15 de novembro de 2022

2 A hilária tentativa de Dave Armstrong de encontrar o celibato obrigatório do clero na Bíblia

 

Introdução
 
Aproveitei o feriado prolongado de 15 de novembro para o meu mais novo hobby favorito: refutar as “refutações” do Dave Armstrong. Para que os temas não fiquem repetitivos, escolhi desta vez este artigo sobre o celibato obrigatório, e nas próximas semanas escolherei um outro para ir variando os temas. Assim como na minha refutação anterior sobre as “almas debaixo do altar”, esta será uma resposta longa e exaustiva, que cobrirá todo o longo texto de Dave (marcado em vermelho itálico), então sente com calma e pegue a pipoca. Antes, porém, eu preciso comentar uma nota que Dave soltou em seu facebook (se você não está nem aí com esse tipo de discussão ao maior estilo “Casos de Família”, é só pular para o tópico seguinte).
 
Resumidamente, a nota é um longo e extenuante “mimimi” onde Dave não refuta coisa alguma, mas reclama daquilo que chamou de “insultos” (qualquer um pode ler meu artigo anterior e concluir por si mesmo se ele foi mesmo insultado). Embora eu tenha posteriormente constatado que o tradutor do Google lamentavelmente traduz algumas palavras em português com um tom um tanto quanto mais ácido em inglês (por exemplo, “tosco” por “idiot” e “baboseira” por “bullshit”), em nenhum momento eu cheguei a usar termos como “patético” (“pathetic”), como ele fez comigo, antes mesmo de eu dar minha primeira resposta.
 
Ou seja, Dave partiu para os insultos e linguagem agressiva antes mesmo que eu lhe dirigisse a primeira palavra – isso sem falar das inúmeras provocações –, e depois que é respondido na mesma moeda se faz de vítima e lança uma imensa nota para chorar publicamente diante de seus seguidores. Isso sim é “patético, constrangedor...”. Dave segue à risca a “máxima de Lenin” (que na verdade não é de Lenin): “Xingue-os do que você é; acuse-os do que você faz”. É como um jogador de futebol que chega num carrinho desleal por trás sem que o adversário lhe tivesse feito qualquer coisa, e depois que é retrucado com um empurrão se joga no chão e se faz de vítima para impressionar o juiz. Se ele deu o tom de como o debate seria, que pelo menos seja homem pra comprar as consequências de sua própria escolha.
 
No mais, Dave confirmou que realmente nunca debateu ao vivo em vídeo com protestante nenhum (ele disse que tem uma “boa razão” para isso, que manteve misteriosamente em segredo), talvez porque seja muito mais fácil debater quando se tem o Google ao seu lado e infinitamente mais tempo que o oponente, em contraste a um debate em que o tempo de ambos é igual e não tem para onde fugir. É por isso que quando fui desafiado há algum tempo atrás por um apologista católico eu fiz questão de aceitar desde que fosse ao vídeo em vídeo com todo mundo assistindo, pois sabia que sem o control c + control v habitual ele passaria vergonha (que foi exatamente o que aconteceu, como você pode ver aqui). Eu até mesmo faria questão de melhorar meu inglês para debater ao vivo com Dave, se ele não fosse tão covarde de recusar debates que não sejam por carta ou numa máquina de escrever (você pode ver aqui uma lista mais ampla de debates meus em lives).
 
Dave também confirmou que não tem trabalho, embora ele considere que passar o dia todo escrevendo contra protestantes seja um “trabalho” (neste caso eu já “trabalhava” aos 16 anos quando debatia o dia todo no Orkut) e que vive de doações – embora não “só” de doações, fez questão de frisar –, o que por si só não seria um problema, se não usasse essa vantagem competitiva a seu favor na hora de responder a outros apologistas mais ocupados que simplesmente não tem como competir com alguém que já escreveu dez artigos antes que você tenha terminado o primeiro, para depois sair cantando “vitória” na internet. E depois ainda acha que a razão por que é sumariamente ignorado por muitos apologistas protestantes americanos muito superiores a ele é por “medo”, como se esses artigos burlescos representassem realmente algum desafio.
 
 
O que Dave argumenta
 
Sem mais delongas, vamos ao que interessa. No dia 24 de setembro, Dave respondeu ao meu artigo intitulado “O celibato obrigatório do clero é bíblico?”, de cinco anos atrás. No artigo em questão, eu começo dizendo:
 
Em primeiro lugar, é necessário deixar claro que o que será refutado aqui não é o “celibato” em si, mas sim o celibato obrigatório, que é a imposição de celibato para alguém que quiser ser sacerdote na igreja. O celibato em si é respeitável; Paulo foi celibatário assim como João Batista, mas o eram por opção e não por imposição ou obrigação.
 
Em outras palavras, eu deixo muito bem claro desde o início que o problema não é o celibato em si, desde que ele seja opcional. O problema é impor o celibato como um requisito para que alguém seja padre, algo que não vemos em parte alguma da Bíblia (e o próprio Dave parece reconhecer isso). Então ele responde:
 
A Igreja Católica (rito latino ou ocidental; nem todas as partes da Igreja) tem esse requisito. Mas ao fazê-lo simplesmente escolhe para seus sacerdotes homens que já foram chamados por Deus ao celibato (e ao sacerdócio). Nesse sentido, não está forçando-os a fazer nada. Por esse raciocínio, alguém teria que dizer que Deus os “forçou” chamando-os a esse estilo de vida em primeiro lugar. Mas eles tinham o livre-arbítrio para seguir esse chamado ou não, assim como eu fiz para seguir meu chamado como apologista. Não era “obrigatório” que eu fizesse isso. Escolhi seguir e perseguir o que acredito que Deus me chamou, e para o qual ele me deu vários dons (“que cada um leve a vida que o Senhor lhe designou e na qual Deus o chamou”; 1Co 7:17).
 
Em outras palavras, a Igreja Romana (ou “rito latino”, se achar mais chique) não obriga ninguém a ser celibatário, mas obriga que seja celibatário se quiser entrar para o sacerdócio. Assim, a Igreja não força ninguém ao celibato, mas o impõe como uma condição sine qua non para que seja padre. Aparentemente, Dave ainda não captou a ideia de que quando falamos em “celibato obrigatório do clero” não estamos dizendo que a Igreja castre uma pessoa à força (embora já tenha feito coisas bem piores no passado), mas que impõe obrigatoriamente o celibato como condição ao sacerdócio – algo que simplesmente não existe na Bíblia. E o maior problema não é nem mesmo o fato de “não existir” na Bíblia, mas de se chocar explicitamente com ela.
 
No artigo eu cito vários personagens bíblicos entre líderes religiosos e sacerdotes do Antigo e do Novo Testamento que foram casados, além de textos que explicitamente afirmam que os bispos poderiam ser casados e ter filhos (1Tm 3:1-7; Tt 1:6-9), o que significa que a condição que o “rito latino” impõe como indispensável ao sacerdócio se choca frontalmente com as condições impostas na Escritura (onde, repito, o celibato nunca é apontado como um requisito à entrada no sacerdócio, e numerosos sacerdotes eram de fato casados).
 
 
Mas Lucas pressupõe algo que – após reflexão – não é verdade: a inadmissibilidade de uma instituição ou organização de elaborar regras para seus membros, por qualquer motivo que considere adequado e útil. Se alguém quiser jogar na NBA, terá que ter a habilidade de arremessar cestas ou jogar bem na defesa. Isso exclui muitas pessoas desde o início. Um árbitro de beisebol ou um motorista de ônibus não podem ser cegos. Um arremessador da liga principal precisa ser capaz de arremessar rápido (muito mais rápido do que uma pessoa comum). Uma pessoa nas forças armadas (no campo de batalha) tem que ser saudável e fisicamente apto. Um professor de jardim de infância tem que gostar de crianças pequenas. Um jardineiro não pode ter alergias graves. Um apresentador de talk show tem que gostar de falar. Etc., etc., ad infinitum.
 
É difícil saber se Dave realmente não entendeu o ponto ou se apenas se faz de desentendido com as suas “ilustrações ad infinitum”. O problema não é a Igreja ter suas próprias regras; o problema é essas regras se chocarem diretamente com as Escrituras.
 
É curioso que o lema do site de Dave seja “biblical evidence for catholicism” (provas bíblicas do catolicismo), mas quando mostramos que a Bíblia efetivamente se opõe a uma prática do catolicismo (i.e, a de condicionar o sacerdócio ao celibato), isso não é um problema para eles, já que “a Igreja tem o direito de elaborar suas próprias regras para os seus membros”. Mas em vez de ser honesto e tirar o “biblical evidence for catholicism” do seu site, Dave prefere continuar enganando as pessoas fazendo-as acreditar que há “evidência bíblica” para o catolicismo, ao mesmo tempo em que rejeita a Bíblia na primeira oportunidade em que a mesma se choca com as normas de sua própria instituição.
 
Podemos ver o quão absurdas são as analogias “ad infinitum” de Dave quando simplesmente paramos para pensar um pouco sobre elas. “Um árbitro de beisebol ou um motorista de ônibus não podem ser cegos”. Óbvio. Mas se o celibato obrigatório (no sentido já explicado acima) fosse tão óbvio quanto, por que não foi imposto nem na lei de Deus do AT, nem por Jesus, e tampouco pelos apóstolos? Dave está literalmente chamando Deus, Jesus e os apóstolos de imbecis por não perceberem algo tão óbvio, comparável a um motorista de ônibus não poder ser cego (o que na sua pobre analogia equivale ao sacerdote ser celibatário). Ou Dave não sabe como funciona uma analogia, ou pensa que todos nos tempos bíblicos eram estúpidos para não se darem conta de algo tão evidente.
 
Na cabeça de Dave, é como se todo mundo nos tempos bíblicos não tivesse notado que era importante que um motorista de ônibus não fosse cego, e precisou que muitos séculos mais tarde a maravilhosa instituição católica romana tivesse maior clareza sobre esse assunto e percebesse algo tão óbvio, que passou despercebido até para Deus. Em outras palavras, é como se as autoridades católicas romanas tivessem mais esclarecimento quanto ao celibato como condição ao sacerdócio do que o próprio Deus que entregou Sua revelação no Antigo e no Novo Testamento, onde aprova exatamente aquilo que a instituição de Dave desaprova. Deus permite, mas a Igreja Católica não, e prevalece o que a Igreja Católica proibiu, não o que Deus permitiu. Essa é a “lógica” por detrás das bisonhas analogias “daverianas” (espero que o tradutor do Google saiba traduzir isso).
 
 
Eles têm o direito de fazer quaisquer regras e requisitos que considerem ideais para eles também. Os ortodoxos exigem o celibato de seus bispos. Então Lucas vai dizer que eles também não podem fazer isso? Eles têm suas razões, assim como nós. Simplesmente tornamos a exigência mais ampla do que eles, e achamos que é bom que padres e bispos sejam celibatários.
 
A questão não é se eles têm o “direito”. Os espíritas também têm o “direito” de invocar os espíritos, assim como os ateus têm o “direito” de não crer em Deus e os muçulmanos de adorar Maomé. A questão é se esse direito é bíblico ou não. E por “bíblico” eu não me refiro ao celibato em si, o qual, como expliquei já na primeira linha do meu artigo de 2017, não é o que está em jogo, e sim sua obrigatoriedade como condição ao sacerdócio. Para ser mais claro: na Igreja primitiva os sacerdotes tinham o direito de se casar caso quisessem, e a Igreja Romana hoje os priva desse direito. Que moral tem a Igreja Romana (ou qualquer outra) para privar as pessoas de algo que a própria Bíblia explicitamente permite?
 
Isso nada mais é que um ato de arrogância, de alguém que pensa que sua instituição religiosa está literalmente acima das Escrituras e por isso pode passar por cima delas ao seu bel-prazer (enquanto, paradoxalmente, alega que sua fé está totalmente fundamentada na própria Bíblia, por mais cínico que pareça).
 
 
(Meu artigo) O mais importante a mostrar logo de cara é que na Bíblia NUNCA há qualquer imposição de celibato para ser padre; ao contrário, vemos os sacerdotes, via de regra, tendo esposas.
 
(Resposta do Dave) Não é necessário que vejamos tal exigência. Na Igreja Católica, o celibato é uma disciplina pastoral, não um dogma. Ele pode mudar e mudou. Portanto, tudo o que precisamos ver na Bíblia é qualquer modelo de celibato que seja apresentado positivamente. E nós certamente os temos.
 
Ah, ufa! Ainda bem que é só uma “disciplina pastoral” e não um “dogma”, então não tem problema passar por cima das Escrituras! É bom saber que basta um jogo de palavras para ser autorizado a quebrar qualquer ensino bíblico, à vontade. Basta dizer que é apenas uma “disciplina pastoral” e pronto, problema resolvido! Se eu disser que posso adulterar sem pecar, mas acrescentar o importantíssimo adendo de que isso é apenas uma “disciplina pastoral” e não um dogma, e que eu posso mudar essa opinião a qualquer momento, não existirá qualquer problema na minha afirmação. É esse o nível que Dave chega para defender o indefensável e justificar o injustificável.
 
 
(Meu artigo) Este tem sido o caso desde os tempos do Antigo Testamento, quando os sacerdotes e líderes religiosos do povo viviam casados com suas esposas. Moisés era casado (Êx 4:25), assim como Arão (1Cr 24:1), os levitas (Jz 20:4) e os profetas (cf. Ez 24:18).
 
(Resposta do Dave) A maioria era; mas não todos. Novamente, tudo o que o católico tem a mostrar é que existe algo como um celibato apresentado positivamente na Bíblia. Uma vez que isso é mostrado, tudo o que temos a dizer é que este é o modelo que achamos melhor para os padres. Jeremias, o profeta, era celibatário (Jr 16:2). Assim foi João Batista: o último profeta, como Lucas reconheceu acima. Pensa-se que os profetas Elias, Eliseu e Daniel também eram celibatários. Uma busca por todos os três e a palavra “esposa” não produz nada.
 
Aqui, Dave apenas reitera aquilo que eu já havia afirmado no artigo de 2017: temos muitos exemplos de profetas e sacerdotes que foram casados e de outros que provavelmente não foram (embora o próprio Dave reconheça que a maioria era casada), mas este não é o ponto. Não se trata aqui de uma disputa a respeito se “tinha mais casados” ou “mais celibatários”, mas se o celibato era imposto como uma condição ao sacerdócio. E para provar que não, bastaria um único sacerdote casado, somado à completa ausência de qualquer dogma ou “disciplina pastoral” impondo o contrário. E temos muito mais do que isso: não só dúzias de personagens bíblicos comprovadamente casados, mas textos que explicitamente afirmam que o sacerdote podia se casar.
 
O que Dave faz é simplesmente mudar o foco da discussão. Ele sai da discussão real (sobre se o celibato em algum momento foi um requisito exigido para o sacerdócio) para uma discussão fictícia, que só existe na cabeça dele (sobre se a condição celibatária é “positiva”). Mesmo que eu concordasse com a afirmação de que o celibato é extremamente positivo à luz da Bíblia, isso ainda seria insuficiente para nos levar ao passo seguinte, isto é, à conclusão de que o celibato deve ser exigido como condição indispensável ao exercício do sacerdócio. Ou seja, Dave simplesmente argumenta contra um espantalho para ter alguma chance de defender algo minimamente defensável (mas que não é o ponto da discussão).
 
Apenas para citar alguns exemplos mais práticos (não estou dizendo que concordo necessariamente com essas afirmações, tome apenas como exemplos hipotéticos): eu poderia dizer que é “bastante positivo” que um sacerdote não jogue futebol, que não se meta em discussões políticas e que não coma nada no McDonald’s, com a justificativa de ter mais tempo para o ministério, de estar mais focado nas coisas de Deus ou de ter uma alimentação mais saudável, e nem por isso eu estaria concluindo que é obrigatório que um sacerdote nunca jogue futebol, discuta política ou coma no McDonald’s.
 
Isso é simplesmente um salto das premissas, uma conclusão que cai de paraquedas sem respeitar nenhum princípio básico de lógica e sem seguir premissa nenhuma. É isso o que acontece quando Dave argumenta que “se o celibato é positivo, ele tem que ser obrigatório para o clero”. É como alguém exigir que todo mundo compre nas Casas Bahia, só porque é uma loja “boa”, e fechar todas as outras lojas. Uma lógica que só no extraordinário mundo de Dave Armstrong faz algum sentido.
 
 
Assim, o católico responde que nossos padres estão seguindo o modelo de vida desses cinco homens, assim como o de Jesus, a maioria de seus discípulos (e a Bíblia diz que Pedro “deixou” sua esposa para o ministério: ou seja, separação mutuamente voluntária), e São Paulo. Ninguém pode dizer que é impróprio, inadmissível ou “antibíblico” fazer isso. Ninguém pode objetar com base bíblica a uma declaração como “queremos que nossos sacerdotes emulem o estilo de vida celibatário de Jeremias, Elias, Jesus e Paulo”.
 
Dave continua sem entender o ponto, ou fingindo que não entende. O problema não é “emular o estilo de vida de Jeremias, Elias e Paulo” (embora este último fosse provavelmente viúvo e não um celibatário), é proibir que se emule o estilo de vida de Moisés (Êx 4:25), Arão (1Cr 24:1), Ezequiel (Ez 24:18), Pedro (Mt 8:14), Áquila (1Co 16:19) e os apóstolos e irmãos de Jesus de forma geral (1Co 9:5). É como se apenas os primeiros listados fossem padrões para ser seguidos, enquanto estes e muitos outros – que são a maioria, como ele mesmo reconhece – fossem modelos errados, verdadeiros maus exemplos que não poderiam ser seguidos de jeito nenhum por alguém que queira ser sacerdote como eles.
 
É por isso que no meio evangélico não há “casamento obrigatório” da mesma forma que não há celibato obrigatório: você é livre para seguir o modelo que você quiser, já que ambos são abençoados na Escritura e legitimados por Deus. O problema é quando se força um sacerdote a ser uma coisa ou outra, como se o oposto fosse um pecado ou um problema sério a ponto de ser proibido (o que na prática implicaria em dizer que a maior parte dos sacerdotes da Igreja primitiva não eram tão comprometidos ou tão santos quanto os sacerdotes católicos atuais, por não serem celibatários como eles).
 
Também vale a pena dizer que muitos dos exemplos que Dave cita em apoio ao estilo de vida celibatário são bastante duvidosos, porque se apoiam na ausência de evidência em contrário, e não numa afirmação clara de que fulano ou beltrano era celibatário (e como diria Craig, “ausência de evidência não é evidência de ausência”). Não temos notícia da esposa de Elias, mas só sabemos que muitos personagens bíblicos eram casados por causa de um único texto, já que o estado matrimonial de um profeta não era tão importante a ponto de precisar ser mencionado. Por exemplo, se não fosse por Ezequiel 24:18, que menciona a morte da mulher de Ezequiel, Dave provavelmente o incluiria na lista de “profetas celibatários”, como faz com Elias, Daniel e outros.
 
O único profeta que sabemos não ter sido casado foi Jeremias, e mesmo assim não por um voto ou uma imposição religiosa, mas porque Deus o havia advertido que a cidade seria em breve destruída e todos seriam mortos ou levados em cativeiro, isso se não morressem antes de doenças ou pragas terríveis (Jr 16:1-4). Ou seja, estamos falando aqui de algo puramente circunstancial, muito longe do tipo de razão que Dave alega para sustentar o celibato obrigatório em toda parte e há tantos séculos. O próprio Senhor Jesus não teria nenhuma razão para se casar sabendo que morreria tão cedo, deixando uma mulher precocemente viúva e crianças pequenas desamparadas. Essa obviamente não é a condição dos padres atuais, razão por que emprestar os exemplos de Jeremias e de Jesus para proibir o matrimônio é completamente sem sentido.
 
Em seguida ele responde a um texto que eu cito no artigo, que diz:
 
1ª Timóteo 3
1 Esta afirmação é digna de confiança: se alguém deseja ser bispo, deseja uma nobre função.
2 É necessário, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma só mulher, sóbrio, prudente, respeitável, hospitaleiro e apto para ensinar;
3 não deve ser apegado ao vinho, nem violento, mas sim amável, pacífico e não apegado ao dinheiro.
4 Ele deve governar bem sua própria família, tendo os filhos sujeitos a ele, com toda a dignidade.
5 Pois, se alguém não sabe governar sua própria família, como poderá cuidar da igreja de Deus?
6 Não pode ser recém-convertido, para que não se ensoberbeça e caia na mesma condenação em que caiu o diabo.
7 Também deve ter boa reputação perante os de fora, para que não caia em descrédito nem na cilada do diabo.
 
Sua resposta é a seguinte:
 
Mas – uma vez que examinamos essas passagens mais de perto – isso prova demais. Pelo raciocínio legalista de Lucas, isso exigiria que todos os bispos fossem casados, o que já contradiz sua afirmação anterior: “Nas igrejas evangélicas e ortodoxas o celibato também é opcional; o pastor ou sacerdote se casa se quiser”. Eles não teriam essa escolha se essas passagens fossem interpretadas como absolutamente obrigatórias em todos os casos (e os ortodoxos contradizem isso – junto com os católicos – porque exigem bispos celibatários).
 
1ª Timóteo 3:2 declara: “Ora, o bispo deve ser... marido de uma mulher...”. Paulo prossegue dizendo no versículo 4: “Ele deve administrar bem a sua própria casa, mantendo seus filhos submissos...”. Isso significa (se estamos interpretando hiperliteralmente e não permitindo quaisquer exceções) que todo bispo deve ser casado e também deve ter filhos? E os viúvos que se tornaram bispos (devem se casar novamente?), ou que não puderam ter filhos (baixa contagem de espermatozoides), ou cujas esposas não puderam, ou estavam na pós-menopausa? Obviamente, então, qualificações têm que ser feitas.
 
Todo esse besteirol é inteiramente desnecessário e irrelevante, já que Dave sabe que eu não estou dizendo que é obrigatório ter esposa e filhos, nem que o texto assim o diga. Todo o ponto é que, se Paulo fala sobre ter “uma só mulher” e não sobre “não ter mulher alguma”, é porque a única restrição matrimonial que havia como condição ao sacerdócio era a poligamia, não o celibato. Não é preciso ser nenhum gênio da exegese para perceber isso. O próprio Dave reconhece isso quando afirma em seguida:
 
Eu acho que a passagem é uma linguagem generalizada, significando: “Se um bispo é casado, deve ser apenas uma vez [sem divórcio ou esposa falecida seguida de novo casamento], e com uma esposa [sem poligamia], e se ele tiver filhos, ele deve ter a capacidade de gerenciá-los bem”.
 
É isso: Paulo impõe como condição ao episcopado a monogamia, não o celibato. E o que a Igreja Romana faz? Subverte as condições impostas pelo apóstolo e vai além, exigindo o próprio celibato como condição ao sacerdócio, em lugar da monogamia (ser casado com uma única mulher, caso escolha se casar). Em outras palavras, Roma tomou a liberdade de passar a borracha no ensino de Paulo, achando o mesmo “suave” demais, e colocar cargas mais pesadas nos ombros de quem pretende seguir o sacerdócio, proibindo até mesmo o casamento. Não podemos dizer que ele já não havia alertado sobre esse tipo de petulância, quando disse:
 
“O Espírito diz claramente que nos últimos tempos alguns abandonarão a fé e seguirão espíritos enganadores e doutrinas de demônios. Tais ensinamentos vêm de homens hipócritas e mentirosos, que têm a consciência cauterizada e proíbem o casamento e o consumo de alimentos que Deus criou para serem recebidos com ação de graças pelos que creem e conhecem a verdade” (1ª Timóteo 4:1-3)
 
Em suma: para Paulo, o celibato não é uma exigência para o sacerdócio; para Roma, sim. Para Paulo, o bispo pode ser casado; para Roma, não. A questão então é saber se devemos confiar mais em Roma ou em Paulo, quando o próprio apóstolo escreveu:
 
“Mas, ainda que nós mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos tenho anunciado, seja anátema. Assim, como já vo-lo dissemos, agora de novo também vo-lo digo. Se alguém vos anunciar outro evangelho além do que já recebestes, seja anátema” (Gálatas 1:8-9)
 
Não parece uma escolha das mais difíceis...
 
 
Mas se vamos falar sobre isso, não vamos esquecer que Pedro e outros discípulos não revelados foram descritos por Jesus como tendo deixado esposas e até filhos:
 
“E Pedro disse: ‘Eis que deixamos nossas casas e te seguimos’. E disse-lhes: Em verdade vos digo que não há homem que tenha deixado casa, ou mulher, ou irmãos, ou pais ou filhos, por causa do reino de Deus, que não receba muito mais neste tempo e no século vindouro a vida eterna” (Lucas 18:28-30)
 
O que sabemos com certeza, com base na passagem acima, é que Pedro deixou sua esposa e possivelmente filhos – presumivelmente com seu consentimento e concordância – para ser discípulo e companheiro de viagem de Jesus (um evangelista itinerante), e que pelo menos um outro discípulo também o fez (como mostrado pelo uso de “nós” por Pedro).
 
Aqui, Dave assume que Pedro continuou casado, mas abandonou sua esposa (e possivelmente filhos) e viveu como um “divorciado” para o resto da sua vida. Essa visão é não apenas abjeta, mas contraria diretamente textos como 1ª Coríntios 9:5, que diz:
 
“Não temos nós direito de levar conosco uma esposa crente, como também os demais apóstolos, e os irmãos do Senhor, e Cefas?” (1ª Coríntios 9:5)
 
Ou seja, Pedro de fato levava a sua esposa em suas viagens missionárias; ele não a “abandonou”, como sugere Dave. O próprio apóstolo Paulo disse que “se alguém não cuida de seus parentes, e especialmente dos de sua própria família, negou a fé e é pior que um descrente” (1Tm 5:8), e instou que “não se recusem um ao outro, exceto por mútuo consentimento e durante certo tempo, para se dedicarem à oração. Depois, unam-se de novo, para que Satanás não os tente por não terem domínio próprio” (1Co 7:5).
 
Quando Pedro diz que “deixamos nossas casas e te seguimos” (Lc 18:28), o sentido não é que “abandonamos nossas esposas e filhos”, como alega Dave, mas de ter priorizado Jesus em detrimento dos laços familiares. Algo semelhante vemos quando Jesus diz que “se alguém vier a mim, e não odiar a seu pai, e mãe, e mulher, e filhos, e irmãos, e irmãs, e ainda também a sua própria vida, não pode ser meu discípulo” (Lc 14:26). É óbvio que Jesus não estava dizendo que devemos literalmente odiar nossos familiares, o que confrontaria tudo aquilo que somos informados em toda a Escritura a respeito de honrar pai e mãe (Mt 15:4) e de amar até os inimigos (Mt 5:44). Aqui, mais uma vez, o sentido intencionado é que devemos priorizar Jesus acima de tudo e de todos, e não que devemos ter sentimentos ruins ou agir com hostilidade em relação a nossos próprios parentes.
 
Lamentavelmente, Dave não é capaz de captar isso, porque se prende infantilmente ao pé da letra, corroborando minha constatação no artigo anterior sobre Dave ler a Bíblia como uma criança de 6 anos lê um gibi da Marvel. Não há o menor interesse em captar o sentido dos textos, se a leitura literal mais descabida possível é útil a fim de corroborar suas crenças prévias.
 
 
Muitos protestantes fizeram isso. O falecido grande Billy Graham muitas vezes lamentou como ele teve que deixar sua esposa e família por longos períodos de tempo, por suas cruzadas evangelísticas. Mas todos acabaram por considerá-lo um sacrifício heroico.
 
Sim, mas essas cruzadas evangelísticas nunca duravam vários anos seguidos, apenas algumas semanas ou meses, e muitas vezes ele viajava acompanhado de sua mulher. Mais uma vez, vale a pena recorrer ao texto em que Paulo escreve aos casais:
 
“Não se recusem um ao outro, exceto por mútuo consentimento e durante certo tempo, para se dedicarem à oração. Depois, unam-se de novo, para que Satanás não os tente por não terem domínio próprio” (1ª Coríntios 7:5)
 
É claro que o contexto está falando de relações sexuais, mas como o casal teria relações sexuais se vivessem permanentemente separados um do outro (como Dave entende que aconteceu com Pedro)? Sexo telepático? É evidente que a ordem de «não se recusar um ao outro, exceto durante certo tempo» implica que o casal não deve passar longos períodos de tempo distante um do outro (o que contraria o próprio propósito de um casamento, que são duas pessoas que se tornam uma só carne).
 
Ademais, se Billy Graham cumpriu a interpretação que Dave faz de Lucas 18:28-30, isso só prova que o ensino de Jesus não tem nada a ver com celibato obrigatório, já que tanto Pedro como Billy Graham eram casados e mesmo assim cumpriram o que Jesus disse, segundo a própria leitura de Dave. Isso significa que Dave cita em defesa do celibato obrigatório um texto que ele mesmo sabe que não prova nada de celibato obrigatório, já que nem mesmo foi dirigido a pessoas celibatárias. Seria cômico se não fosse trágico.
 
Finalmente, nem todos foram chamados para serem missionários itinerários. Tiago, por exemplo, o irmão de Jesus, é consistentemente mencionado em Jerusalém todas as vezes em que aparece na Bíblia. A vasta maioria dos pastores e padres, católicos ou evangélicos, não faz missões em outras partes do mundo nem costuma viajar o tempo todo, e mesmo assim estão cumprindo o “ide” à sua própria maneira. Nem todos foram chamados para missões como as de Billy Graham, e um pastor ou padre de uma igreja local é tão importante quanto um missionário que viaja constantemente. Assim, não há razão para pensar que esse versículo justifique o celibato obrigatório (mesmo se lido de acordo com a interpretação de Dave), a não ser que todos os sacerdotes fossem itinerantes (o que não são).
 
 
(Meu artigo) Como se não bastasse matarem a esposa de Pedro sem nenhum fundamento e ainda perpetuarem a sogra, outros inventaram o mais surreal: que Pedro abandonou a esposa para seguir a Cristo! Só há um probleminha com isso: Paulo diz que “se alguém não cuida de seus parentes, e especialmente dos de sua própria família, negou a fé e é pior que um descrente” (1Tm 5:8).
 
(Resposta do Dave) Há apenas um pequeno problema com a suposta tática “gotcha” de Lucas: Jesus (veja a passagem acima) elogiou discípulos que deixaram suas esposas e famílias, incluindo filhos, “por causa do reino de Deus”, e disse que receberiam “muito mais neste tempo e na era vindoura a vida eterna”. Obviamente, Jesus não achava que esses atos de auto-sacrifício fossem do tipo que Paulo condenou em 1ª Timóteo 5:8. Além disso, Pedro é mostrado ao longo dos evangelhos sendo engajado no trabalho de um pescador. Assim, plausivelmente, ele continuou a sustentar sua esposa e família simplesmente enviando-lhes o dinheiro ganho por exercer seu ofício.
 
Já falamos sobre Lucas 18:28-30, então aproveitemos para comentar essa mais nova sandice daveriana, a de que Pedro abandonou sua família mas não infringiu 1ª Timóteo 5:8 supostamente porque «continuou a sustentar sua esposa e família simplesmente enviando-lhes o dinheiro ganho por exercer seu ofício». Aparentemente, Dave pensa que «cuidar da família» se limita ao sustento financeiro, o que é tão assustador quanto revelador. Assustador, porque só uma pessoa extremamente materialista limitaria o cuidado familiar ao dinheiro, e revelador, porque mostra até que ponto Roma está disposta a destruir as famílias para sustentar o celibato obrigatório.
 
“Cuidar” implica em sustentar financeiramente, mas também em dar apoio emocional, amparo psicológico, alento espiritual e até mesmo satisfação sexual, como Paulo disse em 1ª Coríntios 7:5. Pergunte a uma mulher se ela se sentiria bem cuidada pelo marido se ele sumisse da vida dela, cortasse todos os meios de contato e abandonasse os filhos, mas continuasse mandando uns trocados pra não morrer de fome. Isso nem mesmo é um marido – que por definição é um companheiro –, mas se parece mais com um pai solteiro cujo cuidado com os filhos se limita à pensão alimentícia. Você não encontra um único marido desse tipo na Bíblia. O padrão de “marido” para Dave Armstrong não vem da Bíblia, mas do cantor Latino.
 
 
(Meu artigo) E para o desespero geral de todos eles, os Pais da Igreja mais antigos atestavam que Pedro não apenas continuou casado e vivendo com sua esposa que não morreu, mas que também permaneceu com ela até o martírio!
 
(Resposta do Dave) E eles podem muito bem estar certos; e (repito) isso não representa nenhum problema para a posição católica. Alguns clérigos se casaram nos tempos antigos, então havia uma exigência de celibato (mas não no catolicismo oriental, etc., e com exceções ocasionais até mesmo no oeste; como com padres anglicanos convertidos; eu mesmo conheci dois deles). No futuro, a disciplina pode mudar novamente, pelo que sabemos.
 
Eu realmente não sei se o problema aqui é com a tradução ou se o raciocínio de Dave é mesmo confuso. Ele diz que “in the early days” (literalmente traduzido, “nos primeiros dias”, em alusão aos primeiros séculos da Igreja) alguns clérigos se casavam, mas então estranhamente conclui que “then there was a celibacy requirement” (“então havia uma exigência de celibato”), o que contradiz o que ele mesmo afirmou. Talvez o “then” na frase esteja no sentido temporal, e o que ele quis dizer é que no início não havia celibato obrigatório, mas depois sim (“there was” também pode ser traduzido como “houve”).
 
De um modo ou do outro, a lógica continua sacrificada: ao que parece, o celibato como critério para o sacerdócio pode ir e voltar conforme a conveniência, sem nenhum critério objetivo que o defina. Na cabeça de Dave, os apóstolos estavam certos em não exigir o celibato na Igreja primitiva, assim como a Igreja Romana está certa em exigir o celibato em nossos dias. Note como tudo para ele é totalmente subjetivo, o mesmo tipo de relativismo secular que eles tanto gostam de acusar os protestantes quando convém. Não existe um padrão objetivo de “certo” e “errado”; isso pode mudar dez vezes, e em todas as vezes estaria certo. É realmente uma coisa das mais inacreditáveis.
 
Na verdade, se o assunto é mesmo de natureza subjetiva, essa deveria ser uma razão adicional para não apoiar o celibato obrigatório. Afinal, por que impor cargas mais pesadas e restritivas, se isso nem mesmo é algo objetivamente necessário, e se a Igreja pode perfeitamente bem viver sem isso? Não faz sentido. Se a Igreja primitiva era uma Igreja pura e correta (ainda que não perfeita, mas muito melhor que qualquer igreja dos nossos dias) e nela não havia o celibato obrigatório, por que o celibato obrigatório seria vantajoso, para começo de conversa? Se havia muito menos escândalos de pedofilia quando o celibato era facultativo, por que pensar que o celibato obrigatório produziu qualquer coisa superior?
 
Se Roma um dia chegar à brilhante constatação de que o celibato realmente não precisa ser obrigatório (uma possibilidade que o próprio Dave admite quando diz que «no futuro, a disciplina pode mudar novamente»), essa constatação dirá respeito só ao futuro ou também ao presente? Em outras palavras, quem vai trazer de volta todo o tempo perdido? Talvez Dave alegue que, se a Igreja mudar o paradigma no futuro, é porque o celibato obrigatório foi melhor para o tempo presente, mas por alguma misteriosa razão seria pior para o futuro, e por isso a Igreja decidiu mudar. Mas qual é o critério objetivo para definir o que é melhor ou não, se a própria Bíblia é descartada da equação? Ou a palavra do papa é objetiva por si mesma, e qualquer coisa que ele disser é o certo só porque ele disse?
 
Para terminar: se o celibato pode mudar no futuro a depender dos “novos critérios”, por que não usar como critério a própria Palavra de Deus, divinamente inspirada e elaborada precisamente para este fim? Por que o fato de Jesus e os apóstolos permitirem o casamento do clero deveria ter um peso menor do que uma canetada papal ou um concílio romano? Em outras palavras, por que não extrair o critério da própria Bíblia, em vez de deixar o assunto no campo da obscuridade e da indecisão? São essas e outras questões que os apologistas católicos como Dave não refletem, quando pensam no alto da sua ingenuidade que a mera alegação de que “é uma disciplina moral que pode mudar no futuro” resolve os problemas – quando na verdade apenas os agrava.
 
 
De acordo com um artigo da BBC, houve pelo menos dois papas que se casaram enquanto papa: Adriano II (867-872) e João XVII (1003). São Hormisdas (514–523) e Clemente IV (1265–68) eram viúvos. Nem são esses fatos encobertos pela Igreja (Lucas não está acima fazendo tal acusação).  
 
Obrigado por nos dar mais munição. Não precisava, mas agradeço mesmo assim. Não sabia que era tão gentil.
 
 
Desculpe desapontar Lucas e seus colegas caluniadores salivantes, mas claramente não há nenhum encobrimento sobre isso.
 
“Colegas caluniadores salivantes” foi o máximo. Talvez soe mais lacrador e imponente no inglês.
 
De todo modo, o fato de terem existido papas casados só reforça todos os pontos que eu destaquei acima. Os critérios mudam conforme a conveniência, e ninguém vê hipocrisia nisso.
 
 
(Meu artigo) No caso de 1ª Coríntios 9:5, está perfeitamente claro que se trata mesmo de uma esposa, e não de uma outra mulher, pois Paulo está reivindicando para si e para Barnabé o direito de levar a esposa nas viagens como faziam os outros apóstolos, direito este que ele abria mão.
 
(Resposta do Dave) O que Paulo fez?! Ele abriu mão do direito?!!! Ah!: não é tão interessante. Lucas está alheio à natureza importante dessa declaração de Paulo e sua relevância para esta discussão. Depois de escrever sobre o “direito” dos apóstolos à comida e ao salário de 9:4-14, Paulo então exclama: “Mas eu não fiz uso de nenhum desses direitos, nem estou escrevendo isso para garantir tal provisão” (1Co 9:15). Paulo voluntariamente renuncia ao que ele havia argumentado vigorosamente ser seu direito e de qualquer apóstolo (tanto remuneração quanto ter uma esposa). [grifo meu]
 
Exatamente: VOLUNTARIAMENTE!
 
Talvez Dave não saiba o significado de “voluntariamente”, mas com certeza não combina com a descrição de um celibato obrigatório. A única razão por que Paulo voluntariamente decidiu abrir mão do seu direito de ter uma esposa é porque o celibato não era obrigatório, doutro modo ele sequer teria essa opção se quisesse mesmo entrar pro sacerdócio. Se Paulo abriu mão de um direito, é porque o direito existia. Isso é exatamente o inverso do que fez a Igreja Romana, ao excluir o próprio direito. É inacreditável que alguém não seja capaz de entender algo tão simples.
 
Suponhamos que eu tivesse direito a um mês de férias ao ano, mas decidisse trabalhar mesmo assim de tanto que eu amo o meu trabalho e de tão abnegado que eu sou. Eu teria esse direito? Sim, porque não faz o menor sentido um direito ser imposto. Algo que é um direito pode ser recusado, que é o que fez Paulo. Mas, mesmo assim, o direito continua existindo, e ele ainda pode ser usado por outras pessoas. Ninguém em sã consciência acabaria com o direito às férias só porque alguns preferiram abrir mão desse direito. Mas foi exatamente isso o que Roma fez ao proibir que os padres se casassem, o que nada mais é que excluir o direito que antes existia, e que hoje não existe mais.
 
Portanto, o que está em jogo aqui não é se é preferível abrir mão do direito ou não, mas que esse direito existe, e que todos os sacerdotes deveriam ser livres para escolher de acordo com a sua consciência. Assim como eu jamais censuraria Paulo por ter escolhido permanecer solteiro, Dave não deveria censurar tantos outros apóstolos, profetas e sacerdotes que optaram o contrário. Salomão disse que “quem encontra uma esposa encontra algo excelente; recebeu uma bênção do Senhor” (Pv 18:22). Talvez Dave ache que Salomão não tinha o direito de ter essa opinião, ou que isso não seja válido para quem aspira o sacerdócio. Este é apenas um exemplo de como ele tira textos do contexto para transformar «algo excelente» em algo proibido, fazer da bênção uma maldição e abolir um direito que o próprio Deus nos deu.
 
 
E assim chegamos novamente à lógica da posição católica. Estamos simplesmente seguindo o modelo de Paulo no caso dos sacerdotes. Ele poderia ter se casado se quisesse; ele preferiu não fazê-lo e explicou o porquê: “Embora eu esteja livre de todos os homens, fiz-me escravo de todos, para ganhar ainda mais” (1Co 9:19). Por que seguir a prática de Paulo em particular? Bem, por um lado, ele incitou seus seguidores a imitá-lo, nada menos que nove vezes (1Co 4:16; 1Co 11:1; Fp 3:17, 4:9; 1Ts 1:6-7, 4:1; 2Ts 3:7-9; 1Tm 1:16; 2Tm 1:13).
 
Vejam só que patético: Dave nos insta a seguirmos apenas o exemplo de Paulo em particular, mas não o do “papa” Pedro, que na teologia católica foi muito mais importante que Paulo, e governava sobre a Igreja inteira. Pior do que isso, nenhum desses textos diz para sermos imitadores de Paulo apenas na questão matrimonial. Quando Paulo diz que “vocês mesmos sabem como devem seguir o nosso exemplo” (2Ts 3:7), o contexto ali não é sobre celibato. Então, sobre o que é? Para o desespero de Dave, é justamente sobre não trabalhar!
 
2ª Tessalonicenses 3
6 Irmãos, em nome do nosso Senhor Jesus Cristo nós lhes ordenamos que se afastem de todo irmão que vive ociosamente e não conforme a tradição que receberam de nós.
7 Pois vocês mesmos sabem como devem seguir o nosso exemplo, porque não vivemos ociosamente quando estivemos entre vocês,
8 nem comemos coisa alguma à custa de ninguém. Pelo contrário, trabalhamos arduamente e com fadiga, dia e noite, para não sermos pesados a nenhum de vocês,
9 não por que não tivéssemos tal direito, mas para que nos tornássemos um modelo para ser imitado por vocês.
10 Quando ainda estávamos com vocês, nós lhes ordenamos isto: se alguém não quiser trabalhar, também não coma.
11 Pois ouvimos que alguns de vocês estão ociosos; não trabalham, mas andam se intrometendo na vida alheia.
12 A tais pessoas ordenamos e exortamos no Senhor Jesus Cristo que trabalhem tranquilamente e comam o seu próprio pão.
 
Que verdadeiro tapa na cara!
 
Ao citar, como de costume, um versículo fora de contexto, Dave encobriu de seus leitores que o contexto é justamente sobre trabalhar para ganhar o próprio pão, em vez de sobre celibato obrigatório, como maliciosamente induziu seus leitores. Nada poderia ser mais devastador, já que Dave é alegadamente alguém que vive de doações dos outros em vez de «trabalhar arduamente e com fadiga, dia e noite, para não ser pesado a nenhum de vocês». Como sabemos, mesmo Paulo vivendo para a obra de Deus, ele não deixava de trabalhar, como fabricante de tendas (At 18:3). Paulo fazia questão de trabalhar para receber seu próprio salário e comprar o próprio pão, em vez de viver de doações. Ele inclusive chegou a dizer que preferia morrer do que permitir que alguém o bancasse (1Co 9:15).
 
Mas Dave faz questão de pedir doações para pagar as contas, o inverso do exemplo de Paulo. Então, temos aqui um curioso caso em que: (1) Dave cita um texto em que Paulo diz para o imitá-lo, na tentativa de endossar o celibato obrigatório; (2) mas esse texto não fala de celibato, e sim de trabalhar para o seu próprio sustento em vez de aceitar doações de terceiros, que (3) é exatamente o que Dave faz! Então, que tal seguir o exemplo de Paulo na questão que o próprio texto trata? Eu sei que é penoso não ter um imenso tempo livre para escrever todo tipo de bobagens, mas trabalhar não mata ninguém, basta fazer um esforço.
 
A única escapatória para Dave seria alegar que Paulo diz que tinha o direito de ser sustentado caso quisesse, embora tenha aberto mão desse direito, e por isso ele não faz nada de errado em pedir doações. Mas isso é exatamente o mesmo que ele diz a respeito do celibato! Se Dave pode pedir doações porque Paulo diz que é um direito (mesmo sendo um direito do qual ele abria mão), por que os padres não podem se casar, se Paulo diz que isso também era um direito (do qual ele também abria mão)? Ao que parece, a lógica do “abrir mão do direito” só serve para abolir o direito quando é conveniente. Quando pesa no próprio bolso, a lógica muda mais rápido que a velocidade da luz.
 
 
Assim, a Igreja Católica raciocina: “Paulo é um grande modelo a seguir; assim é nosso Senhor Jesus, Jeremias e João Batista; portanto, exigiremos de nossos sacerdotes que sigam o modelo de seu celibato e atenção plena aos assuntos do Senhor”. Como se argumenta contra isso? Eu gostaria de ver a tentativa.
 
Certo, então por que a Igreja Católica também não raciocina: “Paulo é um grande exemplo a seguir; ele se recusava a pedir doações e trabalhava como fabricante de tendas mesmo sendo um missionário; portanto, exigiremos dos católicos que sigam o seu modelo”? Ou quer dizer que pra pedir dinheiro o exemplo de Paulo não é tão bom, mas pra não se casar sim?
 
Ademais, por que a Igreja Católica também não raciocina: “Moisés, Ezequiel, Pedro, os apóstolos e os irmãos de Jesus são grandes modelos a se seguir; eles não eram celibatários, então os sacerdotes não precisam ser celibatários”? Por que escolher conforme a conveniência quais modelos a serem seguidos e quais não? E qual parte da Bíblia afirma que estes ou quaisquer outros personagens bíblicos eram maus exemplos por terem se casado? E em que parte os próprios personagens citados (Paulo, Jesus e João Batista) exigem o celibato como condição ao sacerdócio? Eu gostaria de ver a tentativa.
 
 
Ser solteiro permite “manter... a devoção indivisa ao Senhor” (1Co 9:32-35). Isso é uma coisa boa? Claro que é (embora não concluamos ao mesmo tempo que o casamento é uma coisa ruim). O discípulo solteiro de Jesus (neste caso um sacerdote) pode dar total atenção ao Senhor, e está disposto a sacrificar heroicamente para si mesmo o que é intrinsecamente bom (o casamento).
 
Mas se as duas opções são boas, por que só a primeira deveria ser exigida? Essa lógica não faz o menor sentido. Às vezes é sensato exigir algo quando o seu oposto é uma coisa ruim, mas não faz o menor sentido exigi-lo quando o seu oposto é também bom (como Dave reconhece). O próprio Paulo, que disse que se manter solteiro é preferível ao casamento (e disse isso aos crentes em geral, não aos sacerdotes em particular ou a quem aspira ao sacerdócio), jamais chegou a proibir o matrimônio (pelo contrário, como já vimos em 1ª Timóteo 3:-17). Se o próprio Paulo não concluiu da sua lógica que o celibato deve ser exigido a quem quer que seja, quem é Dave Armstrong para concluir da lógica de Paulo aquilo que o próprio Paulo não concluiu? Chega a ser deprimente.
 
Se alguém quer «sacrificar heroicamente para si mesmo o que é intrinsecamente bom», vá em frente. Nenhum evangélico está proibindo. Há pastores celibatários, e eu não conheço uma só igreja que exija que os pastores se casem. O que está em jogo, mais uma vez, não é o direito ao celibato, mas o direito ao matrimônio. Dave acha que o celibato é tão louvável que o seu oposto deve ser abolido, mesmo sendo um direito nos tempos bíblicos. Isso é tão repugnante quanto seria se eu dissesse que o matrimônio é tão louvável que o seu oposto deve ser abolido, mesmo sendo também um direito. Apenas um dos lados aqui luta por abolir um direito, fingindo que está apenas exaltando as virtudes do celibato.
 
 
(Meu artigo) Em momento nenhum neste capítulo Paulo se dirige especificamente ou exclusivamente aos sacerdotes... Ao contrário, basta ler o capítulo por inteiro que qualquer um constatará que as instruções de Paulo são aos crentes da igreja de Corinto em geral, não ao clero em específico.
 
(Resposta do Dave) O que é perfeitamente irrelevante para o argumento católico. Não precisa ser sobre padres. Paulo está estabelecendo um princípio prático da vida espiritual. A Igreja Católica pensa que o princípio que ele explica de forma brilhante e sucinta é muito bom no caso dos padres. A lógica seria: “Se o raciocínio de Paulo é sábio em todos os aspectos, para qualquer um, então também é sábio para a categoria menor de sacerdotes”.
 
Mas se o raciocínio de Paulo é «sábio em todos os aspectos, para qualquer um», por que então não exigir o celibato de todos os crentes? Lembre-se: Paulo não dirigia aquelas palavras apenas aos sacerdotes ou a seminaristas, mas a todos os seus leitores (ou seja, aos crentes de forma geral), o que é admitido pelo próprio Dave. Portanto, se da lógica das suas palavras se deduz o celibato obrigatório (por qualquer malabarismo pseudointelectual que seja), é evidente que se deduziria daí que o celibato deveria ser exigido a todos os crentes, algo que nem mesmo a Igreja Romana é louca a ponto de sustentar. Mas, ao que parece, aquilo que Paulo falou a todos de uma forma geral se aplica apenas a um grupo pequeno em particular, “porque sim”.
 
 
Os padres católicos estão dispostos a se submeter ao sacrifício pessoal (incluindo o celibato) para servir a Deus de forma mais frutífera (devido às vantagens práticas) e ajudar a salvar o maior número possível de pessoas.
 
Primeiro que não são todos os padres católicos que “estão dispostos” a se submeter a esse “sacrifício pessoal”. Há numerosos católicos que sentem a vocação para o sacerdócio mas não entram devido, entre outras razões, à imposição do celibato, o que explica o alto número de petições ao Vaticano por parte de teólogos católicos que pedem a abolição do celibato obrigatório (veja aqui), e também a crise no número de candidatos ao sacerdócio, que caiu de 114.058 em 2019 para 111.855 em 2020, com uma queda de 4,2% só na América (fonte do próprio “Vatican News”). O que Roma faz é simplesmente impor restrições desnecessárias, ausentes tanto na Bíblia como na Igreja antiga, pra se passar por “mais espiritual” enquanto numerosos coroinhas são abusados por esse clero “espiritual” que tenta “salvar o maior número possível de pessoas” (já falei sobre isso aqui).
 
 
Quem quer ser sacerdote pondera se é verdadeiramente chamado a esta vida por Deus ou não. Ele entende a posição católica (rito ocidental). Após longa reflexão e conselho e as opiniões corroboradas e informadas de outros, ele finalmente determina que ele é realmente chamado para ser um padre celibatário: que o próprio Deus o chamou para esse tipo de vida heroicamente abnegada. Ele então vai voluntariamente para a Igreja Católica (ou seja, para um seminário onde será treinado) com tudo isso já determinado e decidido. Ninguém o “obrigou” a fazer nada contra sua vontade em nenhum ponto do processo. Ele decidiu livremente seguir a vontade de Deus para sua vida. Ele decidiu “tornar-se eunuco por causa do reino dos céus”.
 
É curioso como o texto de Dave termina exatamente da forma que começa, voltando ao mesmo ponto já refutado e mostrando que está andando em círculos, mais perdido que cego em tiroteio. Pela última vez: ninguém está dizendo que a Igreja Católica “obriga” que alguém seja celibatário. O que ela obriga é que seja celibatário se quiser entrar ao sacerdócio. Então, apesar dela não “obrigar” uma pessoa específica a ser celibatária, ela tira dessa pessoa a opção de entrar ao sacerdócio mesmo sendo casada (ou seja, mesmo sem ter vocação ao celibato, mas ainda assim com a vocação ao sacerdócio). É como se o indivíduo só pudesse ter vocação sacerdotal se tiver a vocação ao celibato junto, o que, mais uma vez, contraria tudo o que Paulo disse sobre o assunto:
 
1ª Timóteo 3
1 Esta afirmação é digna de confiança: se alguém deseja ser bispo, deseja uma nobre função.
2 É necessário, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma só mulher, sóbrio, prudente, respeitável, hospitaleiro e apto para ensinar;
3 não deve ser apegado ao vinho, nem violento, mas sim amável, pacífico e não apegado ao dinheiro.
4 Ele deve governar bem sua própria família, tendo os filhos sujeitos a ele, com toda a dignidade.
5 Pois, se alguém não sabe governar sua própria família, como poderá cuidar da igreja de Deus?
6 Não pode ser recém-convertido, para que não se ensoberbeça e caia na mesma condenação em que caiu o diabo.
7 Também deve ter boa reputação perante os de fora, para que não caia em descrédito nem na cilada do diabo.
 
Tito 1
6 É preciso que o presbítero seja irrepreensível, marido de uma só mulher, e tenha filhos crentes que não sejam acusados de libertinagem ou de insubmissão.
7 Por ser encarregado da obra de Deus, é necessário que o bispo seja irrepreensível: não orgulhoso, não briguento, não apegado ao vinho, não violento, nem ávido por lucro desonesto.
8 É preciso, porém, que ele seja hospitaleiro, amigo do bem, sensato, justo, consagrado, tenha domínio próprio
9 e apegue-se firmemente à mensagem fiel, da maneira como foi ensinada, para que seja capaz de encorajar outros pela sã doutrina e de refutar os que se opõem a ela.
 
Note que a vocação ao sacerdócio nunca é acompanhada pela vocação ao celibato, como um critério indissociável que vinculasse uma coisa à outra. Em outras palavras, para cumprir os requisitos ao sacerdócio, o candidato não tinha que ser celibatário, nem fazer voto de celibato. Ele podia perfeitamente ter vocação ao sacerdócio, sem necessariamente ter vocação ao celibato também (e o mesmo é igualmente verdadeiro no sentido oposto, uma vez que nem todos com vocação ao celibato tem vocação ao sacerdócio). É difícil não entender algo tão simples.
 
O que Roma faz é simplesmente assumir que se o indivíduo tem vocação ao sacerdócio ele necessariamente tem que ter vocação ao celibato também, e se não tiver, então que deixe de pensar no sacerdócio. E isso, como vimos, é antibíblico, imoral e perverso.
 
 
(Meu artigo) De fato, o texto [de Mateus 19:12] nem sequer fala de sacerdotes.
 
(Resposta do Dave) E daí? Não precisa, porque está estabelecendo uma observação sobre como alguns se sacrificam voluntariamente pelo reino.
 
A resposta “e daí” para a minha objeção diz muito sobre a limitação de raciocínio de Dave, que não consegue perceber que, se o texto não se refere a sacerdotes, então qualquer tentativa de usá-lo na intenção de impor o sacerdócio clerical obrigatório é vão e sem sentido. Doutro modo, teríamos que impô-lo a todo mundo. E para piorar, o texto não diz que uma instituição religiosa A ou B exigiu que alguém fosse “eunuco” para entrar no sacerdócio, mas apenas que certas pessoas “se fizeram” (voluntariamente, e não como condição ao sacerdócio) “eunucas”.
 
Mais uma vez, tudo o que esse texto faz é nos mostrar que existem pessoas vocacionadas a uma vida de celibato, o que não significa que sejam necessariamente as mesmas vocacionadas ao sacerdócio, e muito menos que todas as vocacionadas ao sacerdócio devam ser vocacionadas ao celibato. No fim do dia, tudo o que Dave tem para nos mostrar em apoio ao celibato obrigatório são textos que nada falam de celibato obrigatório e que nem mesmo se referem aos sacerdotes, quando muito apenas valorizam o celibato (assim como o próprio matrimônio é valorizado em inúmeros outros textos).
 
Eu compreendo como deve ser difícil a vida de um apologista católico que, na falta de um único texto endossando o celibato obrigatório do clero ou qualquer coisa que se aproxime minimamente disso, é obrigado a defender essa ideia através de malabarismos circenses que muito provavelmente nem ele mesmo bota fé. Deve ser triste ter que pegar um texto que não fala de celibato obrigatório, nem de sacerdócio, e arrumar um jeito de encontrar o celibato obrigatório do clero ali. Não falo ironicamente, eu realmente me solidarizo. Este é um dos principais problemas da fé católica: mesmo quando eles sabem que uma doutrina é completamente invalidada por argumentos racionais, eles precisam se apegar à doutrina, e defendê-la de qualquer jeito.
 
É como dizia Inácio de Loyola: “Creio que o branco que eu vejo é preto, se a hierarquia da Igreja assim determinar...”. Pior do que negar o que está vendo é ter que defendê-lo – ainda que Dave seja um profissional nessa arte.
 
Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (youtube.com/LucasBanzoli)

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2 comentários:

  1. Excelente, Lucas! Eu dei uma olhada no site do Dave e realmente isso pareceu um caso de "assédio processual" kkkk Mas uma coisa me chamou atenção: o que um católico e um esquerdista tem em comum? Ambos são mestres em pelejar no domínio da linguagem, na esfera puramente nominalista: mude uma palavra aqui, adicione um termo sofisticado acolá... E pronto, eles criam um mundo de falácias que pode até aparentar alguma coesão quando você restringe sua análise somente a esfera da linguagem, mas que cai como um castelo de cartas quando você compara o que é dito com o que é fato, a realidade com a narrativa, a mera percepção com o fenômeno em si e finalmente: o que se vê com o que se descreve.

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    1. Exatamente, todos os problemas são resolvidos em um passe de mágica apenas mudando a terminologia, precisamente como os fariseus faziam para não ter que cumprir o quinto mandamento (Mc 7:9-13). Basta um toque de sutileza, dizer que "é disciplina pastoral e não dogma", que já se tem um passe livre para passar por cima daquilo que diz a Bíblia.

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