplaudiria de pé!), que a mulher era obrigada a ter relações sexuais com um marido leproso, que o homem pode ter várias mulheres mas a mulher não pode ter mais de um homem, que o rapto é justificável dependendo da circunstância e outras muitas monstruosidades sem fim.
 
Quase sempre que as mulheres são mencionadas na Suma é de forma pejorativa e depreciativa, com exceção de casos pontuais e particulares (como os exemplos que Dave cita, que eram a exceção e não a regra). Se as mulheres no Ocidente vivem hoje em um mundo que não se parece com o ISIS, não é por causa da Igreja Católica, mas justamente porque a moral católica foi superada ao longo dos séculos. Dependesse dos doutores da Igreja, como Aquino, e estariam sendo legalmente espancadas por seus maridos até hoje, como ele abertamente defende no livro que é considerado a grande obra-prima da fé católica:
 
“Há duas espécies de sociedade: Uma, a doméstica, como a família; outra política, como a cidade e o reino. Ora, o chefe da segunda espécie de sociedade, que é o rei, pode infligir penas tanto consecutivas como exterminativas do culpado, a fim de purificar a sociedade cujo governo lhe incumbe. Mas o chefe da primeira espécie de necessidade, que é o pai de família não pode infligir senão uma pena corretiva, que não ultrapassa, diferentemente da pena de morte, os limites da correção. Por onde, o marido, que tem o governo da sua mulher, não na pode matar, mas somente castigar(Suma Teológica. Suplemento. Questão 60, Art. 1)
 
“O pecado de fornicação cometido pela mulher pode ser castigado, não somente pela pena referida, mas também por palavras e açoites(Suma Teológica. Suplemento. Questão 62, Art. 2)
 
É intrigante que na mesma época em que a virgem Maria era idolatrada como uma semideusa ou até mais do que isso, as mulheres no geral não tinham praticamente qualquer direito, não recebiam nenhuma educação formal, eram esmagadoramente analfabetas, tratadas com desprezo, estupradas com frequência e apanhavam de seus maridos sem que a lei sequer estivesse do lado delas, pois quem fazia as leis era exatamente o tipo de gente que Aquino representava com perfeição. Quando os protestantes chegaram com a doutrina do sacerdócio universal de todos os crentes, não foi para diminuir Maria, mas para elevar o status de todo ser humano – e de todas as mulheres, principalmente.
 
Isso é exatamente o que eu havia afirmado no artigo que Dave tentou refutar tão inutilmente quanto todos os outros:
 
Isso não é diminuir Maria, mas elevar todos os outros em igual dignidade. Na cabeça do apologista católico, só se pode honrar Maria se rebaixa todos os outros. Na Bíblia, Maria está no mesmo grupo dos outros que buscam a Deus, não porque ela seja desprezível, mas porque os outros são tão importantes quanto ela em sentido espiritual perante Deus. Enquanto o católico rebaixa todo mundo para elevar Maria de uma forma idólatra, a Bíblia eleva todos, sem exceção, que fazem a vontade de Deus, aos olhos de Deus. Ela não exalta uma para rebaixar os demais; ela exalta os demais igualando todos sob a misericórdia e o amor de Deus.
 
É isso o que o apologista católico não entende. Na ânsia em idolatrar Maria como uma deusa e desprezar todos os outros, ele pensa que o apologista protestante é que está “difamando Maria” por não tratá-la como uma deusa também. Mesmo que o apologista protestante reconheça tudo o que a Bíblia diz sobre a mãe de Jesus – que foi abençoada, bem-aventurada e uma mulher virtuosa –, ele exige que se creia em todos os dogmas marianos, incluindo o de que Maria é imaculada e superior até aos anjos, do contrário é o protestante que “odeia” Maria, e não o papista que a idolatra de uma forma que a Bíblia jamais se refere a ela. É por isso que, se algum dia Dave responder a este artigo, vai ser com mais vitimização e ataques emocionais, não pela exegese, que ele não tem nenhuma.
 
Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (youtube.com/LucasBanzoli)

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14 comentários:

  1. Lucas, si quieres te puedo pasar un artículo de los papas de iglesia católica quién negaron la inmaculada concepción pero colocando el link de la fuente original (incluso en latín). Digo, por si crees que te será necesario en el futuro. Bendiciones.

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  2. Bendiciones Lucas, sobre la frase "llena eres de gracia" el apologista Roberto Isaac refutó el argumento de utilizar ese texto bíblico a favor de la inmaculada concepción de María de una forma muy académica. Te comparto su artículo si tienes el interés de publicarlo en tu página. Bendiciones hermano.

    https://conociendolaverdadbiblia.blogspot.com/2019/11/expresa-kejaritomene-culto-de.html?m=1

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    1. El artículo es excelente, cuando tenga tiempo quiero traducirlo y publicarlo aquí, gracias por compartirlo!

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  3. Excelente artigo. Mais uma vez meus mais sinceros parabéns.
    Quando eu tiver um tempinho irei postar aqui os documentos oficiais da Igreja Católica endeusando Maria.

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    1. Fico no aguardo, os seus comentários são sempre muito pertinentes!

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  4. Documentos oficiais da Igreja Católica que endeusam Maria:

    1) Maria é uma deusa, pois foi transformada em deusa:

    “O Verbo fez-Se carne, para nos tornar ‘participantes da natureza divina’ (2 Pe 1, 4): ‘Pois foi por essa razão que o Verbo Se fez homem, e o Filho de Deus Se fez Filho do Homem: foi para que o homem, entrando em comunhão com o Verbo e recebendo assim a adoção divina, se tornasse filho de Deus’. ‘Porque o Filho de Deus fez-Se homem, para nos fazer deuses’. ‘Unigenitus [...] Dei Filias, suae divinitatis volens nos esse participes, naturam nostram assumpsit, ut homines deos faceret factos homo – O Filho Unigênito de Deus, querendo que fôssemos participantes da sua divindade, assumiu a nossa natureza para que, feito homem, fizesse os homens deuses’”
    (Catecismo da Igreja Católica, 460)
    Fonte: https://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p1s2cap2_422-682_po.html

    Confundindo a participação na natureza divina de Cristo com a divinização do homem, o Catecismo diz que Deus se fez homem para nos transformar em deuses. Como, na doutrina católica, o que acontecerá no futuro para nós já é presente para Maria, ela já é considerada uma deusa para o Magistério católico, embora por participação, não por natureza.

    Sabemos, entretanto, que Maria não é deusa nem por participação, nem por natureza, nem por metáfora, por hipérbole ou por qualquer outra figura de linguagem.

    2) Maria é mais endeusada que todas as criaturas:

    Sim, o papa Pio XII disse isso em alto e bom som:

    “E o Empíreo viu que Ela era realmente digna de receber a honra, a glória, o império, — porque mais cheia de graça, mais santa, mais formosa, MAIS ENDEUSADA, incomparavelmente mais, que os maiores Santos e os Anjos mais sublimes, ou separados ou juntos; — porque misteriosamente emparentada na ordem da União hipostática com toda a Trindade beatíssima, com Aquele que só é por essência a Majestade infinita, Rei dos reis e Senhor dos senhores, qual Filha primogénita do Padre e Mãe estremosa do Verbo e Esposa predilecta do Espírito Santo; — porque Mãe do Rei divino, d'Aquele a quem desde o seio materno deu o Senhor Deus o trono de David e a realeza eterna na casa de Jacob (3) e que de si mesmo proclamou, ter-lhe sido dado todo o poder nos céus e na terra : (4) Ele o Filho Deus, reflecte sobre a celeste Mãe a glória, a majestade, o império da sua realeza; — porque associada, como Mãe e Ministra, ao Rei dos mártires na obra inefável da humana Redenção, lhe é para sempre associada, com um poder quasi imenso, na distribuição das graças que da Redenção derivam.”

    Fonte: https://www.vatican.va/content/pius-xii/pt/speeches/1946/documents/hf_p-xii_spe_19460513_fatima.html

    Aqui o papa Pio XII diz claramente que Maria é mais endeusada que todos os santos e anjos, juntos ou separados. Ele diz isso porque, segundo o papa, ela foi e é “misteriosamente emparentada na ordem da União hipostática com toda a Trindade beatíssima”. Ou seja, para Pio XII Maria é endeusada porque possui uma união hipostática com toda a Trindade. Uau!

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  5. 3) A oração dirigida a Maria tem algo de comum com o culto de latria que se presta a Deus:

    O papa Leão XIII exagerou um pouquinho em sua devoção mariana e soltou essa pérola aqui:

    “10. Pelo fato, pois, de estar esta milícia orante ‘alistada sob a bandeira da DIVINA MÃE’, ela adquire uma nova força e se ilustra de nova alegria, como sobretudo demonstra, na recitação do Rosário, a freqüente repetição da saudação angélica depois da oração dominical. Esta prática, longe de ser incompatível com a dignidade de Deus ― como se insinuasse que nós devemos confiar mais em Maria Santíssima do que no próprio Deus ― tem, ao contrário, uma particularíssima eficácia para O comover e no-lo tornar propício. De feito, a fé católica nos ensina que nós devemos orar não só a Deus, mas também aos Santos (Concilum Tridentinum Sessio 25), embora de maneira diferente: a Deus, como fonte de todos os bens; aos Santos, como intercessores.”

    ‘De dois modos pode-se dirigir a alguém um pedido’, diz S. Tomás: ‘com a convicção de que ele possa atendê-lo ou com a persuasão de que ele possa impetrar aquilo que se pede. DO PRIMEIRO MODO SÓ ORAMOS A DEUS, porque todas as nossas preces devem ser dirigidas à consecução da graça e da glória, que só Deus pode dar, como é dito no Salmo 83, 12: ‘A graça e a glória dá-a o Senhor’. Da segunda maneira apresentamos o mesmo pedido aos santos Anjos e aos homens; não para que, por meio deles, Deus venha a conhecer os nossos pedidos, mas para que, pela intercessão deles e pelos seus méritos, as nossas preces sejam atendidas.

    E por isto, no capítulo VIII, 4 do Apocalipse se diz que o fumo dos aromas, pelas orações dos Santos, subiu da mão do Anjo à presença de Deus" (S. Thomas de Aquino, II-II q. 83, a. 4). Ora, entre todos os Santos que habitam as mansões bem-aventuradas, quem poderá competir com a augusta Mãe de Deus em impetrar a graça? Quem poderá com maior clareza ver no Verbo eterno de Deus as nossas angústias e as nossas necessidades? A quem foi concedido maior poder em comover a Deus? Quem como ela tem entranhas de maternal piedade? É ESTE PRECISAMENTE O MOTIVO PELO QUAL NÓS NÃO ORAMOS AOS SANTOS DO CÉU DO MESMO MODO COMO ORAMOS A DEUS; ‘porquanto à SS. Trindade pedimos que tenha piedade de nós, ao passo que a todos os outros Santos pedimos que roguem por nós’ (S. Th., II-II q. 83, a. 4).

    EM VEZ DISTO, a oração que dirigimos a Maria TEM ALGO DE COMUM COM O CULTO QUE SE PRESTA A DEUS; tanto que a Igreja a invoca com esta expressão, que se costuma endereçar a Deus: ‘Tem piedade dos pecadores’. Portanto, os confrades do santo Rosário fazem muito bem em entrelaçar tantas saudações e tantas preces a Maria, como outras tantas coroas de rosas. De feito, DIANTE DE DEUS MARIA É ‘TÃO GRANDE E VALE TANTO QUE, A QUEM QUER GRAÇAS E A ELA NÃO RECORRE, O SEU DESEJO QUER VOAR SEM ASAS’.”

    Fonte: https://www.vatican.va/content/leo-xiii/pt/encyclicals/documents/hf_l-xiii_enc_12091897_augustissimae-virginis-mariae.html

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  6. 4- Afirmar que Maria é nossa corredentora é atribuir a ela uma divindade:

    Vários papas e diversos católicos leigos com devoção mariana exagerada consideraram Maria como corredentora, como se pode ler neste artigo:

    https://recadosdoaarao.com.br/?cat=17&id=7201

    Dizer que Maria é corredentora, que ela redimiu o gênero humano juntamente com Jesus é dar a ela divindade, pois foi por causa da divindade de Jesus que ele pôde redimir a humanidade, como diz no Catecismo:

    “É o ‘amor até ao fim’ que confere ao sacrifício de Cristo o valor de redenção e reparação, de expiação e satisfação. Ele conheceu-nos e amou-nos a todos no oferecimento da sua vida. ‘O amor de Cristo nos pressiona, ao pensarmos que um só morreu por todos e que todos, portanto, morreram’ (2 Cor 5, 14). Nenhum homem, ainda que fosse o mais santo, estava em condições de tornar sobre si os pecados de todos os homens e de se oferecer em sacrifício por todos. A EXISTÊNCIA, EM CRISTO, DA PESSOA DIVINA DO FILHO, QUE ULTRAPASSA E AO MESMO TEMPO ABRANGE TODAS AS PESSOAS HUMANAS E O CONSTITUI CABEÇA DE TODA A HUMANIDADE, É QUE TORNA POSSÍVEL O SEU SACRIFÍCIO REDENTOR POR TODOS.” (Catecismo da Igreja Católica, 616)
    https://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p1s2cap2_422-682_po.html

    O papa Francisco sensata e prudentemente negou esse título a Maria, e exortou os católicos a terem cuidado com isso:

    “Cristo é o Mediador, a ponte que atravessamos para nos dirigirmos ao Pai (cf. Catecismo da Igreja Católica, 2674). É O ÚNICO REDENTOR: NÃO EXISTEM CORREDENTORES COM CRISTO. É o Mediador por excelência, é o Mediador. Cada oração que elevamos a Deus é por Cristo, com Cristo e em Cristo, e realiza-se graças à sua intercessão. O Espírito Santo alarga a mediação de Cristo a todos os tempos e lugares: não há outro nome no qual podemos ser salvos (cf. At 4, 12). Jesus Cristo: o único Mediador entre Deus e os homens.”
    (…)
    “Jesus estendeu a maternidade de Maria a toda a Igreja quando lhe confiou o discípulo amado, pouco antes de morrer na cruz. A partir daquele momento, fomos todos colocados debaixo do seu manto, como vemos em certos afrescos ou quadros medievais. Também na primeira antífona latina, Sub tuum praesidium confugimus, sancta Dei Genitrix: Nossa Senhora que, como Mãe a quem Jesus nos confiou, envolve todos nós; MAS COMO MÃE, NÃO COMO DEUSA, NÃO COMO CORREDENTORA: como Mãe. É verdade que a piedade cristã sempre lhe atribui títulos bonitos, como um filho à mãe: quantas palavras bonitas um filho dirige à sua mãe, a quem ama! Mas TENHAMOS CUIDADO: as belas palavras que a Igreja e os Santos dirigem a Maria em nada diminuem a singularidade redentora de Cristo. Ele é o único Redentor. São expressões de amor, como de um filho à mãe, às vezes exageradas. Contudo, como sabemos, o amor leva-nos sempre a fazer coisas exageradas, mas com amor.”

    Fonte: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/audiences/2021/documents/papa-francesco_20210324_udienza-generale.html

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    1. Excelente! Você deveria guardar essas citações em algum site, pra não perder um dia (eu estou salvando aqui, em todo caso).

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    2. Pois é, já pensei nisso. Talvez um dia eu crie um site para compartilhar tudo o que possuo. Tenho bastante coisa interessante.

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    3. Se um dia levar esse projeto adiante, me avise para que eu possa ajudar na divulgação e incluir na lista de "sites recomendados".

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    4. Pra mim já é uma honra ter minhas pesquisas publicadas no seu site, que já é internacionalmente conhecido e é sinceramente na minha opinião o melhor site apologético que conheço. Ter um site meu recomendado por você seria a glória. kkkkk. Mas, vou aceitar sua sugestão e criar o site para compilar minhas pesquisas para serem usadas por apologetas protestantes. Aí, qdo estiver pronto, prometo que lhe comunico em primeiríssima mão. Mês que vem entro de férias e isso irá ajudar bastante.

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    5. Que isso, pra mim é que é uma honra ter comentários de tão alto nível aqui no site, inclusive eu usei recentemente algumas dessas citações que você fez acima na minha live mais recente (link abaixo). Se você quiser está convidado pra participar de lives futuras, é só me contactar pelo facebook pra gente se falar melhor. Abs!

      https://www.youtube.com/watch?v=9QmpI7OAMjk

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