12 de novembro de 2022

0 As almas imortais do Dave Armstrong que clamam debaixo do altar

 


Introdução
 
Se você acompanha(va) este blog, deve ter notado a minha ausência nos últimos dois anos, data do meu último artigo inédito. Desde então, me limitei a postar alguns trechos de livros meus até meados do ano passado, quando abandonei o blog de vez e só postei o anúncio dos meus dois últimos livros. O que me leva a voltar a escrever agora são os artigos de um famoso apologista católico americano chamado Dave Armstrong, que tem realmente se esforçado em provocar a minha atenção nos últimos meses. Seu primeiro artigo “Against Lucas Banzoli” data do dia 25 de maio deste ano, quando ele próprio me notificou. Eu recebi sua mensagem com certo entusiasmo e disse que responderia ao artigo assim que pudesse. 

No alto da minha ingenuidade, eu pensava que Dave respeitaria as “regras de cordialidade” de um debate escrito: você escreve uma refutação, espera o oponente contra-argumentar, então objeta novamente, e assim sucessivamente. Todos os meus debates por escrito com os mais variados apologistas católicos brasileiros desde 2009 foram assim. Frequentemente os artigos de ambos os lados demoravam semanas ou até meses para sair, já que um artigo sério que realmente refute o lado contrário com um mínimo de profundidade não é tão simples de se fazer e nem todo mundo é um desocupado que tem muito tempo sobrando.
 
Mas com Dave as coisas são diferentes. Para a minha surpresa, poucos dias após seu primeiro artigo e antes que eu respondesse qualquer coisa, ele escreveu um outro artigo, e depois um outro, e outro, e mais um, no intervalo de pouquíssimos dias (às vezes até mesmo mais de um no mesmo dia!), ao mesmo tempo em que me marcava em uns duzentos posts de facebook, quase que implorando para ser bloqueado. Ao todo, já são nada a menos que 40 artigos(!) “against Lucas Banzoli”, o que me leva a pensar que (1) a aposentadoria nos Estados Unidos é realmente muito boa, e (2) seu objetivo não é “refutar” coisa alguma, mas encher os oponentes de um artigo atrás do outro com o único propósito de tornar impossível qualquer resposta à altura, já que eu precisaria de uma vida inteira para responder todos eles.
 
Talvez você já tenha ouvido falar de “assédio processual”, que é quando alguém processa múltiplas vezes uma mesma pessoa com o objetivo de perturbá-la ou tirar o seu dinheiro, forçando-a a se deslocar o tempo todo e perder todo o tempo em audiências, como muitas vezes acontece com youtubers famosos que se envolvem em política. Esses processos são deliberadamente desprovidos de fundamento e quem processa sempre perde a causa, mas não é um problema, já que seu objetivo nunca foi ganhar a ação, mas deixar a outra pessoa tão ocupada a ponto de não mais conseguir fazer o seu trabalho direito, o que é tudo o que eles querem.
 
Dave usa o mesmo truque, mas travestido de “apologética”. Seus artigos são todos e sem exceção pobres, superficiais e deliberadamente fracos, porque seu objetivo não é refutar coisa alguma, mas extenuar o oponente até ganhar pelo cansaço, aproveitando o seu imenso tempo livre para escrever tantas “refutações” que seja impossível responder uma a uma (e então se passar por “irrefutável”). O artigo que eu refutarei aqui é um exemplo primoroso disso: ele responde ao tópico do meu livro sobre as “almas debaixo do altar”, que no livro tem 25 páginas, e “refuta” com um texto medíocre que não chega a somar 6 páginas (incluindo os pedidos de doação ao final). Das 25 páginas do meu livro sobre este tópico, apenas 4 trechos curtos são citados, dois dos quais não chegam a completar duas linhas. É a típica “refutação” que me faz desdenhar seriamente da possibilidade de ter sido escrita a sério.
 
Até então eu havia lido apenas duas outras “refutações” de Dave, tão pobres e superficiais quanto, e julguei que nem mesmo era necessária uma resposta, pois só uma pessoa com grave deficiência cognitiva estaria inclinada a levar tais textos a sério. Os demais eu francamente nem perdi tempo lendo, já que não é nem de longe uma das minhas prioridades. Nos últimos doze meses dei aula em 5 escolas diferentes, de 6 matérias diferentes, para 32 turmas diferentes, incluindo todas as séries do 6º ano do Ensino Fundamental ao 3º ano do Médio (vida de PSS não é fácil). Ainda mantive ativo o meu canal do youtube até alguns meses atrás, concluí um livro de 1900 páginas sobre “A Lenda da Imortalidade da Alma” e estou no processo de escrita de um novo livro sobre outro assunto. Não quero parecer desumilde, mas tenho mais coisas pra fazer do que responder alguém obcecado pela minha pessoa.
 
Digo “obcecado”, porque vários outros colegas protestantes já o responderam, e ele ignorou ou fugiu da maior parte. Apologistas como Pedro Gaião e Francisco Tourinho foram ou bloqueados, ou insultados, ou tratados com escárnio, ou tiveram seus pedidos de debate solenemente recusados (a propósito, eu procurei em todo o youtube um único debate ao vivo de Dave Armstrong contra um único protestante sequer e não encontrei nenhum, que surpresa). Deve ser por isso que ele mirou seu canhão com todas as forças na direção de um apologista protestante que ele sabia que fazia anos que não escrevia artigo nenhum e que já havia se retirado do blog há tempos. Quando ele percebe que alguém tem disposição e tempo para refutar seus textos toscos, inventa qualquer desculpa para parar de responder.
 
A única razão que me leva a escrever essa resposta não é para ceder à tática de Dave e abandonar minhas prioridades para passar a dar-lhe atenção total, mas porque um leitor me pediu para responder este artigo em questão, o que farei em respeito a ele e a outros leitores que eventualmente tenham interesse na discussão. Deixando claro que o texto aqui, incluindo as citações dele (em vermelho itálico), será todo em português, já que o texto dele também é todo em inglês. Eu não me preocupei em traduzir aqui de forma tecnicamente impecável tudo o que ele escreveu, mas pode ter certeza que está muito melhor traduzido do que o meu português que ele traduziu do Google Translate no site dele. Caso você queira ler no original, basta clicar aqui que será redirecionado ao artigo no site dele.
 
 
O que Dave argumenta
 
Diferente do que Dave faz, selecionando a seu critério 5% do meu texto para depois não conseguir refutar nem esses 5%, aqui eu farei questão de rebater ponto a ponto de tudo o que ele disse, então não se surpreenda com a quantidade de textos em vermelho. Ele começa assim:
 
Banzoli argumenta – surpreendentemente – que essas “almas” clamando não estão nem no céu nesta passagem. Cinco elementos temáticos principais em Apocalipse trabalham contra essa interpretação. Em primeiro lugar, o próprio Apocalipse deixa claro que São João, o narrador do Apocalipse e aquele que vê as visões ou (de uma maneira sobrenatural, transcendente no tempo) eventos reais no céu, está de fato situado no céu.
 
O texto que ele alude é o que diz:
 
“Depois dessas coisas olhei, e diante de mim estava uma porta aberta no céu. A voz que eu tinha ouvido no princípio, falando comigo como trombeta, disse: ‘Suba para cá, e lhe mostrarei o que deve acontecer depois dessas coisas’. Imediatamente me vi tomado pelo Espírito, e diante de mim estava um trono no céu e nele estava assentado alguém” (Apocalipse 4:1-2)
 
Será que isso significa que de fato as “almas debaixo do altar” citadas por João estavam no céu? Vejamos: em primeiro lugar, Dave parte da pressuposição de que, se João estava no céu, então tudo o que ele viu acontecia no céu. Mas isso é tão estúpido quanto seria alguém afirmar que porque um profeta está na terra, ele não poderia ter uma visão do céu (como muitas vezes ocorre no Antigo e no Novo Testamento). Assim como profetas tais como Isaías e Ezequiel tiveram visões celestiais mesmo estando na terra, não há nada que impeça João de ter visões de coisas que acontecem na terra mesmo estando no céu. Parece que na cabeça de Dave, se alguém está em um lugar, sua visão obrigatoriamente deve estar limitada àquele lugar.
 
Se Dave realmente acredita que tudo o que João viu é do céu só porque “ele estava no céu”, vai ser difícil explicar o dragão que persegue a mulher grávida no deserto (Ap 12:13), a não ser que exista um Saara celestial que apenas Dave descobriu. João também viu criaturas no mar falando e louvando a Deus (Ap 5:13), o que nos faz pensar se isso se referia a um aquário celestial que Dave encontrou por lá, além de uma besta que sai da terra para atormentar os habitantes da terra (Ap 13:11-14), o que nos leva a perguntar o que essa maldita besta fazia ali, quando deveria estar no céu só porque “João estava no céu”. É esse o nível de argumentação de Armstrong, e daqui em diante a coisa só piora.
 
Ademais, é preciso destacar algumas coisas aqui, que passam despercebidas ao olhar de Dave ou são propositalmente ignoradas. Em primeiro lugar, que o “céu” que João viu em sua visão não é o céu real, mas um céu repleto de simbolismos que lhe foi apresentado de forma figurada. Por exemplo, ninguém realmente acredita que Jesus está no céu na forma de um cordeiro ensanguentado (Ap 5:6, 7:14, 12:11), e não em uma forma humana. Ou então imagine um fiel católico que morra agora e cuja alma vá para o céu e se depare com um Cristo que tem uma espada afiada de dois gumes dentro da boca (Ap 2:16, 12), a qual ele usa para matar pessoas (Ap 19:21, 2:16), além de sete estrelas que cabem dentro de uma única mão (Ap 1:16), olhos pegando fogo (Ap 2:18) e uma “tatuagem” na coxa (Ap 19:16). Provavelmente ele vai levar um susto e sair correndo, rezando dez Pai Nosso e trinta Ave Maria durante o caminho.
 
O que Dave parece não entender é que mesmo o céu que João viu ou “esteve” não é o céu real, mas um céu simbólico, algo bastante típico de visões espirituais. É como o lençol que Pedro viu descer do céu à terra preso pelas quatro pontas contendo “toda espécie de quadrúpedes, bem como de répteis da terra e aves do céu” (At 10:12), e nem por isso alguém seriamente acredita que havia um lençol desse tipo no céu que literalmente desceu à terra e só foi visto por Pedro (talvez Dave acredite, se levar a sério sua “exegese” do texto do Apocalipse).
 
A bem da verdade, não é nem mesmo possível afirmar taxativamente que Apocalipse 4:1-2 se refira a todo o livro ou apenas àquela perícope (ou seja, se João espiritualmente “subiu” ao céu naquele momento ou esteve lá até o fim, como Dave pressupõe), mas mesmo que isso diga respeito a todo o livro, vimos que se refere apenas a visões simbólicas que ele teve do céu como se estivesse ali, e não a um arrebatamento literal para o céu real (como o que ocorreu com Paulo em 2ª Coríntios 12:1-4).
 
 
Alguém poderia objetar que ele ainda não havia morrido, então como ele poderia estar no céu? Isso também foi verdade para São Paulo, mas ele foi levado para o céu antes de morrer.
 
Eu não sou esse “alguém”, então dispenso refutações aqui. É evidente que Deus pode dar uma visão do céu a alguém ou mesmo arrebatar alguém literalmente (como ocorreu com Enoque, Elias e possivelmente com Paulo no texto que Dave cita), mas isso não significa que o céu que João viu tenha sido o céu real tal como ele de fato existe concretamente, e muito menos que o altar citado em Apocalipse 6:9 esteja no céu. Então vamos adiante.
 
 
São João também recebeu uma “revelação” (Ap 1:1: é daí que vem o nome deste livro).
 
O fato de ser uma revelação não significa que se refira necessariamente a revelações de coisas que estejam no céu, significa apenas que Deus revelou a João algo que estava oculto, encoberto aos olhos humanos. Como vimos, Deus revelou a João coisas do céu e da terra, embora mesmo as coisas celestiais tenham sido apresentadas de maneira simbólica (e as almas nem sejam uma delas). Achar que o termo “revelação” por si só já implique que se refira a coisas celestiais é totalmente ridículo, beira o surreal. Tome como exemplo o seguinte texto:
 
“No dia anterior à chegada de Saul, o Senhor havia revelado isto a Samuel: ‘Amanhã, por volta desta hora, enviarei a você um homem da terra de Benjamim. Unja-o como líder sobre meu povo Israel; ele libertará o meu povo das mãos dos filisteus. Atentei para o meu povo, pois seu clamor chegou a mim’” (1º Samuel 9:15-16)
 
De fato, Deus revelou algo ao profeta Samuel (naquela época chamado de “vidente”, que significa “aquele que vê” visões espirituais), mas isso nem de longe se referia a algo que acontecia ou que aconteceria no céu, mas a eventos terrenos relacionados à unção de Saul como rei em Israel. Acho que não é preciso me prolongar aqui.
 
 
João repetidamente se refere ao fato de que ele viu e ouviu coisas em sua revelação da perspectiva de estar no céu.
 
“Depois dessas coisas olhei, e diante de mim estava uma porta aberta no céu. A voz que eu tinha ouvido no princípio, falando comigo como trombeta, disse: ‘Suba para cá, e lhe mostrarei o que deve acontecer depois dessas coisas’. Imediatamente me vi tomado pelo Espírito, e diante de mim estava um trono no céu e nele estava assentado alguém” (Apocalipse 4:1-2)
 
“Quando ele abriu o sétimo selo, houve silêncio no céu por volta de meia hora. Vi os sete anjos que se acham em pé diante de Deus; a eles foram dadas sete trombetas” (Apocalipse 8:1-2)
 
“Ouvi um som do céu como o de muitas águas e de um forte trovão. Era como o de harpistas tocando suas harpas. Eles cantavam um cântico novo diante do trono, dos quatro seres viventes e dos anciãos... Então vi outro anjo, que voava pelo céu... Outro anjo saiu do santuário do céu...” (Apocalipse 14:2, 3, 6, 17)
 
“Vi no céu outro sinal, grande e maravilhoso: sete anjos com as sete últimas pragas... Depois disso olhei, e vi que se abriu no céu o santuário, o tabernáculo da aliança. Saíram do santuário os sete anjos com as sete pragas...” (Apocalipse 15:1, 5, 6)
 
“Depois disso ouvi no céu algo semelhante à voz de uma grande multidão, que exclamava: ‘Aleluia! A salvação, a glória e o poder pertencem ao nosso Deus’” (Apocalipse 19:1)
 
Aqui ele apenas cita uma série de eventos apocalípticos que ocorrem no céu, o que não prova absolutamente nada, já que eu poderia citar um outro compilado de textos que explicitamente se referem a eventos apocalípticos que se passam na terra, como esses:
 
“Então os reis da terra, os príncipes, os generais, os ricos, os poderosos — todos os homens, quer escravos, quer livres, esconderam-se em cavernas e entre as rochas das montanhas” (Apocalipse 6:15)
 
“Os habitantes da terra se alegrarão por causa deles e festejarão, enviando presentes uns aos outros, pois esses dois profetas haviam atormentado os que habitam na terra(Apocalipse 11:10)
 
“Quando o dragão viu que havia sido lançado à terra, começou a perseguir a mulher que dera à luz o menino” (Apocalipse 12:13)
 
“E realizava grandes sinais, chegando a fazer descer fogo do céu à terra, à vista dos homens” (Apocalipse 13:13)
 
“Tu os constituíste reino e sacerdotes para o nosso Deus, e eles reinarão sobre a terra(Apocalipse 5:10)
 
“Então vi outra besta que saía da terra, com dois chifres como cordeiro, mas que falava como dragão” (Apocalipse 13:11)
 
“Os reis da terra se prostituíram com ela; à custa do seu luxo excessivo os negociantes da terra se enriqueceram” (Apocalipse 18:3)
 
“Quando os reis da terra, que se prostituíram com ela e participaram do seu luxo, virem a fumaça do seu incêndio, chorarão e se lamentarão por ela” (Apocalipse 18:9)
 
“Então vi um novo céu e uma nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra tinham passado; e o mar já não existia” (Apocalipse 21:1)
 
Eu vou parar por aqui, do contrário teria que citar praticamente o livro todo, o que tornaria este artigo entediante. Na verdade, qualquer pessoa com um mínimo de honestidade intelectual e que tenha alguma vez lido o Apocalipse na vida é capaz de notar facilmente como a vasta maioria dos eventos ali narrados não se referem a coisas que acontecem no céu, mas a eventos que se passam na terra. Citar um conjunto de textos que falam do que acontece no céu como se isso implicasse qualquer coisa em relação a Apocalipse 6:9 é simplesmente desonestidade intelectual, se não for um non sequitur dos mais grosseiros que eu já vi.
 
 
Em segundo lugar, um “altar” singular no céu (espelhando “debaixo do altar” em 6:9) é repetidamente referido:
 
“E veio outro anjo e pôs-se junto ao altar com um incensário de ouro; e ele recebeu muito incenso para misturar com as orações de todos os santos sobre o altar de ouro diante do trono... Então o anjo tomou o incensário, encheu-o com fogo do altar e o atirou sobre a terra...” (Apocalipse 8:3, 5)
 
“Então o sexto anjo tocou a sua trombeta, e ouvi uma voz das quatro pontas do altar de ouro diante de Deus...” (Apocalipse 9:13)
 
“Então me foi dada uma vara de medir como um bastão, e foi-me dito: ‘Levante-se e meça o templo de Deus e o altar e os que ali adoram’” (Apocalipse 11:1)
 
 “Então outro anjo saiu do altar...” (Apocalipse 14:18)
 
Observe que um desses textos citados (o de Apocalipse 11:1) é justamente o texto usado por muitos católicos preteristas para sustentar o preterismo, os quais argumentam que o texto se refere ao altar terreno que existia no templo de Jerusalém, o que “provaria” que João escreveu antes de 70 d.C (quando na verdade só prova que o templo será reconstruído, como já mostrei em vários outros artigos e vídeos). Note que Dave, na ânsia de sair correndo e buscar a maior quantidade de textos apocalípticos que mencionem a palavra “altar”, se esqueceu deste pequeno detalhe e deixou passar essa gafe que simplesmente refuta o seu próprio argumento!
 
Dave, como todo bom apologista católico, tirou o verso do seu contexto, que assim diz:
 
“Deram-me um caniço semelhante a uma vara de medir, e me foi dito: ‘Vá e meça o templo de Deus e o altar, e conte os adoradores que lá estiverem. Exclua, porém, o pátio exterior; não o meça, pois ele foi dado aos gentios. Eles pisarão a cidade santa durante quarenta e dois meses’” (Apocalipse 11:1-2)
 
O texto menciona um templo que fica na “cidade santa” e que é capaz de ser pisado pelos gentios durante 42 meses. A não ser que haja “gentios” profanando um templo celestial de Dave Armstrong, é óbvio que o texto se refere ao altar que ficava no templo de Jerusalém, não ao altar de ouro do templo celestial (o que é reconhecido até mesmo por seus pares católicos, que pelo menos sabem ler o texto completo em vez de catar um texto na correria).
 
Portanto, queira Armstrong ou não, o fato é que o Apocalipse de fato fala de dois altares, o celestial e o terreno, e não só de um altar celestial. O que caberia a Armstrong seria provar que o altar de Apocalipse 6:9 só pode se referir ao altar celestial, o que ele é absolutamente incapaz, já que parte alguma do texto ou do contexto o afirma ou sugira o mais remotamente. É por isso que ele precisa fantasiar que o único altar do Apocalipse é o celestial, para enganar leitores néscios do tipo que o acompanham e que provavelmente não têm sequer uma Bíblia (ou pelo menos uma que não esteja mofada).
 
 
Em terceiro lugar, este altar celestial estava no templo celestial, que também é referido várias vezes:
 
“Por isso estão diante do trono de Deus, e o servem de dia e de noite no seu templo” (Apocalipse 7:15)
 
“Então o templo de Deus no céu se abriu, e a arca da sua aliança foi vista dentro do seu templo” (Apocalipse 11:19)
 
“Depois disto olhei, e o templo da tenda do testemunho no céu foi aberto” (Apocalipse 15:5)
 
Isso aqui é apenas uma repetição do mesmo “argumento” anterior, o que sustenta que o único altar que existe no livro se encontra no céu, o que é refutado pelos próprios apologistas católicos e pelo texto bíblico. Já vimos que Apocalipse 11:1-2 fala de um altar e de um templo terrenos, esmigalhando esse argumento bobo e ingênuo. Mais uma vez, o que Armstrong deveria fazer é provar que o altar de Apocalipse 6:9 só pode ser o celestial, o que ele é incapaz de fazer, razão por que recorre a mais compilações de textos citados aleatoriamente que não provam nada do que ele pretende no alto do seu amadorismo.
 
 
Em quarto lugar, claramente não é verdade que todos os selos do Apocalipse ocorrem apenas na terra, como Banzoli afirma acima. O capítulo começa (6:1) com João ouvindo os “quatro seres viventes”: que estão – assim é declarado seis vezes – no céu junto ao trono de Deus (veja Ap 4:6; 5:6, 8; 7:11; 14:3; 19:4).
 
Eu acabei de falar em amadorismo, e aqui ele se esforça em reforçar o ponto: para provar que João só viu as coisas do céu, ele cita em seu favor os quatro seres viventes(!), que qualquer intérprete com o menor grau de seriedade ou que pretenda se levar a sério sabe que é um simbolismo, e não seres literais que literalmente se encontrem no céu. Os Pais da Igreja costumavam interpretar como uma alusão aos quatro evangelhos, e me impressiona que um católico como Dave não saiba disso ou ouse confrontá-los (para depois dizer que os Pais da Igreja eram bons católicos romanos como ele!). 

É preciso uma imaginação surreal para sustentar que há realmente quatro seres viventes cobertos de olhos na frente e atrás e com aparência animalesca ao redor do trono (Ap 4:6-8), os quais coincidentemente só são citados em visões simbólicas e nunca aparecem em outros lugares da Bíblia, embora em se tratando de alguém que crê em almas fantasmagóricas gritando por vingança em pleno céu (enquanto se aglutinam embaixo de um altar literal) isso seja até compreensível.
 
Na verdade, tudo o que esses textos provam é que o céu que João viu é realmente um céu figurado, não o céu real, e que muito do que ele viu ali não se encontra ali literalmente (o que incluiria as “almas debaixo do altar”, se o altar fosse mesmo um altar celestial). Ou seja, Dave conseguiu mais uma vez dar um argumento que destrói sua própria argumentação. Congrats!
 
 
Um “cavaleiro” em um cavalo branco “saiu vencendo” (6:2); isto é, ele “saiu” do céu para a terra. 6:3-4 (segundo selo) é semelhante ao primeiro. Uma das criaturas vivas fala e outro cavaleiro e cavalo emergem. O mesmo acontece com um terceiro cavalo e cavaleiro: o terceiro selo (6:5). Os seres viventes falam novamente (quarto selo) e um “cavalo pálido” com o cavaleiro “Morte” aparece no céu para ir julgar os ímpios na terra (6:6-8).
 
Mais uma vez ele recorre ao simbolismo dos “quatro seres viventes” para “provar” que João viu o que estava no céu, o que mesmo se fosse verdade não provaria em nada que o altar citado no verso 9 está no céu, já que todos os eventos narrados nos selos se passam na terra, como na tabela abaixo: 

OS SELOS

ALEGORIA

SIGNIFICADO

Primeiro Selo

Cavalo branco determinado a vencer.

Simboliza o evangelho pregado em toda a terra (Mt 24:14). O cavaleiro branco representa esse êxito na proclamação universal do evangelho.

Segundo Selo

Cavaleiro vermelho trazendo a morte.

Inicia a grande tribulação, tirando a paz na terra existente até então. Jesus disse que essa tribulação seria a maior de toda a história (Mt 24:21).

Terceiro Selo

Cavaleiro preto com uma balança na mão.

Fome na terra, que não danificaria o “azeite e o vinho” (v. 6), ou seja, a Igreja e Israel.

Quarto Selo

Cavaleiro amarelo chamado “Morte”, seguido pelo Hades.

O amarelo representa a palidez dos corpos mortos, e o Hades (região subterrânea da terra) é para onde os que morressem na guerra iriam.

Quinto Selo

Almas gritando por vingança debaixo de um altar.

No ritual da lei de Moisés, o sangue de um animal sacrificado era derramado sobre o altar (Êx 29:12). A figura de linguagem representa que cada servo de Deus que morreu martirizado pela fé em Jesus seria certamente vingado por Ele.

Sexto Selo

Um grande terremoto; o sol fica escuro, e as estrelas caem na terra.

Na morte de Jesus, ocorreu um grande terremoto (Mt 27:54) e o céu ficou completamente escuro por três horas (Mc 15:33). As estrelas representam anjos (1:20); estrelas caindo, portanto, representam os anjos caídos que atribulam as pessoas na terra.

 
Note como todos os selos do capítulo retratam acontecimentos terrenos, não eventos celestiais. Dave tenta refutar este fato, que por si só é irrefutável, se apegando à linguagem dos “quatro seres viventes” e das personificações dos “cavaleiros” e da “Morte”, o que significa que sua mentalidade é equivalente à de uma criança de 6 anos lendo um gibi da Marvel e interpretando que a Senhora Morte existe mesmo (com o perdão às crianças de 6 anos). Não vou nem comparar com as crianças um pouco mais velhas, pois nenhum dos meus alunos do 6º ano seria inocente a ponto de interpretar assim.
 
 
Então temos o “quinto selo” com as almas “debaixo” do altar celestial, que é mencionado outras cinco vezes no livro. João os “viu” no céu, assim como “viu” esses eventos extraordinários em 6:2, 5, 8 e “olhou” para os eventos do sexto selo (6:12).
 
Isso é repetição daquilo que já foi exaustivamente refutado nos pontos anteriores sobre João ver as coisas no céu e sobre o altar (quando alguém não tem argumentos, o jeito é ficar repetindo), então passemos adiante.
 
 
Quinto, Banzoli dedica um esforço considerável para argumentar que as almas que clamam em Apocalipse 6 são apenas outro exemplo do que vimos em relação ao Abel assassinado: “A voz do sangue de seu irmão clama a mim desde a terra” (Gn 4:10). Mas isso é claramente um exemplo de personificação figurativa; uma linguagem tão conhecida e tão comum nas Escrituras (assim como na poesia em geral) que nem perderei tempo definindo-a (os leitores podem procurá-la se quiserem). A passagem do Apocalipse, ao contrário, não é lida dessa maneira. Essas almas clamam a Deus, e são respondidas: “Ordenou que descansassem um pouco mais” e recebessem vestes brancas (6:10). Nada disso sugere nem um pouco que a personificação estava na mente do escritor.
 
Então, basicamente, para Dave Armstrong o que faz com que um texto seja definitivamente literal e o outro não é porque alguém é respondido, porque se é respondido, não pode ser uma personificação. Isso deve significar que os diálogos entre árvores de 2º Reis 4:9 e de Juízes 9:8-15 provam que as árvores conversam mesmo e não foi uma personificação; ou, se preferir um exemplo do próprio Apocalipse, criaturas no mar louvam a Deus (Ap 5:13) e os quatro seres viventes (que Dave acha serem literais) respondem (v. 14). No capítulo 11, Deus diz “subam para cá” (v. 12) àqueles que são descritos como “duas oliveiras e dois candelabros” (v. 4), embora ninguém realmente pense que as duas testemunhas eram literalmente oliveiras ou candelabros. É realmente intrigante como Armstrong inventa critérios exegéticos tirados apenas e tão-somente de dentro da sua própria cabeça, e não de qualquer livro de hermenêutica ou de um dicionário.
 
 
Portanto, é perfeitamente plausível e razoável interpretar as almas sob o altar no céu da mesma maneira que em relação às passagens acima, onde os anjos estão no altar, uma “voz das quatro pontas” vem dele, o altar pode ser medido, e o anjo “saiu do altar”. O Apocalipse segue este padrão: almas clamam “debaixo do [um] altar [no céu]”.
 
Para não perder o costume, temos aqui mais uma vez a repetição daquilo que já foi refutado sobre o altar, com o detalhe de que ele ignora que no Apocalipse o próprio altar é que fala, em vez de apenas alguém no altar. Isso eu já mostrei no meu livro em uma das muitas partes que Dave ignorou por completo. O grego de Apocalipse 16:7 traz apenas kai akouo tou thusiasterion lego (“e ouvi o altar dizer...”). O texto é um claro paralelo com Apocalipse 6:9, como vemos:
 
“O terceiro anjo derramou a sua taça nos rios e nas fontes de águas, e eles se transformaram em sangue. Então ouvi o anjo que tem autoridade sobre as águas dizer: ‘Tu és justo, tu, o Santo, que és e que eras, porque julgaste estas coisas; pois eles derramaram o sangue dos teus santos e dos teus profetas, e tu lhes deste sangue para beber, como eles merecem’. E ouvi o altar responder: ‘Sim, Senhor Deus todo-poderoso, verdadeiros e justos são os teus juízos’” (Apocalipse 16:4-7)
 
Note que aqui não se fala em “almas”, apenas em “sangue”, e que não é alguma coisa “debaixo” do altar que fala, mas o próprio altar. Mas apesar de ambos os textos serem claramente um paralelo, imortalistas como Dave preferem fazer de conta que esse texto não existe, pois do contrário teriam que admitir a evidente figura de linguagem que caracteriza ambas as passagens (Apocalipse 6:9-11 e Apocalipse 16:4-7).
 
 
Não faz sentido ignorar todas essas evidências contextuais e colocar arbitrariamente esse evento na Terra... Patético, constrangedor.
 
Vejamos novamente: (1) todos os selos do capítulo 6 retratam acontecimentos terrenos, (2) até mesmo os eventos celestiais que João descreve em outros capítulos é da perspectiva de um céu simbólico e não do céu real, (3) João claramente fala também de um altar terreno e não apenas de um altar celestial, (4) toda a linguagem do Apocalipse é fundamentalmente simbólica e os próprios católicos [mais honestos] reconhecem isso (pelo menos quando é conveniente), e (5) Apocalipse 6:9-11 está em paralelo com um texto que também é claramente simbólico e que também claramente fala de pessoas na terra e não de seres celestiais. E mesmo assim, eu é que sou “patético” e “constrangedor” (note que esse ataque foi gratuito, pois eu nunca havia escrito nada contra ele antes e lhe respondi cordialmente na única vez que trocamos mensagem, então não se trata de uma retribuição, mas apenas de falta de educação mesmo).
 
Em contrapartida, Dave basicamente mentiu sobre tudo o que escreveu no artigo, cometeu uma gafe pitoresca em relação ao altar de Apocalipse 11:1, interpretou os quatro seres viventes literalmente contrariando os seus próprios pares católicos e Pais da Igreja, criou da própria cabeça regras hermenêuticas que simplesmente não existem e que contrariam a Bíblia toda, sugeriu bisonhamente que João só falou de coisas do céu “porque estava lá”, interpreta a Bíblia como uma criança de 6 anos lendo um gibi da Marvel e ainda acha que tem moral pra chamar os outros de “patético”. Deixo que o leitor decida quem é o “patético” aqui.
 
 
Ah, mas os mortos falam! Eu já provei massivamente isso nas Escrituras na parte anterior (Parte 4) desta série. Banzoli segue sua própria falsa pressuposição. Eu (e a grande e esmagadora maioria dos cristãos, como ele mesmo admite) sigo a Bíblia Sagrada – revelação inspirada de um Deus onisciente – no que diz respeito às almas imortais. Um Samuel morto falou com Saul e deu-lhe uma verdadeira profecia de seu julgamento e morte iminentes (1Sm 28:16-19). O homem rico morto falou com o morto Abraão no Sheol/Hades, e Abraão respondeu (Lucas 16). Isso é direto dos lábios de Jesus. Paulo disse que toda “toda língua” que está “debaixo da terra” (isto é, no Sheol) “confessará que Jesus Cristo é o Senhor” (Fp 2:10-11). E no Antigo Testamento, duas vezes vemos que as almas dos mortos no Sheol estão conscientes e falam (Is 14:9-10; Ez 32:21).
 
Aqui temos um exemplo gratuito da metodologia imortalista que tenho testemunhado desde sempre: quando são refutados em um ponto, correm para outros dez pontos que já foram exaustivamente refutados por igual, citando um monte de textos aleatórios e fora de contexto, que quando analisamos mais detidamente os fazem passar ainda mais vergonha. Todos esses textos citados já foram abordados extensivamente no meu livro de 1900 páginas (clique aqui, baixe o livro e leia você mesmo, não seja preguiçoso igual ao Dave), mas como os imortalistas não tem contra-argumentos, tudo o que lhes resta é repetir à exaustão os mesmos argumentos pobres, toscos e já refutados de sempre.
 
Só pra citar um exemplo, o versículo anterior ao texto que ele cita para falar das “almas [conscientes] dos mortos no Sheol” em Isaías 14:9-10 fala até dos espinheiros e cedros do Líbano como estando no Sheol e conversando entre si (v. 9), e o verso seguinte, que ele também convenientemente omite entre os parêntesis, como todo bom trapaceiro, diz que o rei da Babilônia estaria coberto de larvas e de vermes no Sheol (v. 11), porque obviamente era uma alusão poética ao estado do corpo na sepultura (como expressamente afirmado nos versos 18 ao 20), não a uma alma fantasmagórica em uma outra dimensão. Os imortalistas são assim: recortam um texto, tiram do contexto, citam apenas a parte que convém entre os parêntesis de uma referência e rezam para ninguém descobrir a manobra (no caso de Dave, creio que literalmente).
 
As doações do PayPal são as mais fáceis: basta enviar para o meu endereço de e-mail: apologistdave@gmail.com. Você verá o termo “Serviço Católico de Livros Usados”, que é meu antigo negócio paralelo. Para saber mais sobre os diferentes métodos de contribuição, incluindo 100% de dedução de impostos, etc., veja minha página.
 
Isso mesmo, doem para o Dave! Não deve ser fácil passar o dia todo escrevendo baboseiras em vez de arrumar um trabalho, então ele precisa mesmo do seu dinheiro. Imagine o tanto de textos bisonhos deixariam de ser escritos se ninguém doasse nada e ele fosse obrigado a trabalhar, certamente seria bem menos divertido (eu devo confessar que poucas vezes me diverti tanto com uma refutação, tinha até me esquecido de como era prazeroso). Eu até mesmo estou pensando em contribuir, principalmente agora que todo mundo fez o “L” e o real vai valer mais do que o dólar, mas há tantos apologistas católicos divertidíssimos para dar o meu dinheiro que estou na dúvida (mentira, ninguém é tão divertido quanto o Dave, take my money!).
 
 
Considerações Finais
 
Se sem eu responder qualquer coisa o Dave já estava obcecado pela minha pessoa a ponto de me homenagear com uns duzentos artigos semanais, imagine agora que realizou seu sonho de ser respondido – provavelmente vem por aí mais umas 50 “refutações” apenas a este meu único texto, todas elas abrangendo 5% do conteúdo e esquecendo de todo o restante, com uma superficialidade de doer e uma pobreza maior que o Quênia. Eu não pretendia responder mais nada, mas ao descobrir como os textos do Dave são divertidos, vou fazer questão de refutar um a um dos seus artigos “against Lucas Banzoli” (mesmo que a maior parte deles seja daqui algumas décadas, quando eu tiver tanto tempo livre quanto ele, e talvez algumas doações no PayPal).

Obrigado, Dave, por me fazer voltar ao blog. Te devo essa. Thanks!
 
Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,

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