19 de julho de 2026

0 A "Igreja Católica" em Inácio de Antioquia e nos Pais da Igreja


*Nota introdutória: O artigo a seguir é extraído do livro que eu estou escrevendo, que pretendo chamar de “O mínimo que você precisa saber para não ser católico”. Ele é uma continuação do tópico anterior sobre o significado de Igreja, que eu postei recentemente aqui.
 
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• Argumento católico: “Inácio de Antioquia (e outros Pais da Igreja) eram católicos porque mencionaram a Igreja Católica”
 
No início do segundo século, Inácio, bispo da igreja de Antioquia, disse que “onde está Cristo Jesus, está a Igreja católica”[1]. Essa é provavelmente a citação patrística mais presente nos sites papistas, encarada como uma declaração formal de pertencimento à igreja deles. Contudo, como já vimos no tópico anterior, quando os Pais falavam da Igreja “católica” eles não estavam rotulando a Igreja tal como um papista faz hoje, mas simplesmente dizendo que a Igreja já era universal (que é o significado da palavra “católico”), numa referência aos cristãos espalhados no mundo todo (ou pelo menos o mundo que eles conheciam).
 
Dizer que Inácio (ou qualquer outro Pai da Igreja) usava o termo “católico” no sentido papista moderno é um erro grotesco de anacronismo. Isso seria o mesmo que um leigo nos dias de hoje se deparar com um livro medieval que diga que certa pessoa é um “vilão” e concluir que está falando de uma pessoa má como nos filmes, onde o vilão pratica atos malignos contra o mocinho. Alguém que tenha estudado história não cometeria o mesmo erro, pois saberia que “vilão” naquele contexto não era uma pessoa má, mas simplesmente um habitante da vila.
 
Da mesma forma, se você decidir ler os clássicos da Grécia Antiga e se surpreender com alguém descrito como um “idiota”, não pense que eles estavam necessariamente falando de uma pessoa burra, porque “idiota” meramente designava alguém que não se envolvia nos assuntos da pólis. Pensar que “católico” nos Pais da Igreja significava o mesmo que “católico” na boca de um papista de internet nos dias de hoje é tão idiota quanto (no sentido moderno mesmo, não no grego).
 
Guardadas as devidas proporções, até um membro da Igreja Universal do Edir Macedo poderia apelar para um anacronismo grosseiro dessa natureza, já que “Igreja Católica” era o mesmo que “Igreja Universal” (mas não no sentido macedístico, nem no sentido romanista). Na verdade, o próprio uso papista do termo incorre numa contradição de termos que nem eles notam, já que se algo é “católico” (universal) não pode ser “romano” (particular). Se levarmos em conta a etimologia dos termos e seu uso primitivo, um “católico romano” faria tanto sentido quanto um “solteiro casado” ou um “vegano carnívoro”.
 
Não à toa, nem Inácio, nem qualquer Pai da Igreja jamais se referiu à Igreja universal como “Igreja Católica Romana”, mas apenas como “Igreja Católica”, porque uma Igreja que é universal não pode ser particular. Apenas a própria igreja local de Roma era assim chamada, assim como a igreja de Éfeso era chamada de “Igreja Católica de Éfeso”, que a igreja de Antioquia era chamada de “Igreja Católica de Antioquia” e assim por diante. Mas nunca a própria Igreja como um todo, isto é, a Igreja “católica” (=universal). Quando um papista faz da Igreja Romana a própria Igreja Católica ele não está seguindo Inácio: está pervertendo as palavras dele da forma mais inescrupulosa possível, fazendo o pobre Inácio se revirar no túmulo.
 
Vale ressaltar que na carta aos erminienses, que é onde Inácio disse aquilo, Roma não é sequer mencionada uma única vez, e as únicas autoridades citadas por Inácio nessa carta e em todas as outras são apenas o bispo (local), os presbíteros e os diáconos, sem jamais mencionar uma autoridade acima do bispo local (ou seja, o papa, que seria um “bispo dos bispos” com jurisdição universal)[2]. É nítido que para Inácio a catolicidade da Igreja não estava condicionada de forma alguma a Roma, e nisso concordam os próprios estudiosos católicos mais sérios[3].
 
Mesmo se a “Igreja Católica” fosse para Inácio o nome oficial de uma instituição particular da qual ele fizesse parte, de que modo os papistas imaginam que isso remete à igreja deles? Todas as outras igrejas que arrogam ter “sucessão apostólica” ainda usam o nome “católica” e se definem como tais, mesmo não tendo comunhão com Roma. A própria “Igreja Ortodoxa”, embora seja assim chamada popularmente, também tem “católica” no nome teológico e litúrgico oficial (Igreja Católica Apostólica Ortodoxa), assim como outras igrejas orientais.
 
Vale ressaltar que em todos os antigos concílios ecumênicos da Igreja, como o Concílio de Niceia, o Concílio de Éfeso e o de Calcedônia, a Igreja era chamada sempre de “Igreja Católica”, nunca de “Igreja Católica Apostólica Romana”. Quando a Sé de Roma era mencionada, era mencionada como uma igreja local, não como a própria Igreja universal (católica). O memorando do papa Gregório VII (1075 d.C), que dizia que “quem não está com a Igreja Romana não deve ser considerado católico”[4], não podia estar mais longe da realidade nessa época.
 
Surpreendentemente, mesmo sendo um erro tão básico (básico a ponto de nem os próprios romanistas usarem esse argumento em um debate sério com protestantes), são muitos os leigos que se impressionam com esse tipo de citação solta e graças a isso pensam que “a Igreja primitiva já era católica” e que “os Pais da Igreja eram católicos”, imaginando que “católico” seja o mesmo que “católico romano” e que portanto Inácio já acreditava em todas as doutrinas que eles defendem hoje (o que seria cômico se não fosse trágico).
 
Infelizmente, assim como ocorreu com a palavra “igreja”, o termo “católico” acabou virando sinônimo de “católico romano” no imaginário popular, em especial no Ocidente, onde as igrejas orientais têm tão pouca presença e os papistas tiveram por séculos (e ainda têm) a hegemonia cultural, inclusive para estabelecer o vocabulário. Foi assim que eles consagraram que “católicos” são eles, e que nós somos “protestantes”. Esse uso se popularizou de tal forma que até nós nos referimos a eles como “católicos”, mesmo cientes de que eles não são católicos no sentido próprio do termo.
 
É como quando chamamos os nativos americanos de “índios”, mesmo que essa designação seja fruto de um erro geográfico (quando Colombo pensou ter chegado às Índias), ou quando chamamos de “holandeses” todos os habitantes dos Países Baixos, ainda que a Holanda seja apenas uma região entre outras onze províncias do país. A despeito de toda a mídia saber disso, ninguém os chama de “neerlandeses”, que seria o nome correto, porque “holandeses” é usado há tanto tempo que até quem sabe que está errado continua usando por conveniência e força do hábito (mesmo na transmissão de eventos oficiais, como a Copa do Mundo).
 
É por isso que neste livro eu não me importo em chamá-los de “católicos” (como no próprio título), embora também os chame de “papistas” ou “romanistas”, que é o que de fato são. O que realmente importa não é o rótulo em si, mas o que ele comunica. Muitos deles se recusam a nos chamar de “evangélicos” por considerarem que não pregamos o verdadeiro evangelho, mas outros não se importam com o rótulo e nos chamam assim mesmo. Se algum rótulo fosse importante, nenhum seria mais do que ser chamado de cristão, que é o único que permeia todo o Novo Testamento.
 
Nos Estados Unidos, país de fundação protestante, se você perguntar a um protestante o que ele é, ele dificilmente responderá “protestante” ou “evangélico”. A resposta padrão é simplesmente I'm a Christian (eu sou cristão), enquanto os católicos responderão I'm Catholic (eu sou católico). Isso não significa que o católico não se considere cristão também, nem que o protestantismo necessariamente seja cristão só porque os protestantes americanos adotaram esse termo em particular. Significa apenas que num país onde o protestantismo é hegemônico eles cunharam as regras, o que fez com que os católicos não se definissem como cristãos para não serem confundidos com os protestantes (e não por não se considerarem cristãos).
 
Como o Brasil é um país de tradição católica, “cristão” aqui não designa o protestantismo em particular, razão por que quando questionados nos definimos apenas como “evangélicos” ou “protestantes”, apesar de também sermos cristãos. E mesmo que também sejamos “católicos” na concepção própria do termo, nenhum protestante se diria “católico” se questionado a respeito de sua religião, não porque não sejamos católicos no sentido etimológico correto, mas porque isso confundiria o ouvinte, que naturalmente pensaria se tratar de um católico romano.
 
Qualquer um que estude letras sabe como as palavras ganham diferentes conotações e significados com o passar do tempo, de modo que se apegar ao rótulo que é usado é o erro mais pueril que alguém poderia cometer. Nossos próprios adversários sabem disso e se apoiam nisso quando convém, como por exemplo quando precisam lidar com o fato de certos Pais da Igreja terem negado que houvesse uma mudança de substância dos elementos da eucaristia após a consagração, e então dizem que “substância” para eles não era o mesmo que “substância” para nós.
 
Mesmo que isso não seja exatamente verdade, este simples exemplo mostra que até eles sabem reconhecer (ao menos quando convém) que o que realmente importa não é o uso de uma palavra, mas o conceito que ela comunica para cada pessoa em cada época. O que realmente deveria importar, tanto aos papistas como a nós, não é “qual palavra Inácio usava”, mas “qual doutrina ele defendia”. E como veremos no capítulo dedicado à patrística, nem Inácio nem qualquer Pai da Igreja defendeu a vasta maioria das principais doutrinas romanistas distintivas.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (youtube.com/LucasBanzoli)


[1] Carta aos erminienses, 8:2.

[2] Discorrerei mais a este respeito no capítulo sobre o papado.

[3] Veja uma lista deles aqui: <https://www.lucasbanzoli.com/2019/03/imperdivel-historiadores-e-teologos.html>. Acesso em: 19/07/2026.

[4] Proposição XXVI do memorando em questão.

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