*Nota introdutória: O
artigo a seguir é extraído do livro que eu estou escrevendo, que pretendo
chamar de “O mínimo que você precisa saber para não ser católico”. Ele é uma
continuação do tópico anterior sobre o significado de Igreja, que eu postei recentemente
aqui.
***
•
Argumento católico: “Inácio de Antioquia (e outros Pais da Igreja) eram
católicos porque mencionaram a Igreja Católica”
No início do segundo século, Inácio, bispo da igreja
de Antioquia, disse que “onde está Cristo Jesus,
está a Igreja católica”[1].
Essa é provavelmente a citação patrística mais presente nos sites papistas, encarada
como uma declaração formal de pertencimento à igreja deles. Contudo, como já
vimos no tópico anterior, quando os Pais falavam da Igreja “católica” eles não
estavam rotulando a Igreja tal como um papista faz hoje, mas simplesmente
dizendo que a Igreja já era universal (que é o significado da palavra
“católico”), numa referência aos cristãos espalhados no mundo todo (ou pelo
menos o mundo que eles conheciam).
Dizer que Inácio (ou qualquer outro Pai da Igreja)
usava o termo “católico” no sentido papista moderno é um erro grotesco de
anacronismo. Isso seria o mesmo que um leigo nos dias de hoje se deparar com um
livro medieval que diga que certa pessoa é um “vilão” e concluir que está
falando de uma pessoa má como nos filmes, onde o vilão pratica atos malignos
contra o mocinho. Alguém que tenha estudado história não cometeria o mesmo
erro, pois saberia que “vilão” naquele contexto não era uma pessoa má, mas
simplesmente um habitante da vila.
Da mesma forma, se você decidir ler os clássicos da
Grécia Antiga e se surpreender com alguém descrito como um “idiota”, não pense
que eles estavam necessariamente falando de uma pessoa burra, porque “idiota”
meramente designava alguém que não se envolvia nos assuntos da pólis. Pensar
que “católico” nos Pais da Igreja significava o mesmo que “católico” na boca de
um papista de internet nos dias de hoje é tão idiota quanto (no sentido moderno
mesmo, não no grego).
Guardadas as devidas proporções, até um membro da
Igreja Universal do Edir Macedo poderia apelar para um anacronismo grosseiro
dessa natureza, já que “Igreja Católica” era o mesmo que “Igreja Universal”
(mas não no sentido macedístico, nem no sentido romanista). Na verdade, o
próprio uso papista do termo incorre numa contradição de termos que nem eles
notam, já que se algo é “católico” (universal) não pode ser “romano”
(particular). Se levarmos em conta a etimologia dos termos e seu uso primitivo,
um “católico romano” faria tanto sentido quanto um “solteiro casado” ou um “vegano
carnívoro”.
Não à toa, nem Inácio, nem qualquer Pai da Igreja
jamais se referiu à Igreja universal como “Igreja Católica Romana”, mas apenas
como “Igreja Católica”, porque uma Igreja que é universal não pode ser
particular. Apenas a própria igreja local de Roma era assim chamada, assim como
a igreja de Éfeso era chamada de “Igreja Católica de Éfeso”, que a igreja de
Antioquia era chamada de “Igreja Católica de Antioquia” e assim por diante. Mas
nunca a própria Igreja como um todo, isto é, a Igreja “católica” (=universal). Quando
um papista faz da Igreja Romana a própria Igreja Católica ele não está
seguindo Inácio: está pervertendo as palavras dele da forma mais inescrupulosa
possível, fazendo o pobre Inácio se revirar no túmulo.
Vale ressaltar que na carta aos erminienses, que é
onde Inácio disse aquilo, Roma não é sequer mencionada uma única vez, e as
únicas autoridades citadas por Inácio nessa carta e em todas as outras são
apenas o bispo (local), os presbíteros e os diáconos, sem jamais mencionar uma autoridade
acima do bispo local (ou seja, o papa, que seria um “bispo dos bispos” com
jurisdição universal)[2].
É nítido que para Inácio a catolicidade da Igreja não estava
condicionada de forma alguma a Roma, e nisso concordam os próprios estudiosos
católicos mais sérios[3].
Mesmo se a “Igreja Católica” fosse para Inácio o nome
oficial de uma instituição particular da qual ele fizesse parte, de que modo os
papistas imaginam que isso remete à igreja deles? Todas as outras
igrejas que arrogam ter “sucessão apostólica” ainda usam o nome “católica” e se
definem como tais, mesmo não tendo comunhão com Roma. A própria “Igreja
Ortodoxa”, embora seja assim chamada popularmente, também tem “católica” no
nome teológico e litúrgico oficial (Igreja Católica Apostólica Ortodoxa), assim
como outras igrejas orientais.
Vale ressaltar que em todos os antigos concílios
ecumênicos da Igreja, como o Concílio de Niceia, o Concílio de Éfeso e o de
Calcedônia, a Igreja era chamada sempre de “Igreja Católica”, nunca de “Igreja
Católica Apostólica Romana”. Quando a Sé de Roma era mencionada, era mencionada
como uma igreja local, não como a própria Igreja universal (católica). O
memorando do papa Gregório VII (1075 d.C), que dizia que “quem não está com a Igreja Romana não deve ser
considerado católico”[4],
não podia estar mais longe da realidade nessa época.
Surpreendentemente, mesmo sendo um erro tão básico
(básico a ponto de nem os próprios romanistas usarem esse argumento em um
debate sério com protestantes), são muitos os leigos que se impressionam com
esse tipo de citação solta e graças a isso pensam que “a Igreja primitiva já
era católica” e que “os Pais da Igreja eram católicos”, imaginando que
“católico” seja o mesmo que “católico romano” e que portanto Inácio já
acreditava em todas as doutrinas que eles defendem hoje (o que seria cômico se
não fosse trágico).
Infelizmente, assim como ocorreu com a palavra
“igreja”, o termo “católico” acabou virando sinônimo de “católico romano” no imaginário
popular, em especial no Ocidente, onde as igrejas orientais têm tão pouca
presença e os papistas tiveram por séculos (e ainda têm) a hegemonia cultural,
inclusive para estabelecer o vocabulário. Foi assim que eles consagraram que
“católicos” são eles, e que nós somos “protestantes”. Esse uso se popularizou
de tal forma que até nós nos referimos a eles como “católicos”, mesmo cientes
de que eles não são católicos no sentido próprio do termo.
É como quando chamamos os nativos americanos de
“índios”, mesmo que essa designação seja fruto de um erro geográfico (quando
Colombo pensou ter chegado às Índias), ou quando chamamos de “holandeses” todos
os habitantes dos Países Baixos, ainda que a Holanda seja apenas uma região entre
outras onze províncias do país. A despeito de toda a mídia saber disso, ninguém
os chama de “neerlandeses”, que seria o nome correto, porque “holandeses” é
usado há tanto tempo que até quem sabe que está errado continua usando por
conveniência e força do hábito (mesmo na transmissão de eventos oficiais, como
a Copa do Mundo).
É por isso que neste livro eu não me importo em
chamá-los de “católicos” (como no próprio título), embora também os chame de
“papistas” ou “romanistas”, que é o que de fato são. O que realmente importa
não é o rótulo em si, mas o que ele comunica. Muitos deles se recusam a nos
chamar de “evangélicos” por considerarem que não pregamos o verdadeiro
evangelho, mas outros não se importam com o rótulo e nos chamam assim mesmo. Se
algum rótulo fosse importante, nenhum seria mais do que ser chamado de cristão,
que é o único que permeia todo o Novo Testamento.
Nos Estados Unidos, país de fundação protestante, se
você perguntar a um protestante o que ele é, ele dificilmente responderá
“protestante” ou “evangélico”. A resposta padrão é simplesmente I'm a
Christian (eu sou cristão), enquanto os católicos responderão I'm
Catholic (eu sou católico). Isso não significa que o católico não se
considere cristão também, nem que o protestantismo necessariamente seja cristão
só porque os protestantes americanos adotaram esse termo em particular. Significa
apenas que num país onde o protestantismo é hegemônico eles cunharam as regras,
o que fez com que os católicos não se definissem como cristãos para não serem
confundidos com os protestantes (e não por não se considerarem cristãos).
Como o Brasil é um país de tradição católica, “cristão”
aqui não designa o protestantismo em particular, razão por que quando questionados
nos definimos apenas como “evangélicos” ou “protestantes”, apesar de também sermos
cristãos. E mesmo que também sejamos “católicos” na concepção própria do termo,
nenhum protestante se diria “católico” se questionado a respeito de sua religião,
não porque não sejamos católicos no sentido etimológico correto, mas porque
isso confundiria o ouvinte, que naturalmente pensaria se tratar de um católico
romano.
Qualquer um que estude letras sabe como as palavras
ganham diferentes conotações e significados com o passar do tempo, de modo que
se apegar ao rótulo que é usado é o erro mais pueril que alguém poderia
cometer. Nossos próprios adversários sabem disso e se apoiam nisso quando
convém, como por exemplo quando precisam lidar com o fato de certos Pais da
Igreja terem negado que houvesse uma mudança de substância dos elementos da
eucaristia após a consagração, e então dizem que “substância” para eles não era
o mesmo que “substância” para nós.
Mesmo que isso não seja exatamente verdade, este
simples exemplo mostra que até eles sabem reconhecer (ao menos quando convém)
que o que realmente importa não é o uso de uma palavra, mas o conceito que
ela comunica para cada pessoa em cada época. O que realmente deveria importar,
tanto aos papistas como a nós, não é “qual palavra Inácio usava”, mas “qual doutrina
ele defendia”. E como veremos no capítulo dedicado à patrística, nem Inácio nem
qualquer Pai da Igreja defendeu a vasta maioria das principais doutrinas
romanistas distintivas.
Paz a todos vocês que estão em Cristo.
Por Cristo e por Seu Reino,
[1] Carta aos erminienses,
8:2.
[2] Discorrerei
mais a este respeito no capítulo sobre o papado.
[3] Veja uma lista
deles aqui: <https://www.lucasbanzoli.com/2019/03/imperdivel-historiadores-e-teologos.html>.
Acesso em: 19/07/2026.
[4] Proposição XXVI
do memorando em questão.
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