26 de julho de 2021

0 Cipriano, a polêmica do rebatismo e o conflito com o papado


*Nota: O artigo abaixo é extraído de um dos capítulos de meu livro mais recente – “Os 100 Maiores Acontecimentos da História do Cristianismo” –, que você pode comprar ou baixar gratuitamente na página dos livros.
 
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Ao raiar do século III, no mesmo lugar onde Tertuliano fez sua carreira, nascia Cipriano de Cartago (200-258), tido por muitos como o mais eminente escritor latino até a época de Agostinho e Jerônimo. É importante não confundi-lo com um outro “São Cipriano”, um grande feiticeiro convertido ao Cristianismo por sua esposa cristã, que antes da conversão escreveu um famoso livro de bruxaria (este é geralmente chamado de Cipriano de Antioquia, embora por sua culpa o de Cartago tenha pego a fama de bruxo). Até hoje se você digitar apenas “Cipriano” num buscador como o Google aparece o bruxo, não o bispo de Cartago.

Cipriano é muito citado na apologética católica como um suposto defensor do papado (ou seja, a crença de que o bispo romano era o chefe de toda a Cristandade, embora tal coisa seja desacreditada pelos historiadores católicos mais sérios). Seu livro mais citado para este fim é o “Da Unidade da Igreja”, que sofreu interpolações e adulterações nas mãos de copistas latinos (mais especificamente de um monge católico do início do século XVIII que não apenas confessou que corrompeu o trabalho como se gloriou por inserir palavras na boca de Cipriano).
 
Não somente o “Da Unidade da Igreja” foi corrompido, mas outras muitas citações correntes de seus outros livros sofreram manipulações propositais para fazer parecer que Cipriano era um grande defensor do papado. Um exemplo é uma citação atribuída à Epístola 48 de Cipriano, que diz que «Roma é a matriz e o trono da Igreja Católica». Não apenas a citação não consta na Epístola 48 de Cipriano, como o mais próximo disso é um trecho da Epístola 44 onde não consta nem “Roma” e nem “trono”.
 
Mas o que está por trás desse interesse tão grande em corromper os escritos de Cipriano? A razão é simples: seu embate com o “papa” da época, Estêvão I (254-257). Naquela época, o termo “papa” ainda não era usado para os bispos de Roma. É curioso notar que em todos os dez volumes da História Eclesiástica de Eusébio, a palavra “papa” aparece uma única vez e em referência a Heraclas, bispo de Alexandria (Livro VII, 7:4). Nessa época os presbíteros de Roma costumavam chamar o próprio Cipriano de “papa”, título que os bispos de Roma tardariam em receber, e que não designava ainda supremacia alguma.
 
O embate girou em torno do rebatismo dos hereges, mas com o tempo ganhou proporções maiores. Estêvão, bispo de Roma, defendia que aqueles que foram batizados enquanto hereges, ao passarem à fé ortodoxa, não precisavam passar por um novo batismo. Cipriano, por outro lado, entendia que o batismo de um herege não tinha eficácia, e por essa razão precisavam ser batizados “novamente” quando abandonavam os seus erros (embora ele não entendesse como “dois” batismos, já que o primeiro havia sido apenas um banho).
 
Entre os Pais da Igreja era comum haver divergências, e mesmo discussões ásperas envolvendo doutrina (Jerônimo e Agostinho, dois vultos do final do século IV, discutiram muitos assuntos controversos, às vezes num tom não tão ameno), mas geralmente terminava pacificamente, mesmo que ambas as partes não chegassem a um consenso. O imbróglio entre Cipriano e Estêvão poderia terminar da mesma forma, se não fosse por este tentar impor sua opinião na região onde Cipriano era bispo, e foi aí que o bicho pegou.
 
Devemos lembrar que nessa época praticamente todas as igrejas locais já eram governadas por um bispo (leia o capítulo 11 sobre o episcopado monárquico, caso você tenha pulado até aqui), mas cada bispo tinha autonomia dentro de sua própria jurisdição. Assim como Estêvão mandava em Roma, Cipriano mandava em Cartago e Heraclas em Alexandria, cada um na sua própria região, sem ter direito de governar os demais. Nessa época ainda não havia um “bispo dos bispos”, isto é, um bispo que reinasse supremo sobre todos os outros bispos da Cristandade, com uma jurisdição de caráter universal – como mais tarde pretenderam os bispos romanos.
 
Mesmo assim, Estêvão queria forçar goela abaixo sua posição quanto ao rebatismo para além da sua jurisdição, inclusive para Cartago. E como Cipriano não era de levar desaforo pra casa, reagiu energicamente a isso que ele considerava um abuso. Em sua Epístola 74 ele chama Estêvão de «amigo de hereges e inimigo dos cristãos», e como se fosse pouco, convocou um concílio com os bispos do norte da África (em 258 d.C), que sob a sua presidência decretou:
 
“Pois nenhum de nós coloca-se como um bispo de bispos, nem por terror tirânico alguém força seu colega à obediência obrigatória; visto que cada bispo, de acordo com a permissão de sua liberdade e poder, tem seu próprio direito de julgamento, e não pode ser julgado por outro mais do que ele mesmo pode julgar um outro. Mas esperemos todos o julgamento de nosso Senhor Jesus Cristo, que é o único que tem o poder de nos designar no governo de Sua Igreja, e de nos julgar em nossa conduta nela” (Fonte)
 
O debate havia extrapolado a questão do rebatismo, e assumido uma dimensão maior: a quem o bispo de Roma tinha o direito de governar? Cipriano é claro em defender a posição de que cada bispo tem liberdade e poder igual aos demais, e nenhum poderia ser julgado por outro mais do que ele mesmo pode julgar um outro. Em outras palavras, Estêvão não tinha nenhum direito de julgar Cipriano, exigindo qualquer coisa que extrapolasse os limites de sua jurisdição. O único «bispo de bispos» é Jesus Cristo, que governa a Sua Igreja espiritualmente.
 
Em sua Epístola 33, logo após citar Mateus 16:18, Cipriano afirma que «a Igreja é fundada sobre os bispos, e cada ato da Igreja é controlado por estes mesmos governantes». Ele diz “os bispos” e “os governantes”, no plural, porque para Cipriano todos os bispos estavam representados em Pedro, não só o bispo romano. A ideia de um bispo governando todos os demais era encarada como uma tirania intolerável e descabida.
 
Dois séculos mais tarde, um novo concílio se reuniria em Cartago (419) e reafirmaria a igualdade entre os bispos e a autonomia da igreja de Cartago, ressaltando que qualquer questão deveria ser terminada com os bispos vizinhos e rejeitando qualquer autoridade além dos concílios africanos (incluindo Roma):
 
“Igualmente decidimos que os presbíteros, diáconos e outros clérigos inferiores, nas causas que surgirem, se não quiserem se conformar com a sentença dos bispos locais, recorram aos bispos vizinhos, e com eles terminem qualquer questão... e se ainda não se julgarem satisfeitos e quiserem apelar, não apelem senão para os concílios africanos, ou para os primazes das próprias províncias; e se alguém apelar para a Sé transmarina (de Roma) não seja mais recebido na comunhão” (Cânon 125)
 
As igrejas africanas jamais aceitaram uma jurisdição externa à deles, a não ser a de um concílio ecumênico (quando toda a Igreja universal se reunia para tratar uma questão), mas em hipótese alguma a de um bispo em particular. Nessa época, Roma era apenas mais uma entre tantas dioceses cristãs com autonomia local – uma comunidade particularmente prestigiada, por ser a capital do império, mas igual em poder em relação às demais. A isso eles chamavam de “primado de honra”, sendo o papa um “primeiro entre iguais” (primus inter pares), título hoje ainda ostentado pelo patriarca de Constantinopla na Igreja Ortodoxa, onde os bispos são iguais em poder.
 
Como a capital imperial, Roma era a “primeira” em prestígio, mas igual em termos de poder e chefia. Esse prestígio especial era compartilhado pelas outras cidades mais importantes do império, por isso Antioquia e Alexandria recebem um destaque especial no cânon 6 de Niceia, juntamente com Roma. Isso não significava que uma estava acima das outras, e muito menos que pudesse mandar nas demais. Se Cipriano se incomodou a tal ponto com a intromissão de um bispo romano numa discussão teológica específica, ele se reviraria do túmulo se soubesse que o atual catecismo católico afirmaria que o papa «possui na Igreja poder pleno, supremo e universal, e pode exercer sempre livremente este seu poder» (§882).
 
O simples fato dele ter se oposto às pretensões de Estêvão já mostra que ele desconhecia por completo a suposta infalibilidade papal (dogma criado em 1870, ou seja, mais de um milênio e meio após Cipriano) e que considerava o bispo de Roma um bispo falível como todos os demais, a quem podia se opor, contrariar e repreender, e que em hipótese alguma tinha o direito de exigir submissão das outras igrejas. Roma falou, mas causa nenhuma acabou. Só acabaria no século seguinte, quando o cânon XIX do Concílio de Niceia (325) ordenaria o rebatismo dos paulianistas, um grupo sectário que seguia o herege Paulo de Samosata – o que certamente deixaria Cipriano com um sorriso no rosto.

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