19 de novembro de 2022

0 A parábola do rico e Lázaro prova a imortalidade da alma?

 

*Nota: O artigo abaixo é extraído do meu livro "A Lenda da Imortalidade da Alma", que você pode baixar gratuitamente ou comprar a versão impressa na página dos livros. 

***

Uma parábola dos tempos modernos  Certa vez, morreram, na mesma hora, em lugares diferentes, mas não muito distante um do outro, dois homens. O primeiro era um senhor simples, sem estudos, motorista de ônibus na pequena região onde morava. Era conhecido de todos, principalmente pela má execução de sua tarefa profissional. Era muito, mas muito barbeiro. Foi assim a vida toda, até que morreu em acidente de trânsito. O segundo homem era o pastor da cidadela. Pois bem, chegaram na porta do céu praticamente juntos. São Pedro atendeu primeiro o motorista.
 
No questionário de admissão para entrar no céu, quando São Pedro queria saber quem ele era, aquele homem começou a explicar: eu sou aquele conhecido motorista de ônibus, da empresa tal, de tal cidade, e tal e tal...
 
“Ah, tá!”, disse São Pedro. “Você é o motorista barbeiro!”. “Justamente”, respondeu o homem. “Pois bem!”, disse São Pedro. “Entre! O céu é todo seu!”.
 
O pastor, que estava assistindo a entrevista enquanto esperava para ser também atendido, pensava: “Se este homenzinho foi admitido ao céu, imagine eu, o pregador”.
 
São Pedro se virou para o pastor: “Você é o próximo?”.
 
“Sim”, respondeu o pastor, todo empolgado: “Sou o pastor, da mesma cidade deste barbeiro que acabou de entrar...”.
 
São Pedro cortou: “Olha, eu sei quem você é. Infelizmente, você não tem entrada livre ao céu. Não poderá ficar aqui”.
 
“Mas como?”, contestou o pastor. “Este homenzinho ignorante, iletrado, que fazia seu trabalho mal feito, que não pregava, que vivia dando prejuízo pra empresa, que sempre deixava todos os seus passageiros tensos e temerosos, vai entrar no céu, e eu, o pregador, que vivia na igreja, que falava da palavra de Deus, que procurava deixar todos em paz, não poderei entrar?”.
 
“É justamente nesta diferença que está a razão da rejeição de sua entrada em face da admissão do motorista”, respondeu São Pedro.
 
“Não entendi”, disse o pregador.
 
O apóstolo porteiro do céu explicou: “É que enquanto você estava na igreja, com seus sermões sem vida, colocando todos os seus fiéis para dormir, o motorista estava colocando todos os seus passageiros para rezar”.
 
***

A parábola que você acabou de ler costuma ser contada pelo pastor adventista Valdeci Junior aos seus ouvintes, ao introduzir a parábola do rico e Lázaro. Depois que ele conta a história, ainda antes de revelar ao auditório qual será o assunto do dia, começa a perguntar às pessoas quais são as lições que elas tiraram da história. É interessante notar alguns pontos da reação do auditório. Assim que termina a história, os ouvintes sorriem e vão fazendo a lista das lições aprendidas:
 
“Nem todo o que me diz Senhor, Senhor, entrará no Reino dos céus”
“Os simples também têm entrada no céu”
“É melhor a devoção do que o formalismo”
“Ser pastor não garante a salvação”
“O pregador deve fazer bons sermões”
“O céu não admite só pela aparência”
“As aparências enganam”
“Devemos vigiar e orar”
 
E por aí vai.
 
O interessante é que ninguém até hoje diz que viu nesta história lições como:
 
“São Pedro está na porta do céu esperando por nós”
“Antes de entrarmos no céu teremos que passar por uma entrevista”
“Assim que morremos chegamos ao céu”
“Pode ser que cheguemos à porta do céu e não sejamos admitidos”
“A alma é imortal”
 
Ninguém se escandaliza por isso ou despreza a história. Esperam então que ele introduza o assunto da palestra baseado em alguma das lições que conseguiram tirar dela. Começam a imaginar qual será o tema da noite, sem jamais imaginar que ele falaria da parábola do rico e do Lázaro. Ele se aproveitou de uma crendice popular apenas como um cenário onde se passava uma história fictícia, a fim de ensinar algumas lições. Por quê?
 
• O auditório sabe que esta não é uma história verdadeira.
 
• Eles conhecem a crendice popular de que quem morre vai pro céu, e na entrada encontra São Pedro.
 
  Eles não creem nesta crendice como doutrina. Sabem que isto não é verdade (o pastor já conhece o auditório e sabe que eles creem como ele crê, sobre o destino do homem após a morte).
 
• O auditório vai conseguir captar as lições que ele quer ensinar com mais facilidade, pois, através de uma metáfora, está figurando o ensino. Isto é didática. Na primeira vez que ele ouviu essa história, ela foi contada por um palestrante que não cria na imortalidade da alma, para um público que também não cria. Na ocasião, todos entenderam a mensagem. A questão de mortalidade ou imortalidade não foi cogitada por ninguém. Não era este o assunto.
 
Parábolas devem ser interpretadas literalmente? Jesus contou a parábola do rico e Lázaro pela mesma razão que o pastor adventista contou a parábola do pastor e do barbeiro. Nenhum deles estava querendo endossar alguma doutrina errônea sobre a vida após a morte, porque o propósito passava longe de ser uma aula teológica sobre o que acontece depois da morte. Tanto os ouvintes de Jesus como os do pastor Valdeci eram perfeitamente bem doutrinados para saber disso. Nos tempos de Jesus, parábolas eram bem mais comuns do que são hoje, e ninguém em sã consciência as interpretaria literalmente. Eles sabiam que uma parábola é por definição uma alegoria, como diz o dicionário Michaelis:
 
PARÁBOLA
■ substantivo feminino
1 Narrativa alegórica que tem por objetivo transmitir uma mensagem de maneira indireta, usando como recurso a analogia ou a comparação.
2 Narrativa alegórica que transmite preceitos morais ou religiosos, comum nas Escrituras Sagradas.[1]
 
Quando um imortalista iletrado diz que “se a parábola não é real, então Jesus mentiu”, mostra em primeiro lugar que não sabe nem o significado básico de uma parábola, que jamais teve por objetivo ser uma história real ou expressar necessariamente coisas reais. A prova disso é que na Bíblia não faltam exemplos de parábolas onde árvores falam e conversam entre si, e nem por isso os mesmos imortalistas dizem que os personagens bíblicos “mentiram” (ou que árvores falem mesmo). Por exemplo, no segundo livro de Reis, nós nos deparamos com a seguinte parábola:
 
“Então Amazias enviou mensageiros a Jeoás, filho de Jeoacaz e neto de Jeú, rei de Israel, com este desafio: ‘Venha me enfrentar’. Contudo, Jeoás respondeu a Amazias: ‘O espinheiro do Líbano enviou uma mensagem ao cedro do Líbano: Dê sua filha em casamento a meu filho. Mas um animal selvagem do Líbano veio e pisoteou o espinheiro. De fato, você derrotou Edom e agora está arrogante. Comemore a sua vitória, mas fique em casa! Por que provocar uma desgraça que levará você e também Judá à ruína?’” (2º Reis 14:8-10)
 
O objetivo de Jeoás obviamente não era ensinar que os espinheiros literalmente conversam com os cedros do Líbano, assim como o objetivo de Jesus ao contar a parábola do rico e Lázaro obviamente não era dizer que o Sheol/Hades era um lugar de almas queimando ou conversando entre si. Em ambos os casos, a conversa das árvores ou dos mortos serve apenas como um «recurso de analogia ou comparação», que é precisamente no que consiste uma parábola.
 
Em outras palavras, embora os elementos em si (espinheiros, cedros ou mortos) sejam fictícios, eles transmitem uma lição moral mais profunda, que é de fato o objetivo do autor ao usar a parábola como recurso didático. Em Juízes vemos uma parábola semelhante, onde uma verdade é novamente ilustrada através de um diálogo fictício entre árvores:
 
“Certo dia as árvores saíram para ungir um rei para si. Disseram à oliveira: ‘Seja o nosso rei!’. A oliveira, porém, respondeu: ‘Deveria eu renunciar ao meu azeite, com o qual se presta honra aos deuses e aos homens, para dominar sobre as árvores?’. Então as árvores disseram à figueira: ‘Venha ser o nosso rei!’. A figueira, porém, respondeu: ‘Deveria eu renunciar ao meu fruto saboroso e doce, para dominar sobre as árvores?’. Depois as árvores disseram à videira: ‘Venha ser o nosso rei!’. A videira, porém, respondeu: ‘Deveria eu renunciar ao meu vinho, que alegra os deuses e os homens, para ter domínio sobre as árvores?’. Finalmente todas as árvores disseram ao espinheiro: ‘Venha ser o nosso rei!’. O espinheiro disse às árvores: ‘Se querem realmente ungir-me rei sobre vocês, venham abrigar-se à minha sombra; do contrário, sairá fogo do espinheiro e consumirá até os cedros do Líbano!’” (Juízes 9:8-15)
 
Jotão contou essa parábola para ilustrar o quão errada foi a escolha dos israelitas por Abimeleque como rei, o qual havia assassinado os seus irmãos a sangue frio. Ao invés deles escolherem homens mais dignos, representados pelas árvores mais “nobres”, escolheram justamente um assassino sanguinário, representado pelo espinheiro. Aqui nós novamente vemos um cenário totalmente fictício envolvendo conversas entre árvores, não para fundamentar uma doutrina de árvores falantes, mas para ilustrar uma verdade mais profunda através do uso da alegoria.
 
Se em parábolas até árvores ganham personalidade e falam, não admira que haja na Bíblia textos em menor quantidade que apresentem mortos “vivos” falando alguma coisa, uma vez que tanto os mortos como as árvores são seres inanimados que podem ser personificados em cenários alegóricos com um propósito ilustrativo. A razão por que os imortalistas interpretam a parábola do rico e Lázaro literalmente para dizer que os mortos estão vivos no mundo do além, mas não fazem o mesmo com as parábolas que dão personalidade e consciência às árvores, é tão-somente porque estão apegados à pressuposição de que as almas são imortais e precisam desesperadamente encontrar apoio bíblico a isso.

 
Some a isso o importante adendo de que, diferente do que a maioria pensa, Jesus não contava parábolas para esclarecer verdades espirituais, mas para ocultá-las. Por mais estranho que isso possa parecer, Jesus não contava parábolas para que a multidão entendesse melhor o seu ensino, mas justamente o contrário: para que não entendessem! Se você está surpreso com isso, deve ser porque ainda não leu Mt 13:10-14, que diz o seguinte:
 
“Os discípulos aproximaram-se dele e perguntaram: ‘Por que falas ao povo por parábolas?’. Ele respondeu: A vocês foi dado o conhecimento dos mistérios do Reino dos céus, mas a eles não. A quem tem será dado, e este terá em grande quantidade. De quem não tem, até o que tem lhe será tirado. Por essa razão eu lhes falo por parábolas: ‘Porque vendo, eles não veem e, ouvindo, não ouvem nem entendem’. Neles se cumpre a profecia de Isaías: ‘Ainda que estejam sempre ouvindo, vocês nunca entenderão; ainda que estejam sempre vendo, jamais perceberão’” (Mateus 13:10-14)
 
É por isso que Jesus falava aos discípulos claramente, mas à multidão falava apenas por parábolas: “Jesus falou todas estas coisas à multidão por parábolas. Nada lhes dizia sem usar alguma parábola(Mt 13:34). Não é porque Jesus queria que a multidão entendesse, mas justamente o contrário, já que não foi concedido a ela conhecer os «mistérios do Reino dos céus», uma vez que se tratava de uma multidão interesseira e de coração endurecido. Isso explica por que o povo estava sempre entendendo errado o que Jesus dizia, como acontece o tempo todo nos evangelhos.
 
A multidão de João 6 achou que Jesus estava falando de canibalismo quando se declarou o «pão vivo» que devia ser comido (Jo 6:51-52), a mulher samaritana do poço de Betesda interpretou literalmente a «água viva» (Jo 4:10-11), e mesmo um doutor da lei como Nicodemos achou que Jesus falava de voltar ao ventre da mãe para renascer quando o ouviu falar sobre «nascer de novo» (Jo 3:3-4). Até os discípulos tinham dificuldade em entender quando Jesus falava literalmente e quando não, razão por que discutiram sobre não terem pão quando Jesus pediu que tivessem cuidado com o fermento dos fariseus e dos saduceus (Mt 16:6-7).
 
Isso indica que Jesus não contou a parábola do rico e Lázaro para ensinar qualquer coisa sobre a vida após a morte. Se ele sempre falava à multidão por alegorias que ela não entendia, e se o propósito era justamente que eles não entendessem, a moral da parábola não pode ser algo que tenha sido dito literalmente e que qualquer um pode facilmente enxergar ali. Mesmo se houvesse alguém tão tolo a ponto de pensar que Jesus queria ensinar a vida após a morte ao contar a parábola (o que não é de se espantar, já que confundiam tudo o que Jesus falava de forma alegórica), o verdadeiro propósito da parábola não estava em suas linhas, mas nas entrelinhas, oculto ao olhar da multidão.
 
A história do rico e Lázaro não é uma parábola? Cientes disso, a única alternativa que resta aos imortalistas é dizer que Lc 16:19-31 não é uma parábola, mas uma história real. Este é o único jeito de exigir a literalidade do texto, o que distinguiria essa parábola das parábolas em que árvores falam e outras de natureza claramente simbólica, e faria com que a mensagem que Jesus queria passar à multidão fosse exatamente aquilo que pode ser extraído literalmente dela e que qualquer um da multidão seria capaz de entender perfeitamente bem. No entanto, essa tentativa esbarra nas evidências esmagadoras, tanto dentro como fora de Lc 16:19-31, que demonstram que Jesus estava contando realmente uma parábola, não uma história real.
 
Para começo de conversa, a perícope em questão se encontra justamente no meio de parábolas bem conhecidas de Lucas. Tanto os capítulos precedentes como os seguintes, incluindo o próprio capítulo 16, são recheados de parábolas dos mais variados tipos, como se Lucas tivesse reservado essa parte do livro quase que exclusivamente às parábolas de Jesus. De fato, Lucas é de longe o evangelista que mais narra parábolas de Jesus, e muitas delas nós conhecemos apenas por seu registro, como a do bom samaritano e a do filho pródigo (além, é claro, da do rico e Lázaro). Vejamos o contexto:
 
CAP. 14 – A parábola da grande festa
CAP. 15 – A parábola da ovelha perdida
CAP. 15 – A parábola da moeda perdida
CAP. 15 – A parábola do filho pródigo
CAP. 16 – A parábola do administrador desonesto
CAP. 16 – A ******** do rico e Lázaro
CAP. 17 – A parábola do empregado
CAP. 18 – A parábola da viúva e do juiz
 
Teria Lucas incluído uma história real justamente no meio de uma série de parábolas? Há quem diga que sim, porque em Lc 16:19-31 ele não diz expressamente que se trata de uma parábola (como se fosse necessário explicar que se trata de uma parábola quando se vem narrando parábolas em sequência). Isso seria como um comediante num show de Stand Up precisar interromper sua apresentação para avisar a plateia de que aquilo que ele contaria em seguida seria mais uma piada, o que não faz o menor sentido. Se a parábola do rico e Lázaro estivesse inserida em meio a histórias reais, seria de se esperar um aviso prévio desses, mas não quando todo o contexto é notoriamente marcado por histórias fictícias.
 
Isso explica por que muitas outras parábolas em torno de Lucas 16 também não vem com um aviso prévio de que se trata de uma parábola, embora todos (incluindo os imortalistas) assim entendam. Isso inclui a parábola da moeda perdida (Lc 15:8-9), a do filho pródigo (Lc 15:11-32) e a do administrador desonesto (Lc 16:1-8), que antecedem imediatamente a do rico e Lázaro. É obviamente desnecessário enfatizar que se trata de outra parábola quando se vem narrando várias parábolas em sequência, o que é pressuposto por qualquer pessoa com um QI acima de zero. É por isso que até mesmo Clemente de Alexandria (150-215), um dos precursores da imortalidade da alma no meio cristão (mas que tinha um QI acima de zero) reconhecia abertamente que se tratava de uma parábola.[2]
 
Há vários outros casos em que Jesus não diz expressamente que se tratava de uma parábola, mas seus discípulos assim entenderam (e nestes casos, com razão). Por exemplo, em Lc 12:37-40 Jesus conta uma história sem dizer que é uma parábola, e então Pedro questiona: “Senhor, estás contando esta parábola para nós ou para todos?” (Lc 12:41). Jesus não responde a Pedro dizendo que ele estava enganado ao julgar ser uma parábola, porque de fato se tratava de uma (embora ele não tivesse anunciado como sendo uma parábola).
 
O mesmo acontece em Mt 15:14-15, quando Pedro pede para Jesus explicar uma parábola sem que Jesus tivesse avisado se tratar de uma. Em Lc 5:36, o evangelista diz que Jesus “lhes contou esta parábola...”, mas a mesma parábola é citada em Mc 2:21 sem a informação de que se trata de uma parábola. Isso nos mostra que nem os evangelistas faziam questão de sempre acentuar quando se tratava de uma parábola, nem os discípulos precisavam que Jesus afirmasse explicitamente que se tratava de uma. Eles naturalmente entendiam que quando Jesus contava histórias ele ensinava através de parábolas.
 
O principal argumento daqueles que dizem que Lc 16:19-31 foge a essa regra é que Jesus usou um verbo de existência quando disse que havia um homem rico...” (v. 19), o que provaria que neste caso se tratava de uma história real. Este argumento, apesar de repetido à exaustão pelos apologistas imortalistas, só demonstra o peso de sua ignorância, já que o termo “haver” nem mesmo consta no grego, que diz apenas anthrōpos de tis ēn plousios kai enedidysketo porphyran (“certo homem rico se vestia de púrpura...”).
 
O “havia” é uma inserção no texto feita pelos tradutores, que fizeram o mesmo no início do capítulo, na parábola do administrador desonesto: Havia um homem rico que tinha um administrador; e este lhe foi denunciado como quem estava a defraudar os seus bens...” (Lc 16:1). Os imortalistas saberiam disso se tivessem feito uma pesquisa básica antes de repetir bobagens de terceiros e usá-las como argumento. E mesmo se o grego realmente usasse um verbo de existência, isso apenas implicaria que o rico existia na parábola, da mesma forma que o filho pródigo existia na parábola, bem como os acontecimentos que o cercam:
 
Depois de ter gasto tudo, houve uma grande fome em toda aquela região, e ele começou a passar necessidade...” (Lucas 15:14)
 
Ao contrário de Lc 16:19, onde o “havia” é uma inserção que não consta no original grego, aqui na parábola do filho pródigo de fato aparece o verbo ginomai, que significa «vir à existência, começar a ser, receber a vida»[3]. Nem por isso alguém acredita que a parábola do filho pródigo era uma história real, como alguns reivindicam em relação à parábola do rico e Lázaro (que não usa um verbo de existência). Um autor de ficção, como Lewis e Tolkien, frequentemente usa verbos de existência em sua história, não porque esteja descrevendo algo real, mas porque aquilo existe dentro da ficção.
 
Os problemas da interpretação literal – Ademais, os próprios detalhes narrativos da parábola do rico e Lázaro provam que se trata mesmo de uma parábola, isto é, de uma alegoria sem nenhuma pretensão de ser entendida literalmente. Muitos imortalistas são rápidos em citar a parábola como uma “prova” da imortalidade da alma, mas se esquecem dos detalhes incômodos que ela apresenta para quem quer interpretá-la literalmente:
 
Lucas 16
19 Havia um homem rico que se vestia de púrpura e de linho fino e vivia no luxo todos os dias.
20 Diante do seu portão fora deixado um mendigo chamado Lázaro, coberto de chagas;
21 este ansiava comer o que caía da mesa do rico. Em vez disso, os cães vinham lamber as suas feridas.
22 Chegou o dia em que o mendigo morreu, e os anjos o levaram para junto de Abraão. O rico também morreu e foi sepultado.
23 No Hades, onde estava sendo atormentado, ele olhou para cima e viu Abraão de longe, com Lázaro ao seu lado.
24 Então, chamou-o: “Pai Abraão, tem misericórdia de mim e manda que Lázaro molhe a ponta do dedo na água e refresque a minha língua, porque estou sofrendo muito neste fogo”.
25 Mas Abraão respondeu: “Filho, lembre-se de que durante a sua vida você recebeu coisas boas, enquanto que Lázaro recebeu coisas más. Agora, porém, ele está sendo consolado aqui e você está em sofrimento.
26 E além disso, entre vocês e nós há um grande abismo, de forma que os que desejam passar do nosso lado para o seu, ou do seu lado para o nosso, não conseguem”.
27 Ele respondeu: “Então eu lhe suplico, pai: manda Lázaro ir à casa de meu pai,
28 pois tenho cinco irmãos. Deixa que ele os avise, a fim de que eles não venham também para este lugar de tormento”.
29 Abraão respondeu: “Eles têm Moisés e os Profetas; que os ouçam”.
30 “Não, pai Abraão, disse ele, mas se alguém dentre os mortos fosse até eles, eles se arrependeriam”.
31 Abraão respondeu: “Se não ouvem a Moisés e aos Profetas, tampouco se deixarão convencer, ainda que ressuscite alguém dentre os mortos”.
 
O primeiro detalhe interessante é que a parábola simplesmente não menciona alma ou espírito. Apenas diz que “o rico foi sepultado”, e então ele aparece no Hades. Isso não é um mero detalhe sem relevância, porque, como veremos, a parábola personifica personagens inanimados, tal como as parábolas de árvores falantes. Por essa razão, os personagens aparecem no Hades com o corpo físico, não como uma alma desencarnada ou um espírito sem corpo. Isso fica nítido no verso 24, em que o rico pede a Lázaro que “molhe a ponta do dedo na água e refresque a minha língua.
 
Isso mostra que Lázaro tinha dedos e que o rico tinha língua, ambos órgãos de um corpo físico, e não partes de um espírito imaterial ou de uma alma fantasmagórica. Como comenta Bacchiocchi, eles são retratados como existindo fisicamente, a despeito do fato de que o corpo do homem rico foi devidamente depositado na sepultura. Foi o seu corpo levado ao Hades juntamente com sua alma por engano?”[4]. Não me surpreende que alguns cheguem ao ponto de sugerir que o espírito fora do corpo tem os mesmos órgãos do corpo, para superar esses problemas intransponíveis – mesmo que isso faça de Jesus um mentiroso, quando disse que um espírito não tem carne nem ossos (Lc 24:39).
 
Mais do que isso, se um espírito já tem corpo, pra que serve o nosso corpo atual? E por que diabos haveria a ressurreição? Por outro lado, se a alma é desmaterializada e incorpórea, por que precisaria de um mineral palpável e material como a água? Note que o risco deseja refrescar sua língua, o que indica que ele sentia sede. Mas a sede é uma característica biológica, não de um espírito imaterial e fluídico. Nem Deus nem os anjos precisam “refrescar a língua”, porque não têm um corpo para sentir sede. O rico precisava, porque ele não estava ali como um “fantasminha”, mas corporalmente.
 
É por isso que não é de se estranhar que não haja em toda a parábola uma única menção de “alma” ou de “espírito”, como seria de se esperar se Jesus quisesse ensinar a imortalidade da alma. Nenhum dos personagens está ali como uma alma fora do corpo, mas com corpos com dedo, língua e tudo o que têm direito. Assim, se tomássemos a parábola literalmente, como querem os imortalistas, ela provaria não a sobrevivência da alma, mas a sobrevivência do corpo físico no Hades (o que é obviamente ridículo).
 
Uma interpretação literal da parábola também abre margem a uma série de inconsistências, que os imortalistas dificilmente gostariam de incluir em sua teologia. Por exemplo, ela abriria espaço para a crença de que os salvos no céu poderão conversar tranquilamente com os ímpios no inferno, assim como o rico conversa com Lázaro. Imagine você não apenas saber que seu filho está queimando no inferno em um terrível sofrimento sem fim, mas ainda poder vê-lo sofrendo diante dos seus olhos e se comunicar com ele sem poder fazer nada para atenuar seu sofrimento ou livrá-lo dali. Eu aposto que sua experiência no céu não seria tão satisfatória assim...
 
Embora alguns imortalistas afirmem que após a morte de Jesus os salvos no “Seio de Abraão” foram magicamente transferidos para uma dimensão celestial e não mais têm contato com os perdidos no inferno, ainda assim teriam que lidar com o incômodo fato de que por pelo menos quatro mil anos (desde o início da criação até a vinda de Cristo) isso não apenas era possível, mas acontecia realmente. Se você nunca viu um pastor ou padre pregar que os salvos no Paraíso podiam ou podem ver e conversar com os ímpios no inferno, talvez seja porque até eles sabem que a parábola não pode ser interpretada literalmente, mas mesmo assim a usam para “provar” a sobrevivência da alma. Não há nada que não possa mudar conforme a conveniência. 
 
Para piorar, Abraão e o rico conversam como se estivessem perto um do outro, mas o próprio relato diz que havia «um grande abismo» entre eles, tão grande que impedia Lázaro de molhar a língua do rico e de alguém passar de um lado para o outro (v. 26). Mesmo se estivessem próximos, dificilmente poderiam se ouvir com clareza, já que milhões de almas naquele lugar estariam gritando ao mesmo tempo e berrando sem parar em um sofrimento incalculável. O próprio rico dificilmente conseguiria manter um diálogo daqueles com Abraão, se estivesse realmente “sofrendo muito neste fogo” (v. 24). Quem é que consegue dialogar com toda a naturalidade do mundo enquanto literalmente está ardendo nas chamas de um lago de fogo?
 
O diálogo, assim como tudo o que o rodeia, é bem típico de uma história fictícia, e, como toda ficção, esbarra em absurdos lógicos quando transposto para a realidade. Mesmo se o rico conseguisse dialogar tranquilamente com Abraão daquela distância enquanto sofria amargamente entre as chamas, por que raios ele pediria para Lázaro molhar a sua língua, quando todo o seu corpo estava sendo devorado pelo fogo? Eu nunca vi alguém que está queimando se preocupar com refrescar a língua, a não ser que apenas a língua estivesse pegando fogo. Ou o fogo da parábola é de mentirinha, ou o inferno não deve ser tão doloroso assim, afinal.
 
Ademais, de que adiantaria uma gota d’água, quando todo o corpo está queimando em um fogo inextinguível? Por acaso aquela gota apagaria o fogo do inferno no qual o rico estava mergulhado? Provavelmente ela evaporaria antes mesmo que chegasse até ele, ainda mais considerando que eles estavam separados por um abismo intransponível. Como observa Bacchiocchi,
 
um abismo separa Lázaro no céu (o seio de Abraão) do homem rico no Hades. O abismo é por demais amplo para qualquer um atravessar, contudo, estreito o suficiente para permitir que conversem. Tomado literalmente, isso significa que o céu e o inferno mantêm uma distância geográfica que permite a santos e pecadores ver e comunicar-se uns com os outros, eternamente. Ponderemos por um momento o caso de pais no céu vendo seus filhos agonizando no Hades por toda a eternidade. Tal visão não destruiria a própria alegria e paz do céu? É impensável que os salvos verão e conversarão com seus queridos não-salvos por toda a eternidade através de um abismo divisório.[5]
 
Nem precisamos entrar em mais detalhes problemáticos, como de que forma o rico sabia que era Abraão, ou como reconheceu Lázaro de tão longe entre as fumaças de uma fornalha, ou para onde iam as pessoas no “Seio de Abraão” antes de Abraão existir, ou por que ele pediria que Lázaro molhasse apenas “a ponta do dedo na água” (v. 24) para transportar a água de um lugar para outro em vez de encher as mãos de água e lhe dar um verdadeiro “banho”, ou de que forma algumas gotas de água poderiam aliviá-lo de um tormento daquela natureza, entre tantos outros detalhes perturbadores da perícope, que os imortalistas fingem que não existem.
 
Também chama a atenção que o rico peça que Abraão mande Lázaro de volta ao mundo dos vivos, como se Abraão tivesse algum poder para isso, em lugar de Deus. E embora Abraão não atenda o pedido, ele não diz que não tinha esse poder, como quando diz que não podia lançar água devido ao grande abismo que os separava.
 
É intrigante como os mesmos imortalistas que de forma irresponsável e leviana citam fora de contexto os trechos da parábola que lhes convém para dizer que os mortos estão vivos no outro mundo não fazem o mesmo para sustentar a doutrina de que os espíritos descem ao Hades com corpo e tudo, que os salvos podem conversar tranquilamente com os não-salvos do outro lado, que a maior preocupação de quem tem o corpo fritando no inferno é refrescar a língua ou que é possível ter um diálogo racional com alguém que esteja tão longe num ambiente tomado pela gritaria e pelo pânico, e com o corpo todo em chamas.
 
Eles obviamente descartam esses pontos inconvenientes da parábola e os omitem de suas apostilas teológicas, mas cinicamente usam a parábola como a “prova” do estado intermediário, do “Seio de Abraão”, do fogo do inferno e de outras abobrinhas que lhes convém. Isso mostra o grau de cinismo e dissimulação dos nossos oponentes, que não pensam duas vezes em usar essa parábola para endossar a vida após a morte, mas não são loucos de acreditar no tipo de vida após a morte que a parábola registra nem ousam sustentar esse tipo de “céu” e “inferno” em seus estudos bíblicos.
 
Aparentemente, a passagem serve pra dizer que a alma sobrevive à morte, mas não pra retratar como realmente é essa vida após a morte. É como se o texto dissesse que “o rico estava sendo atormentado no Hades, e fim”. O resto nunca é citado, a não ser quando é pra tirar vergonhosamente algum trecho do contexto (sem nunca citar os detalhes que mencionamos aqui). Se eles realmente acreditassem que a parábola é uma história real ou que pelo menos retrata como realmente é a vida após a morte, o tipo de estado intermediário que pregariam nos púlpitos seria totalmente compatível com o que existe na parábola – mas você nunca verá nenhum deles dizendo que os espíritos têm corpos físicos que sentem sede ou que é possível bater um papo bacana com quem está queimando lá do outro lado.
 
Isso prova que eles mesmos sabem que essa parábola não tem nada de real, mas precisam usá-la mesmo assim na falta de argumentos melhores – e também porque com uma parábola dessas é muito mais fácil ludibriar os incautos, que nem sequer sabem o que é uma parábola ou que nenhuma doutrina séria depende de parábolas para ser sustentada. Como comenta Bacchiocchi, “vez após vez tenho-me surpreendido com o fato de que até mesmo conceituados eruditos com frequência ignoram um princípio hermenêutico fundamental de que linguagem de parábola não pode e não deve ser interpretada literalmente”[6].

A razão por que é tão comum ver teólogos “conceituados” citando a parábola do rico e Lázaro como a “prova” da sobrevivência da alma é porque ela é praticamente tudo o que eles têm, e sem ela só restam meia dúzia de textos desconexos que nem remotamente indicam a sobrevivência da alma. Essa é a verdadeira e única razão por que eles precisam se apegar tão desesperadamente a essa parábola como o “carro-forte” da doutrina que eles defendem, já que é o único argumento capaz de ludibriar um leigo desavisado em uma leitura superficial e desprovida de exegese.
 
Se a parábola não é literal, então Jesus mentiu? – É intrigante notar que os mesmos imortalistas que cinicamente acusam os mortalistas de assumir que “Jesus mentiu” ao contar uma parábola em que há vida após a morte não dizem que Jesus mentiu quando afirmou a possibilidade de justos e ímpios conversarem após a morte, embora eu não conheça um único imortalista que cogite tal coisa. É como se Jesus pudesse ter “mentido” sobre os salvos e perdidos baterem papo depois da morte ou terem corpos físicos no Hades, mas não pudesse “mentir” sobre existir vida consciente após a morte. Eles pegam da parábola apenas o que lhes convém, para acusar os mortalistas de fazerem exatamente aquilo que eles mesmos fazem.
 
Não à toa, a concepção tradicional de inferno nas teologias sistemáticas foge completamente daquele apresentado na parábola, onde Abraão e Lázaro parecem estar numa piscina conversando com o rico que queima do outro lado mas que está mais preocupado em refrescar a língua. A própria alegação de que para os mortalistas Jesus “mentiu” por ter contado essa parábola mostra o quanto os nossos oponentes são debilitados intelectualmente, a ponto de serem incapazes de perceber que só faz sentido falar em “mentira” em se tratando de histórias reais, não de histórias fictícias, como uma parábola.
 
Se contar uma história fictícia fosse “mentir”, então todos os escritores de ficção seriam grandes mentirosos. Para a sorte deles, algo só pode ser considerado uma mentira quando se pretende dizer uma verdade literal em um contexto literal. Por exemplo, se alguém estivesse sendo presunçoso e você lhe dissesse “tire o seu cavalinho da chuva”, ele não poderia com razão te acusar de ser mentiroso só porque ele não tem um filhote de cavalo ou porque não está chovendo. Isso porque é óbvio, neste contexto, que a declaração não tem a pretensão de ser entendida literalmente, da mesma forma que ninguém na época de Jesus interpretaria uma parábola literalmente.
 
Para entender a diferença entre uma coisa e outra, imagine que eu dissesse a você que vi ontem um alienígena saindo de um disco voador e abduzindo uma vaca numa fazenda, e tentasse te convencer de que isso aconteceu mesmo, apesar de nunca ter ocorrido. Neste caso, é evidente que eu estaria mentindo. Mas se eu contasse isso como uma piada ou como um conto folclórico, ninguém diria que eu “menti”, mesmo que não tenha havido abdução alguma.
 
É por isso que J. K. Rowling não “mentiu” ao escrever Harry Potter, porque ninguém realmente acredita que haja crianças praticando magia com varinhas mágicas, nem Tolkien mentiu quando escreveu O Senhor dos Anéis, porque ninguém supõe ser verdade que existem hobbits, orcs e elfos habitando numa “Terra Média”, e tampouco C. S. Lewis mentiu quando escreveu Nárnia, porque ele nunca pretendeu que alguém tomasse como verdade que um armário literalmente conduz a um mundo de sátiros e gnomos. Eles seriam mentirosos se vendessem as suas histórias como “baseada em fatos reais”, não como ficção.
 
O que é preciso entender é que um conto de ficção tem algo que chamamos de “licença poética”, que é a liberdade de poder falar coisas que não são verdades, justamente porque se sabe que não serão encaradas como verdadeiras por parte do receptor. É por isso que um personagem pode ser assassinado num filme ou numa obra literária, mas se alguém fizer isso na vida real será preso. Por isso é tão diferente quando Alec Baldwin “mata” alguém num filme e quando mata no set de filmagem. Em outras palavras, a ficção é um mundo à parte onde há liberdade suficiente para se expressar de um modo que não seria correto fora dele.
 
Seguindo essa linha, Jesus não “mentiu” ao usar um cenário alegórico na parábola de Lc 16:19-31, da mesma forma que ninguém mentiu em Jz 9:6-15 ou em 2Rs 14:9 (nos textos que personificam árvores falantes), nem Tiago mentiu quando falou da “ferrugem que testemunha” (Tg 5:3) ou do “salário que clama” (Tg 5:4), nem Moisés mentiu quando falou do sangue de Abel que clama da terra em Gn 4:10, nem João mentiu quando disse que “os trovões falaram” (Ap 10:3). O mesmo podemos dizer a respeito dos “campos exultantes” (1Cr 16:32), das “árvores jubilantes” (1Cr 16:33), das “colinas que irromperão em canto” (Is 55:12), das aves e peixes falantes (Jó 12:7-8) e das montanhas que “regozijam” (Sl 98:8).
 
Isaías também não é um mentiroso por ter dito “pranteiem, vocês, navios de Társis” (Is 23:14), embora o navio não tenha sentimentos nem fala, e tampouco Jeremias mentiu por ter dito que Deus “fez com que os muros e as paredes se lamentassem; juntos eles se desmoronaram” (Lm 2:8), apesar das paredes e muros permanecerem tão caladas quanto sempre estiveram.

Como vemos, personificar coisas inanimadas é uma prática recorrente na Bíblia, ainda mais em um contexto parabólico como esse. Assim como árvores falantes em parábolas não prova que árvores realmente falam ou que alguém mentiu ao dizer que falam, mortos falantes em outra parábola também não prova que os mortos realmente falam ou que alguém mentiu ao retratá-los falando. Não devemos condicionar a doutrina bíblica às parábolas, mas, ao contrário, condicionar a interpretação da parábola àquilo que a Bíblia como um todo ensina sobre o tema em questão. Nenhuma parábola que Jesus contou era uma história real, e nem por isso ele era um mentiroso ou induzia as multidões ao erro, porque elas sabiam que era uma parábola e sabiam que parábolas não deviam ser entendidas ao pé da letra.
 
Se um imortalista do século XXI não sabe, a culpa não é de Jesus, mas dele, por sua própria ignorância e obstinação. Nenhum dos ouvintes originais de Jesus seria induzido a pensar que a alma sobrevive após a morte, da mesma forma que ninguém seria induzido a tomar a mesma atitude que o administrador desonesto da parábola que Jesus contou imediatamente antes, no início do capítulo. Nesta parábola, o mordomo infiel desonestamente reduz pela metade os débitos de seus credores a fim de obter deles algum ganho pessoal (Lc 16:1-9), mas ninguém acusa Jesus de incentivar a desonestidade nos negócios.
 
É curioso observar que os mesmos imortalistas que usam os meios da parábola de Lc 16:19-31 para validar a imortalidade da alma não façam a mesma coisa com os meios da parábola anterior para validar a administração desonesta, apesar da parábola dizer que “o senhor elogiou o administrador desonesto, porque agiu astutamente” (Lc 16:8). Dizem que “o que aconteceu em Vegas, fica em Vegas”, e, da mesma forma, o que acontece numa parábola, fica na parábola. É inapropriado e imprudente tirar conclusões teológicas em cima dos meios de uma parábola, a qual, por definição, é uma história fictícia, expressa por meio de alegorias. O que devemos extrair delas é sua lição moral, que geralmente se encontra nas entrelinhas.
 
Isso responde a uma objeção imortalista das mais típicas, a de que a parábola tinha que ter um cenário real, já que as parábolas de Jesus costumavam ilustrar verdades do dia a dia. O problema é que, como veremos mais adiante, a parábola do rico e Lázaro não era uma parábola “de Jesus” no sentido de ter sido originalmente contada por ele, como parece ser o caso das parábolas do bom samaritano e do filho pródigo, por exemplo. Ao contrário, os próprios estudiosos imortalistas concordam que a parábola do rico e Lázaro nada mais é que uma adaptação de um conto popular bem conhecido por todos na época, e contos não precisam ter um “fundo de verdade”.
 
Assim como ninguém acredita que lobos maus destroem casas com um sopro, ninguém deveria pensar que os mortos conversam no além – ainda mais com dedos, língua e sede, como na parábola do rico e Lázaro. Se Jesus “mentiu” por ter citado uma parábola onde os mortos estão “vivos”, teria “mentido” também por ter dito que os mortos estão com os corpos físicos no outro mundo, uma concepção que nenhum imortalista admite. É nisso que dá quando se exige um “fundo real” para aquilo que não foi concebido para ser encarado como real: a própria premissa deles é o que realmente faz de Jesus um mentiroso!
 
Ademais, ao contrário das outras parábolas de Jesus, a do rico e Lázaro não retrata “verdades do dia a dia”, porque conversar com alguém no inferno não é parte do “dia a dia” de pessoa nenhuma. Estamos obviamente lidando aqui com um caso sui generis, isto é, com uma parábola que não tem precedentes, já que é de um tipo completamente distinto das demais parábolas encontradas nos evangelhos.
 
O propósito de uma parábola – Quem diz que Jesus era imortalista porque contou uma parábola cujo cenário inclui a vida após a morte não entende nem o que é uma parábola, e muito menos o propósito de Jesus ao usá-las. Isso porque, como vimos, a Bíblia é perfeitamente clara em dizer que Jesus não contava as parábolas para deixar as coisas mais claras, mas justamente para mantê-las escondidas do entendimento da multidão de coração endurecido (Mt 13:10-14).
 
Isso significa que as parábolas que Jesus contava não podiam ser entendidas pelo senso comum, como os imortalistas fazem ao dizer que a parábola do rico e Lázaro ensina a imortalidade da alma. Se este fosse o propósito da parábola, isso seria tão óbvio que de modo algum se enquadraria no que Jesus diz sobre a multidão ser incapaz de entender as parábolas, porque não foi dado a ela o conhecimento dos mistérios do Reino dos céus (Mt 13:11). Em outras palavras, só é possível entender as parábolas de Jesus espiritualmente, e por essa razão o povo, que só via as coisas na superfície, era incapaz de compreendê-las.
 
Para entender o que Jesus queria dizer era preciso mais do que uma análise superficial, que é exatamente o erro que os imortalistas incorrem, os quais são tão espiritualmente cegos quanto a multidão. Um “mistério” é por definição algo que está escondido, oculto, mantido em segredo, não algo que esteja escancarado diante de todos, mediante uma leitura superficial. Isso significa que para entender o que Jesus queria dizer com a parábola do rico e Lázaro nós devemos ir além da superfície, buscando captar a intenção por detrás dela – isto é, seu significado espiritual e oculto, que se esconde no “mais profundo” que geralmente passa imperceptível numa leitura superficial.
 
É por isso que, em se tratando de parábolas, o princípio elementar conhecido por todo exegeta que se preze é retirar delas sua lição moral, e não os meios utilizados para se chegar a ela. Da mesma forma que o conto do pastor Valdeci não tinha qualquer objetivo de ser uma lição sobre o que acontece após a morte, mas apenas se apropria de um conceito popular para extrair uma lição moral, assim também ocorria com as parábolas de Jesus, muitas das quais deixariam os cristãos em apuros se fossem interpretadas literalmente pelos seus meios.
 
Já citamos o exemplo da parábola anterior à do rico e Lázaro, em que o administrador desonesto é elogiado por ter agido astutamente, mesmo ele tendo roubado o seu patrão. Usando o mesmo recurso hermenêutico que os imortalistas recorrem para corroborar a imortalidade da alma na parábola do rico e Lázaro, qualquer um poderia concluir que aqui Jesus estava encorajando os negócios desonestos, assim como estaria incitando as pessoas a crerem na sobrevivência da alma ao contar a parábola seguinte. Nós sabemos que isso não é verdade porque a lição moral da parábola frequentemente não tem qualquer relação com seus meios, que nada mais são que um instrumento utilizado para se chegar à lição, e não a lição em si.
 
No caso da parábola do administrador desonesto, a lição era que “quem é fiel no pouco, também é fiel no muito, e quem é desonesto no pouco, também é desonesto no muito” (Lc 16:10) – nada a ver com roubar o patrão – e, como veremos, a lição da parábola do rico e Lázaro era que “se não ouvem a Moisés e aos Profetas, tampouco se deixarão convencer, ainda que ressuscite alguém dentre os mortos” (Lc 16:31) – nada a ver com a imortalidade da alma.
 
Em outra parábola, “um juiz que não temia a Deus nem se importava com os homens” (Lc 18:2) decide atender o pedido de uma viúva de tanto que ela insistiu: “Embora eu não tema a Deus e nem me importe com os homens, esta viúva está me aborrecendo; vou fazer-lhe justiça para que ela não venha me importunar” (vs. 4-5). Jesus contou essa parábola “para mostrar-lhes que eles deviam orar sempre e nunca desanimar” (v. 1). Sendo Deus aquele que atende as orações, qualquer um seria tentado a interpretar as palavras de Jesus no sentido de que Deus é um juiz ímpio que se irrita com as nossas orações e só as responde para deixar de ser importunado, que é o que se depreenderia de uma aplicação literal da parábola. Mas a lição moral é apenas que “Deus lhes fará justiça, e depressa” (v. 8), aos “que clamam a ele dia e noite” (v. 7).
 
Tome também como exemplo uma parábola semelhante a essa, em que Jesus diz:
 
“Suponham que um de vocês tenha um amigo e que recorra a ele à meia-noite e diga: ‘Amigo, empreste-me três pães, porque um amigo meu chegou de viagem, e não tenho nada para lhe oferecer’. E o que estiver dentro responda: ‘Não me incomode. A porta já está fechada, e meus filhos estão deitados comigo. Não posso me levantar e lhe dar o que me pede’. Eu lhes digo: embora ele não se levante para dar-lhe o pão por ser seu amigo, por causa da importunação se levantará e lhe dará tudo o que precisar. Por isso lhes digo: Peçam, e lhes será dado; busquem, e encontrarão; batam, e a porta lhes será aberta” (Lucas 11:5-9)

Mais uma vez, uma aplicação literal da parábola nos levaria a pensar que Deus não nos dá as coisas por ser nosso amigo, como Jesus disse que somos (Jo 15:15), mas porque é importunado e quer se livrar desse incômodo o quanto antes. No entanto, este é apenas um cenário fictício que em nada representa a realidade do mundo espiritual, onde Deus “dá a todos liberalmente, de boa vontade” (Tg 1:5). A lição da parábola não tinha nada a ver com Deus se irritar com os nossos pedidos, mas apenas que devemos orar com perseverança.
 
O mesmo acontece na parábola dos talentos, onde aquele que distribui os talentos é descrito como “um homem duro, que colhe onde não plantou e junta onde não semeou” (Mt 25:24). Qualquer um que fizesse uma aplicação literal da parábola seria levado a pensar que Deus é como aquele homem de duro coração que age desonestamente, já que é Ele quem distribui os talentos. No entanto, essa aplicação é falsa pelo simples fato de que os meios de uma parábola nunca podem ser usados para fundamentar doutrina. Embora seja um dos princípios mais básicos da hermenêutica, os imortalistas o ignoram pela necessidade de recorrer a uma parábola para sustentar uma doutrina que dela depende inteiramente.
 
Em outra parábola, “o senhor disse ao servo: ‘Vá pelos caminhos e valados e obrigue-os a entrar, para que a minha casa fique cheia’” (Lc 14:23). Sabemos que essa parábola fala a respeito de salvação, pois Jesus a contou para dizer quem estaria no banquete do Reino de Deus (v. 15). No entanto, poucos pensam que Deus literalmente obriga as pessoas a serem salvas, como se elas não tivessem como escolher rejeitá-lo. Se essa parábola fosse entendida literalmente, a salvação não seria um convite, mas uma exigência feita na base da força, de maneira coercitiva.
 
Grande parte do problema deve-se ao fato de que as parábolas caíram em desuso, e por isso tanta gente tende a interpretá-las literalmente e extrair doutrina de seus meios, criando confusões como essas. E os teólogos, que em tese teriam a obrigação de esclarecer isso aos leigos, preferem endossar o engano, porque tiram proveito dele para defender a imortalidade da alma. É o tipo de engano conveniente, que serve aos propósitos de alguém desesperado em encontrar base bíblica a uma doutrina que sabe que é tão desprovida de fundamento que o jeito é apelar para uma parábola.
 
Os significados da parábola – Ao chegar até aqui, você deve ter aprendido que: (1) Lc 16:19-31 é de fato uma parábola como todas as outras em torno dela, e não uma história real; (2) se a parábola do rico e Lázaro devesse ser entendida literalmente, como uma aula de teologia sobre o que acontece após a morte, ela contradiria não só os mortalistas, mas os próprios imortalistas, já que nenhum deles acredita que os espíritos vão para o Hades com um corpo físico tal como o rico e Lázaro, e tampouco o lugar onde estavam se parece com a noção tradicional de céu e inferno; (3) parábolas são essencialmente alegorias, não descrições literais, das quais devemos captar a lição moral que o autor pretende ensinar, em vez de nos prendermos aos meios usados para ensinar a lição.
 
Tendo isso em mente, o que ainda nos resta é saber que lição é essa que Jesus quis ensinar com a parábola do rico e Lázaro. Parte da dificuldade está no fato de que muitas pregações são feitas sobre as outras parábolas, explicando seu significado contextual aos leigos, mas nunca vemos o mesmo sendo feito com a do rico e Lázaro, porque os imortalistas só conseguem enxergar a imortalidade da alma ali. Mas entender o significado dessa parábola não é nada complicado quando captamos o sentido das outras parábolas naquele contexto, especialmente a do capítulo anterior, que conhecemos como “a parábola do filho pródigo”.
 
Na verdade, basta um olhar mais cuidadoso para perceber que o foco daquela parábola não estava exatamente no filho pródigo (embora seja o foco de quase todas as pregações contemporâneas), mas justamente no outro filho, que por inveja não aceitava o fato do pai ter acolhido o seu irmão. Para entendermos isso, precisamos primeiro ver o contexto que levou Jesus a contar essa parábola e outras do tipo:
 
“Todos os publicanos e ‘pecadores’ estavam se reunindo para ouvi-lo. Mas os fariseus e os mestres da lei o criticavam: ‘Este homem recebe pecadores e come com eles’. Então Jesus lhes contou esta parábola: Qual de vocês que, possuindo cem ovelhas, e perdendo uma, não deixa as noventa e nove no campo e vai atrás da ovelha perdida, até encontrá-la? E quando a encontra, coloca-a alegremente sobre os ombros e vai para casa. Ao chegar, reúne seus amigos e vizinhos e diz: ‘Alegrem-se comigo, pois encontrei minha ovelha perdida’. Eu lhes digo que, da mesma forma, haverá mais alegria no céu por um pecador que se arrepende do que por noventa e nove justos que não precisam arrepender-se” (Lucas 15:1-7)
 
Os fariseus estavam se incomodando com o fato de publicanos e “pecadores” estarem se reunindo para ouvir Jesus, pois se julgavam melhores que eles e achavam inaceitável que um verdadeiro mestre atraísse a atenção do “populacho” cheio de pecados. Então Jesus começa a contar uma série de parábolas com o mesmo propósito, a começar pela parábola da ovelha perdida, passando pela da moeda perdida e pela do filho pródigo. Ele costumava contar várias parábolas com um mesmo significado básico, como um meio didático de fixar o conceito na cabeça dos seus ouvintes.
 
Por exemplo, a parábola de Mt 25:14-30 tem exatamente o mesmo significado da de Lc 19:12-27, embora os elementos sejam diferentes (em uma, o patrão encarrega os servos a cuidar de uma certa quantidade de talentos; na outra, um rei encarrega seus súditos a cuidar de dez minas). Em Lucas 15, a parábola da ovelha perdida é bastante similar à da moeda perdida e tem o mesmo significado desta, que depois é reforçado pelas parábolas do filho pródigo e do rico e Lázaro. Todas elas tinham o mesmo significado básico, de que Deus dá mais valor ao pecador que se arrepende do que àqueles que julgam a si mesmos justos que não tem necessidade de arrependimento.
 
O irmão do filho pródigo representa precisamente a mentalidade dos fariseus, que não aceitavam que os “pecadores” (representados pelo filho pródigo) tivessem se voltado a Jesus (representado pelo pai amoroso, que o recebeu de braços abertos). Assim como o outro filho da parábola se revoltou com o pai por aceitar de volta o filho pródigo, os fariseus se incomodavam com a presença das multidões seguindo Jesus, e o acusavam de “comer e beber com publicanos e pecadores” (Mt 9:11).
 
Todo o ponto girava em torno não da multidão de pecadores, mas da soberba dos fariseus, que se achavam superiores aos demais e julgavam não precisar de arrependimento, o que levou Jesus a dizer que “eu não vim chamar justos, mas pecadores ao arrependimento” (Mt 9:13). Se achar justo e não precisar de arrependimento é exatamente a postura do irmão do filho pródigo. Todas as três parábolas de Lucas 15 têm este mesmo sentido básico, e não é diferente na parábola de Lc 16:19-31. Curiosamente, poucos versos antes de contar a parábola do rico e Lázaro, Jesus estava discutindo justamente com os fariseus:
 
“Nenhum servo pode servir a dois senhores; pois odiará a um e amará ao outro, ou se dedicará a um e desprezará ao outro. Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro. Os fariseus, que amavam o dinheiro, ouviam tudo isso e zombavam de Jesus. Ele lhes disse: ‘Vocês são os que se justificam a si mesmos aos olhos dos homens, mas Deus conhece os corações de vocês. Aquilo que tem muito valor entre os homens é detestável aos olhos de Deus’” (Lucas 16:13-15)
 
Note que a discussão entre Jesus e os fariseus tinha tudo a ver com a do capítulo anterior, envolvendo a autojustificação dos mesmos. Por fora, os fariseus “parecem justos ao povo, mas por dentro estão cheios de hipocrisia e maldade” (Mt 23:28). Mas além dessa discussão principal, há aqui um detalhe adicional que não consta no capítulo 15, que são as riquezas. Os fariseus amavam o dinheiro, e por isso Jesus contou uma nova parábola com os mesmos significados básicos das três do capítulo anterior, mas incluindo a questão do dinheiro, para reforçar que “a vida de um homem não consiste na abundância de bens” (Lc 12:15).
 
Por isso não é surpresa que o homem que represente os fariseus aqui, que é o equivalente ao irmão do filho pródigo na outra parábola, seja descrito como “um homem rico que se vestia de púrpura e de linho fino e vivia no luxo todos os dias” (Lc 16:19). Tudo é perfeitamente compreensível quando simplesmente observamos todo o contexto. Se os fariseus são representados por um homem rico de linhos finos, como é representada a multidão de “publicanos e pecadores” que na outra parábola é representada pelo filho pródigo? Aqui, ela é representada por “um mendigo chamado Lázaro, coberto de chagas; este ansiava comer o que caía da mesa do rico” (vs. 20-21).
 
Isso também faz todo o sentido, já que a multidão que costumava seguir Jesus era tão miserável que ele dizia que “se eu os mandar para casa com fome, vão desfalecer no caminho” (Mc 8:3), razão por que ele lhes multiplicou os pães e os peixes em pelo menos duas ocasiões diferentes (Mt 14:13-21, 15:32-39). Não é à toa que o nome “Lázaro” significa «alguém ajudado por Deus», como sublinha Ronald Sider[7]. Note também como o rico da parábola se refere a Abraão: “Pai Abraão, tem misericórdia de mim...” (Lc 16:24). Quem mais chamava Abraão de pai?
 
“Quando viu que muitos fariseus e saduceus vinham para onde ele estava batizando, disse-lhes: Raça de víboras! Quem lhes deu a ideia de fugir da ira que se aproxima? Deem fruto que mostre o arrependimento! Não pensem que vocês podem dizer a si mesmos: ‘Abraão é nosso pai’. Pois eu lhes digo que destas pedras Deus pode fazer surgir filhos a Abraão” (Mateus 3:7-9)
 
E ainda:
 
“Eu lhes estou dizendo o que vi na presença do Pai, e vocês fazem o que ouviram do pai de vocês. ‘Abraão é o nosso pai’, responderam eles. Disse Jesus: ‘Se vocês fossem filhos de Abraão, fariam as obras que Abraão fez. Mas vocês estão procurando matar-me, sendo que eu lhes falei a verdade que ouvi de Deus; Abraão não agiu assim’” (João 8:38-40)
 
Eles se apegavam tanto a Abraão que Paulo precisou enfatizar em duas cartas diferentes que “nem por serem descendentes de Abraão passaram todos a ser filhos de Abraão” (Rm 9:7), e que “os que são da fé, estes é que são filhos de Abraão” (Gl 3:7). Em outras palavras, ao colocar Abraão contra o rico que representava os fariseus na parábola, Jesus estava fazendo o mesmo que um protestante faria ao colocar Pedro (que os papistas dizem ter sido o primeiro papa e se orgulham de serem seus “sucessores”) contra um papa numa parábola, para enfatizar o contraste entre Pedro e os papas. Jesus fez isso com Abraão e o rico, separando ambos por um grande abismo.
 
Os fariseus se orgulhavam de terem Abraão por pai, mas não agiam em conformidade com o que Abraão fazia. É por isso que na parábola Jesus coloca Abraão ao lado do mendigo Lázaro, e o deixa separado do rico por um grande abismo (v. 26). Tudo isso é muito simbólico, representando ao mesmo tempo o quanto os fariseus passavam longe daquele em quem ostentavam ter por “pai”, e como quem realmente seguia os passos de Abraão eram os pecadores arrependidos que eles tanto desprezavam, que na parábola são colocados ao lado de Abraão na figura de Lázaro.
 
É isso o que significa “Lázaro no seu seio” (v. 23), que os imortalistas bisonhamente interpretam como sendo um lugar intitulado “O Seio de Abraão”, quando na verdade nada mais era que uma expressão semítica usada para designar alguém que está junto de outra pessoa (razão por que a NVI traduz por «ao seu lado», mantendo o princípio da equivalência de sentido). Por exemplo, quando João diz que “ninguém jamais viu a Deus; o Deus unigênito, que está no seio do Pai, é quem o revelou” (Jo 1:18), a expressão «o seio do Pai» não diz respeito a um lugar com este nome, mas é apenas uma forma de dizer que Jesus está ao lado do Pai, assentado à destra do Todo-Poderoso.
 
É importante fazer essa ressalva, porque muitos imortalistas ignorantes – com o perdão do pleonasmo – não somente transformaram o seio de Abraão da parábola em um “compartimento” com este nome, como ainda incluíram essa aberração em seus livros cheios de ilustrações bizarras sobre o estado dos mortos, como na pérola abaixo:
 
 
O próprio fato do mendigo se chamar Lázaro é bastante simbólico, não só porque seu nome significa “aquele que Deus socorre”, mas porque Lázaro também era o nome do homem a quem Jesus havia ressuscitado e suscitado a inveja dos fariseus. Nesta ocasião, “os chefes dos sacerdotes fizeram planos para matar também Lázaro, pois por causa dele muitos estavam se afastando dos judeus e crendo em Jesus” (Jo 12:10-11). Os fariseus não acreditaram em Jesus mesmo após testemunharem uma ressurreição sobrenatural como a de Lázaro, por isso não admira que ele tenha dado o nome Lázaro ao mendigo da parábola, a quem o rico desprezou, e cujos irmãos também não acreditariam se retornasse dos mortos:
 
“Ele respondeu: ‘Então eu lhe suplico, pai: manda Lázaro ir à casa de meu pai, pois tenho cinco irmãos. Deixa que ele os avise, a fim de que eles não venham também para este lugar de tormento’. Abraão respondeu: ‘Eles têm Moisés e os Profetas; que os ouçam’. ‘Não, pai Abraão’, disse ele, ‘mas se alguém dentre os mortos fosse até eles, eles se arrependeriam’. Abraão respondeu: ‘Se não ouvem a Moisés e aos Profetas, tampouco se deixarão convencer, ainda que ressuscite alguém dentre os mortos’” (Lucas 16:27-31)
 
Como vimos, tudo isso está envolvo em uma simbologia muito forte. Os fariseus se orgulhavam de terem Abraão por pai, mas na parábola Abraão repreende o rico, que representa os fariseus, e ambos estão separados por um abismo. Os fariseus desprezavam os “publicanos e pecadores” que acompanhavam Jesus, assim como o rico da parábola desprezava o mendigo. Jesus havia ressuscitado um homem chamado Lázaro, mas os fariseus, ao invés de crerem em Jesus por causa disso, “fizeram planos para matar também Lázaro, pois por causa dele muitos estavam se afastando dos judeus e crendo em Jesus” (Jo 12:10-11), e na parábola é dito que eles não acreditariam mesmo se o mendigo Lázaro ressuscitasse dos mortos. A ligação é mais do que evidente.
 
Note ainda que o rico diz que tinha cinco irmãos (v. 28). Jesus poderia apenas ter dito que ele tinha irmãos, mas é bem específico em dizer que tinha cinco. Se, como vimos, o rico representava os fariseus, que eram a principal facção dos judeus, quais seriam esses seus “irmãos”? A conclusão mais lógica é que se trata de uma alusão às outras facções do Judaísmo da época. Curiosamente, além dos fariseus, há cinco facções bem conhecidas biblicamente e/ou historicamente: (1) a dos saduceus (Lc 20:27); (2) a dos zelotes (Lc 6:15); (3) a dos herodianos (Mc 12:13); (4) a dos samaritanos (Jo 4:9) e (5) a dos essênios. Estes últimos são os únicos que não aparecem no NT, uma vez que viviam isolados do resto da sociedade, mas eram bem conhecidos e sua existência é historicamente consolidada.
 
O ponto em comum de todos esses cinco partidos dos judeus da época (ou seis, se contar os próprios fariseus) é que nenhum deles reconheceu Jesus como o salvador ou esteve ao lado dele quando a multidão gritava “crucifica-o” (Jo 19:6). Haviam elementos de cada um deles (ou da maior parte deles) que aceitou Jesus, como o fariseu Nicodemos (Jo 7:50-52, 19:39-40) ou os samaritanos que acreditaram em Jesus após ouvir o testemunho da mulher samaritana do poço (Jo 4:24-42), mas como grupo, nenhum reconheceu Jesus como o Messias ou esteve com ele até o fim. Isso significa que Jesus foi rejeitado por todas as facções judaicas de sua época, as quais permaneceram majoritariamente descrentes depois da ascensão de Jesus, o que está de acordo com a visão apresentada na parábola, de que o rico (fariseu) tinha cinco irmãos que também não se convenceriam mesmo se alguém ressuscitasse dos mortos.
 
Essa é a mensagem principal da parábola, presente em seu desfecho: “Se não ouvem a Moisés e aos Profetas, tampouco se deixarão convencer, ainda que ressuscite alguém dentre os mortos” (v. 31). “Moisés e os Profetas” é uma forma de se referir à Escritura que eles conheciam (i.e, o AT). Por exemplo, quando Paulo chegou em Roma, ele “lhes testemunhou do Reino de Deus, procurando convencê-los a respeito de Jesus, com base na Lei de Moisés e nos Profetas” (At 28:23). A lei (de Moisés) e os profetas testemunhavam que Jesus era o Messias prometido, o salvador tão aguardado, mas se eles não acreditavam no testemunho bíblico, tampouco acreditariam se um morto ressuscitasse.
 
Em outras palavras, a dureza de coração dos fariseus havia chegado ao ponto em que nem mesmo um milagre extraordinário como o da ressurreição de Lázaro seria o suficiente para convencê-los, já que eles rejeitavam o próprio testemunho bíblico do qual se diziam mestres, que apontava a Jesus como o Messias. Como Joachim Jeremias corretamente observa, assim como na “parábola do filho pródigo” a ênfase não recaía no filho pródigo, mas no outro filho (que também tipifica os fariseus), também aqui a ênfase não recai em Lázaro, mas no rico e seus irmãos:  
 
A parábola é uma das quatro parábolas de “dois gumes”. O primeiro ponto diz respeito à inversão da sorte no pós-vida (vs. 19-26), o segundo (vs. 27-31) trata do pedido do rico a Abraão para que envie Lázaro aos seus cinco irmãos. Como a primeira parte é extraída de material folclórico bem conhecido, a ênfase está no novo “epílogo” que Jesus acrescentou à primeira parte. Como todas as outras parábolas de “dois gumes”, esta também enfatiza o segundo ponto. Isso significa que Jesus não quer comentar sobre um problema social, nem tem a intenção de dar um ensinamento sobre a vida após a morte, mas ele conta a parábola para alertar do perigo iminente os homens que se assemelham aos irmãos do rico. Portanto, o mendigo Lázaro é só uma figura secundária, introduzida a título de contraste. A parábola é sobre os cinco irmãos, e não deveria ser chamada de parábola do rico e Lázaro, e sim de parábola dos seis irmãos.[8]
 
Até mesmo os nomes citados na parábola, que os imortalistas bisonhamente usam como a “prova” de que não era uma parábola, fazem um perfeito sentido quando captamos o propósito da parábola. Vale ressaltar que não existe um único dicionário no mundo que imponha como regra que uma parábola não possa ter nomes próprios. Essa é uma “regra” inventada por imortalistas desesperados, tirada da própria cabeça deles. O fato dessa parábola ter nomes não significa que ela não seja parábola, só significa que é a única parábola de Jesus que tem nomes (da mesma forma que a parábola do bom samaritano é a única que cita a nacionalidade dos personagens, mas nem por isso deixa de ser parábola). Se um conto se torna necessariamente real por ter nomes, até A Branca de Neve e os Sete Anões tem que ser uma história real, já que os anões têm nome.
 
Se você só percebeu agora esses detalhes, não se preocupe: é normal os pregadores imortalistas usarem a parábola do rico e Lázaro apenas para “provar” a imortalidade da alma, ignorando o seu verdadeiro sentido contextual. Eles não apenas mantêm os leigos na ignorância, como são eles mesmos ignorantes do significado da parábola, já que tudo o que conseguem ver ali é Jesus ensinando a imortalidade da alma, o que estava longe de ser o propósito. Isso explica por que essa parábola é tão pouco estudada, uma vez que não há a menor preocupação em realmente estudar a parábola, mas somente em usá-la como uma arma em favor de uma doutrina antibíblica.
 
Como comenta Aguiar, “apesar das discussões que envolvem esse relato, curiosamente percebe-se que há um esquecimento dessa parábola dentro da erudição, uma vez que ela não tem recebido tanta atenção dos estudiosos quanto outras parábolas de Jesus”[9]. Em seu livro Parables of Jesus: a history of interpretation and bibliography, Kissinger lista 123 estudos da parábola do bom samaritano e 254 estudos da parábola do filho pródigo, mas apenas 67 da parábola do rico e Lázaro[10]. Isso acontece porque a maioria dos estudiosos prefere assumir que Jesus estava apenas contando uma historinha sobre como é a vida após a morte – mesmo que isso caísse de paraquedas no texto – em vez de estudar o contexto e descobrir o que realmente estava em disputa, para compreender seu verdadeiro propósito.
 
Faz muito mais sentido entender que Jesus estava complementando as parábolas anteriores, no contexto da disputa com os fariseus que arrogantemente desprezavam os seguidores de Jesus e que pensavam não precisar de arrependimento, do que supor que ele iria parar tudo para contar uma simples historinha sobre a vida após a morte, que teria caído de paraquedas no texto sem qualquer justificativa ou lógica. Se este fosse o propósito, faria muito mais sentido Jesus contar essa história em sua disputa com os saduceus (Mc 12:18-37) do que aqui, onde nada no contexto alude à vida após a morte (mas os imortalistas acham que era o que Jesus queria provar, “porque sim”). É esse o cúmulo do amadorismo que os imortalistas se metem na ânsia em dar base a uma doutrina flagrantemente antibíblica, que precisa se agarrar aos meios de uma parábola para se sustentar.
 
Parábolas são o suficiente para fundamentar doutrina? – Logicamente, nem todos os imortalistas são ingênuos ou desonestos o suficiente para apelar a uma parábola a fim de corroborar suas crenças. John W. Cooper, professor de teologia filosófica pelo Calvin Theological Seminary e autor de um livro em que defende a imortalidade da alma, pergunta a respeito dela: “O que esta passagem nos diz a respeito do estado intermediário?”[11]. E responde com sinceridade: “A resposta pode ser: ‘Nada’”[12]. Ele então cita como exemplo algumas das incoerências que listamos aqui, que os apologistas imortalistas de internet fazem vista grossa: Seremos nós seres corpóreos no estado intermediário? Serão os bem-aventurados e os condenados capazes de se verem uns aos outros?”[13].
 
Por fim, Cooper conclui que a parábola
 
não nos diz necessariamente no que Jesus ou Lucas criam a respeito da vida no além, nem propicia uma base firme para uma doutrina do estado intermediário. Pois é possível que Jesus simplesmente estivesse empregando imagens populares a fim de ressaltar sua posição ética. Ele podia não estar endossando tais imagens, e não estar crendo nelas porque sabia serem falsas.[14]
 
Para ele, “Jesus apenas emprega o imaginário popular para ressaltar a ética do reino vindouro. Assim, ciente de que este imaginário não passava de fábulas judaicas, ele não poderia endossar este conceito”[15]. Snodgrass, também ele um imortalista, concorda com Cooper quando diz que a parábola “não tem o objetivo de apresentar um esquema, ou mesmo detalhes precisos acerca do que ocorre depois da morte”[16].
 
Ambos estão cientes do antigo princípio hermenêutico theologia parabolica non est demonstrativa – ou seja, que doutrina nenhuma pode ser fundamentada apenas por parábolas. Como reconhece Smith, “é impossível embasar a prova de uma importante doutrina teológica em uma passagem que abunda em metáforas judaicas”[17]. Quem está de acordo com isso é o famoso teólogo Grant R. Osborne, que cita especificamente a parábola do rico e Lázaro como um exemplo de parábola da qual não se pode fundamentar doutrina:
 
Não baseie doutrinas sobre as parábolas sem conferir detalhes comprobatórios em outro lugar. Isto está intimamente ligado ao ponto anterior, mas por causa do abuso generalizado das parábolas exatamente nesta área, eu o apresento aqui como um ponto separado. Por exemplo, a parábola do homem rico e Lázaro (Lc 16:19-31) é apresentada muitas vezes como prova de um Hades compartimentalizado. Porém, esse tipo de doutrina não se encontra no ensino de Jesus em Lucas, e, na verdade, em qualquer outro lugar nas Escrituras. Logo, a ambientação da parábola no Hades é uma nuance da parábola, não um dogma, e isso não deve ser enfatizado demais.[18]
 
O fundo folclórico da parábola – Uma razão adicional para não fundamentar doutrina com base nos meios dessa parábola é algo pouco conhecido dos leitores comuns, que mesmo eu desconhecia na época da antiga versão do livro: o fato de não se tratar de uma parábola original de Jesus, mas de uma adaptação de uma parábola famosa tanto no mundo grego como judaico daqueles tempos. Aguiar diz que uma versão dessa parábola corrente nos dias de Jesus pode ser encontrada no Talmude de Jerusalém, nos tratados Sanhedrin 6.6 (23c) e Hagigah 2.2 (77d)”[19], e é descrita por Richards da seguinte maneira:
 
Dois companheiros ímpios morreram. Um morreu penitente, o outro não. Quando o homem no Gehinom viu a bênção de seu amigo, e foi informado de que era por causa da penitência de seu amigo, ele suplicou que pudesse ter a oportunidade de se arrepender também. A resposta veio na explicação de que esta vida é a véspera do sábado.[20]
 
Joachim Jeremias destaca que as raízes dessa história remontam à fábula egípcia da viagem de Osíris e de seu pai ao reino dos mortos, que teria sido trazida à Palestina por judeus alexandrinos, onde foi reformulada como “a história do pobre escriba e do rico publicano Bar Ma’jan”:
 
Para entender a parábola em detalhes e como um todo, é essencial reconhecer que a primeira parte deriva de material folclórico bem conhecido que se refere à inversão da sorte na vida após a morte. Este é o conto popular egípcio da jornada de Si-Osíris, filho de Setme Chamois para o mundo inferior; que conclui com as palavras: “Aquele que foi bom na terra será abençoado no reino dos mortos; e aquele que foi mau na terra sofrerá no reino dos mortos”. Os judeus de Alexandria trouxeram essa estória para a Palestina, onde ela se tornou muito popular como a estória do escriba pobre e do coletor de impostos rico Bar Ma’jan. Que Jesus estava familiarizado com essa estória é provado pelo fato de que ele a usou na parábola do Grande Banquete. Já relatamos lá o começo da estória, como o funeral do escriba não foi acompanhado, enquanto o publicano foi sepultado com grande pompa. Aqui está o final da história. Um dos colegas do escriba pobre pôde ver em um sonho o destino dos dois homens no outro mundo: “Poucos dias depois, esse escriba viu seu colega em jardins de beleza paradisíaca, regados por correntes de água. Ele também viu Bar Ma’jan, o publicano, parado na margem de um riacho e tentando chegar à água, mas sem conseguir fazer isso”.[21]
 
O proeminente estudioso alemão Hugo Gressmann também publicou, em 1918, um estudo elaborado sobre as origens da parábola do rico e Lázaro, que remontariam a uma história egípcia descoberta em um papiro do século I. O que todas essas versões da parábola têm em comum é que ao rico é sempre concedida a permissão de voltar e contar aos seus irmãos os horrores da vida após a morte. No apócrifo judaico de Janes e Jambres, por exemplo, “a ‘sombra’ de Janes retorna do Hades para alertar Jambres sobre o fogo e sobre as trevas a fim de que ele passasse a fazer o bem”[22].
 
O Dr. Rodrigo Silva explica que havia pelo menos sete versões conhecidas dessa parábola contadas pelos judeus da época de Jesus, além de muitas outras do mundo pagão. Mas em todas elas o rico consegue o que queria no final: voltar ao mundo dos vivos para dar o recado que desejava[23]. Concorda com isso N. T. Wright, que escreve:
 
[A parábola] é muito parecida com um conto popular bem conhecido no mundo antigo; Jesus não era de modo algum o primeiro a dizer como a riqueza e a pobreza podem ser revertidas na vida futura. Na verdade, histórias como esta eram tão bem conhecidas que podemos ver como Jesus mudou o padrão que as pessoas esperavam. Na história de costume, quando alguém pede permissão para enviar uma mensagem de volta para as pessoas que ainda estavam vivas na terra, a permissão é concedida. Aqui não, é o fim da história que os leitores de Lucas foram instados a enfrentar.[24]
 
Mas por que Jesus teria mudado o final da estória? A razão está num conhecido recurso rabínico de mudança de história, uma tática que consistia em narrar um conto popular tal como ele era conhecido, mas alterando detalhes na história com o propósito de refutar tal crença, e não de endossá-la. Vemos isso frequentemente nas adaptações de cinema de clássicos como Cinderela, cujos remakes modernos contam com várias reviravoltas em relação à trama original.  
 
Quando vemos uma dessas adaptações, nosso primeiro pensamento não é que o filme é baseado em uma história real, porque sabemos que se baseia em um conto popular, um folclore. Este é o mesmo caso do público que ouviu Jesus, o qual conhecia muito bem a parábola e sabia que não se tratava de uma história real, mas de ficção. Jesus sabia que, ao narrar um conto popular como o do rico e Lázaro, seus ouvintes reagiriam da mesma forma que nós ao ouvirmos uma historinha como a dos Três Porquinhos ou da Bela Adormecida – ou seja, um conto popular que todo mundo sabe que se trata apenas de ficção. Somos nós que, por puro anacronismo, achamos que Jesus contava uma história real, ou que seus ouvintes assim entenderiam.
 
Como destaca Aguiar, “a parábola de Jesus, valendo-se do folclore judaico, forma um pano de fundo cultural para seu ensinamento principal na perícope”[25]. Em vez de tomarmos as adaptações como histórias reais (ou como histórias que retratam com exatidão o que ocorre nesta vida ou na próxima, como se realmente houvessem lobos derrubando casas de porquinhos com um sopro), nossa atenção é voltada para os aspectos da narrativa que são alterados, os quais nos levam a refletir qual era a intenção do autor. Por exemplo, uma princesa que não precisa ser salva por um príncipe loiro montado num cavalo branco é uma adaptação que visa inverter papeis tradicionais para “empoderar” a mulher, algo muito comum nos dias de hoje.
 
Ou então imagine uma versão da Branca de Neve onde, em vez de se casar com um príncipe rico e belo, ela se casasse com um homem comum e simples, para mostrar que beleza e dinheiro não são tudo. Se eu fizesse isso, ninguém acima do nível de ingenuidade infantil interpretaria que eu estou endossando a narrativa da Branca de Neve como uma história real. Todos entenderiam perfeitamente o ponto, que é a lição moral que eu desejaria passar com isso. Foi exatamente isso o que Jesus fez, ao citar uma parábola bem popular, mas com um final alterado para ensinar uma lição moral que seus ouvintes certamente não esperavam.
 
Além de mudar o final da história, Jesus também mudou alguns detalhes no meio da trama, relacionados ao mundo dos mortos. Nas outras versões da mesma história, o que ia para o Hades era um espírito incorpóreo, de acordo com a crença platônica tradicional. Na mitologia grega, como vimos, o Hades era o nome do deus do “mundo inferior”, que levava esse nome. Este mundo inferior era um lugar subterrâneo para onde iam as almas dos falecidos, guiadas por Hermes, o emissário dos deuses, e lá permaneceriam para sempre.
 
No fim da luta dos deuses olímpicos contra os Titãs (a Titanomaquia), os deuses olímpicos saíram vitoriosos. Então, Zeus, Posídon e Hades partilharam entre si o universo: Zeus ficou com os céus e as terras, Posídon ficou com os oceanos e Hades com o mundo dos mortos. Sua guarda cabia ao Cérbero, um cão gigante de três cabeças que era dócil com quem chegava, mas feroz com quem tentasse fugir. No Hades havia dois compartimentos principais: os Campos Elísios, onde ficavam os justos, e o Tártaro, onde ficavam os ímpios. Edward Fudge fez o seguinte resumo do Hades grego:
 
Na mitologia grega, o Hades era o deus do mundo subterrâneo, e daí o próprio nome do mundo do nada. Charon transportava as almas dos mortos ao longo dos rios Styx e Aqueron para as suas moradas, onde o cão de guarda Cérbero vigiava o portão de modo a que ninguém escapasse. O mito pagão continha todos os elementos da escatologia medieval: havia o agradável Elíseos, o sombrio e miserável Tártaro, e mesmo as Planícies de Asfodel, onde as almas que não se ajustavam a nenhum dos lugares acima podiam vaguear. Reinando junto ao deus estava sua rainha Proserpina (ou Perséfone), a quem ele havia violentado no mundo acima.[26]
 
Como é óbvio, Jesus não acreditava nesse tipo de Hades, embora frequentemente os escritores bíblicos usassem os mesmos termos do mundo grego dotando-os de outros significados, que fossem mais compatíveis com sua própria teologia. Vimos um exemplo disso na palavra theos, usada em todo o NT para designar o mesmo Deus do AT (representado pelo tetragrama YHWH), embora no mundo grego fosse usada para designar o panteão de deuses gregos. A prática de ressignificar termos pagãos também ocorre em relação a Lilith, que era adorada como uma deusa na Mesopotâmia e na Babilônia, mas que na Bíblia aparece com um significado bastante distinto, de “animais noturnos” (Is 34:14)[27].
 
Da mesma forma que theos e Lilith, o Hades cristão tinha um significado bem diferente do Hades grego, pois, como vimos, se identificava precisamente com o Sheol hebraico, um lugar sem vida ou existência consciente. Isso explica por que há tantos detalhes cômicos na descrição do Hades na parábola: o Hades da parábola não era um retrato do Sheol bíblico, mas uma sátira do Hades grego, já que a parábola se origina de contos gregos populares, que Jesus obviamente não acreditava serem reais. Por isso, enquanto nos contos gregos o Hades era o local para onde iam os espíritos fora do corpo, na parábola de Jesus ele faz questão de colocar no Hades personagens de carne e osso, com língua, dedos, que sentem sede e tudo mais (Lc 16:24).
 
O humor hebraico era bem mais sutil que o brasileiro, e se baseava principalmente no exagero. Como o nosso humor é diferente do deles, muitos pensam que não há humor na Bíblia, o que é um grande equívoco. Ele está ali, mesmo que nem todos percebam a uma primeira vista. Um exemplo dos mais conhecidos é a ocasião em que Elias zombou dos profetas de Baal, que gritavam e flagelavam o próprio corpo para que o deus deles os ouvisse e fizesse cair fogo do céu, no desafio que Elias lhes propôs:
 
“Ao meio-dia Elias começou a zombar deles. ‘Gritem mais alto!’, dizia, ‘já que ele é um deus. Quem sabe está meditando, ou ocupado, ou viajando. Talvez esteja dormindo e precise ser despertado’” (1ª Reis 18:27)
 
É evidente que Elias não acreditava que Baal realmente existisse e estivesse apenas dormindo ou viajando, mas disse aquilo justamente para satirizar a crença dos adoradores de Baal. Quando Jesus colocou o rico no Hades com língua e Lázaro com dedos, e disse que o rico (cujo corpo inteiro queimava no fogo) queria que Lázaro molhasse apenas a ponta do dedo para refrescar somente a sua língua, ele estava fazendo precisamente a mesma coisa que Elias: ridicularizando a crença pagã, que via no Hades um lugar de vida consciente após a morte. Ao invés de endossar o paganismo, ele estava justamente o parodiando, mediante a inclusão de elementos na parábola que tornavam a crença absurda, digna de risos.
 
O que é preciso entender é que os exageros e o nonsense da parábola não são ocasionais, mas foram propositalmente incluídos por Jesus para satirizar o Hades grego. Ao verem Jesus tratar o Hades pagão como uma piada, seus ouvintes de modo algum seriam induzidos a acreditar na realidade do mesmo. Em vez disso, saberiam que Jesus não endossava a crença, da mesma forma que Elias não endossava a crença em Baal ao ridicularizá-lo. Seria como se eu contasse a famosa história da Branca de Neve, mas retratasse os sete anões como sete gigantes musculosos. Isso provocaria risos na plateia, e certamente ninguém pensaria que eu acredito no conto.
 
Como acentua Gilmour,
 
Jesus usa uma história familiar, repleta da cosmovisão pagã acerca da vida após a morte, porém desmitificando seu conteúdo. Desse modo, ainda que isto não esteja em primeiro plano, a parábola veicula uma crítica sutil à ideia equivocada da vida após a morte.[28]
 
Em suma, a parábola do rico e Lázaro não é uma história real ou uma lição sobre o que acontece após a morte, mas uma alegoria sobre a incredulidade e a autojustificação dos fariseus, à semelhança da parábola do filho pródigo. Para tanto, Jesus usou como pano de fundo um famoso conto popular da época, onde um morto consegue voltar ao mundo dos vivos para alertar seus companheiros, mas muda o final da história, para enfatizar que já não há mais esperança para quem intencionalmente rejeita o testemunho das Escrituras (“Moisés e os profetas”).
 
Ele também mudou intencionalmente aspectos da parábola referentes ao lugar de habitação dos mortos para satirizar a crença pagã e mostrar a todos o quanto ela é ridícula. Em vez de um retrato fidedigno do Sheol/Hades bíblico, a parábola é uma paródia do Hades grego, porque é no Hades grego que se passava o conto popular ao qual Jesus aludiu, e que todos os seus ouvintes conheciam bem. Como os imortalistas ignoram todo o contexto da parábola, seu propósito original, seu público-alvo, seu fundo histórico e os textos que a cercam, criaram a estúpida ideia de que Jesus contou a parábola – que para alguns nem parábola é – como uma aula de teologia sobre o que acontece depois da morte, o que seria cômico, se não fosse trágico.
 
Na verdade, como já acentuamos, essa ignorância é proposital, pois nenhum leigo que se desse ao trabalho de pesquisar o verdadeiro propósito da parábola diante de todo o contexto bíblico, exegético e histórico iria se dar ao ridículo de concluir que Jesus estava endossando a crença numa alma imortal. Por essa razão, em vez de fazerem um estudo sério em torno de Lc 16:19-31, eles preferem induzir os leigos a pensarem que se trata apenas de uma historinha sobre a vida após a morte, já que assim podem usá-la como a “prova” da sobrevivência da alma.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (youtube.com/LucasBanzoli)

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[1] Disponível em: <https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/par%C3%A1bola>. Acesso em: 18/09/2020.

[2] Stromata, Livro IV, 6.

[3] 1096 da Concordância de Strong.

[4] BACCHIOCCHI, Samuele. Imortalidade ou Ressurreição? Uma abordagem bíblica sobre a natureza humana e o destino eterno. São Paulo: UNASPRESS, 2007, p. 165.

[5] BACCHIOCCHI, Samuele. Imortalidade ou Ressurreição? Uma abordagem bíblica sobre a natureza humana e o destino eterno. São Paulo: UNASPRESS, 2007, p. 165-166.

[6] BACCHIOCCHI, Samuele. Imortalidade ou Ressurreição? Uma abordagem bíblica sobre a natureza humana e o destino eterno. São Paulo: UNASPRESS, 2007, p. 154.

[7] SIDER, Ronald J. Cristãos Ricos em Tempos de Fome. São Leopoldo: Editora Sinodal, 1982, p. 78.

[8] JEREMIAS, Joachim. The Parables of Jesus. 2ª ed. New Jersey: SCM Press Ltd., 1972, p. 186.

[9] AGUIAR, Adenilton T. de; BARROS, Diego Rafael da S. “Estudo sobre a morte em Lucas 16:19-31”. Revista Kerygma. v. 9, n. 1, 2013, p. 132.

[10] HOCK, R. F. “Lazarus and Micyllus: greco-roman backgrounds to Luke 16:19-31”. Journal of Biblical Literature, v. 106, n. 3, 1987, p. 447.

[11] COOPER, John W. Soul and Life Everlasting: Biblical Anthropology and the Monism-Dualism Debate. Grand Rapids: Alban Books Limited, 1989, p. 139.

[12] ibid.

[13] ibid.

[14] ibid.

[15] BACCHIOCCHI, Samuele. Imortalidade ou Ressurreição? Uma abordagem bíblica sobre a natureza humana e o destino eterno. São Paulo: UNASPRESS, 2007, p. 141.

[16] SNODGRASS, K. Compreendendo Todas as Parábolas de Jesus: guia completo. Rio de Janeiro: CPAD, 2010, p. 607.

[17] SMITH, W. “Bosom of Abraham”. In: Dr’s William Smith’s dictionary of the Bible: compreing its antiquities, biographies and natural history. New York: Riverside Press, 1869. v. 2, p. 1038.

[18] OSBORNE, Grant R. A Espiral Hermenêutica: uma nova abordagem à interpretação bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2009, p. 392.

[19] AGUIAR, Adenilton T. de; BARROS, Diego Rafael da S. “Estudo sobre a morte em Lucas 16:19-31”. Revista Kerygma. v. 9, n. 1, 2013, p. 137.

[20] RICHARDS, L. O. Comentário Histórico-Cultural do Novo Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2007, p. 17.

[21] JEREMIAS, Joachim. The Parables of Jesus. 2ª ed. New Jersey: SCM Press Ltd., 1972, p. 183-184.

[22] SNODGRASS, K. Compreendendo Todas as Parábolas de Jesus: guia completo. Rio de Janeiro: CPAD, 2010, p. 592.

[23] Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=8dCiEqjG-1M>. Acesso em: 25/09/2020.

[24] WRIGHT, N. T. Os Evangelhos para Todos. São Paulo: Thomas Nelson, 2020, p. 466.

[25] AGUIAR, Adenilton T. de; BARROS, Diego Rafael da S. “Estudo sobre a morte em Lucas 16:19-31”. Revista Kerygma. v. 9, n. 1, 2013, p. 138.

[26] FUDGE, Edward William. The Fire That Consumes: A Biblical and Historical Study of the Final Punishment. Houston: Providential Press, 1982, p. 205.

[27] Eu falo mais sobre isso no vídeo: <https://www.youtube.com/watch?v=51LxEKnaqmQ>.

[28] GILMOUR, M. J. “Hints of homer in Luke 16:19-31?”. Didaskalia, v. 10, n. 2, 1999, p. 23.

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