5 de setembro de 2026

0 Por que eu falo tanto de catolicismo?

 


“Por que você fala tanto de catolicismo?”, é a pergunta que já recebi algumas dezenas de vezes. Quando o questionamento vem de um católico, eles geralmente substituem “falar” por “atacar”, se vitimizam, me demonizam e me pintam como um malvadão que odeia a Santa Igreja enquanto eles são bons samaritanos que nunca criticaram o protestantismo e que amam as nossas igrejas (ou melhor, nossas “40 mil seitas”, como eles dizem). 
 
Para começar minha resposta, me permita iniciar com uma anedota. O ano era 2009, eu havia acabado de ingressar nesse novo mundo da apologética, tinha como grande desejo defender a fé, e na minha cabeça existia apenas um “inimigo”: os ateus. A lógica era simples: os ateus é que não acreditam na Bíblia nem em Deus, então defender a fé significava fazer apologética contra o ateísmo. Comecei debatendo em uma série de comunidades de debates entre cristãos e ateus no Orkut, e por uns meses me mantive debatendo apenas contra ateus.
 
Mas como todo mundo se lembra, o Orkut era muito grande, e minha curiosidade juvenil me levou a ingressar em centenas de comunidades: desde comunidades de debates com adventistas e espíritas até comunidades de debates com satanistas e, é claro, católicos. Basicamente eu havia “zerado” as comunidades de debates que eu podia fazer parte, e embora fosse ativo em poucas delas, era um observador atento. E uma coisa comecei a perceber que me deixou atônito na época, dada a minha inocência e ingenuidade: os católicos atacavam muito mais a nossa fé do que os ateus ou qualquer outro grupo anticristão.
 
Na verdade, se juntasse todos os ataques desses outros grupos, não chegava a competir com os ataques que eu via sendo disparados contra a gente nas comunidades católicas. Isso não apenas em quantidade, mas também em baixeza: os católicos eram disparados os que mais desciam o mais baixo possível, no mais sujo esgoto moral, para nos atacar com os insultos mais torpes, com comportamentos tão degenerados que nenhum ateu chegava perto. Eles se aproveitavam do fato de que sabiam que não responderíamos na mesma moeda (por sermos cristãos, diferente deles). Lembro-me de alguns bons debates que tive na época com ateus respeitosos, mas de apenas um católico com quem era possível debater sem ser xingado a todo momento (o lendário Evaldo, que tinha a foto do papa Bento XVI de perfil).  
 
Os evangélicos eram rotineiramente escarnecidos, chamados de “evanjegues”, “protestontos”, “rebelados”, "crentaiada", “filhos da serpente”. Debatedoras evangélicas eram chamadas de “vagabundas”, e até uma ex minha (que ninguém sabia que namorava comigo, mas também debatia nesses fóruns) teve suas fotos pessoais expostas acompanhadas do palavreado mais baixo que você possa imaginar. O chefe dessa gangue se chamava de conde e dizia coisas como “eu vou mijar no caixão da porca da tua mãe”. A Inquisição não apenas era defendida, mas também pediam o seu retorno “para acabar com essa raça maldita” (a nossa).
 
Há não muito tempo postei este vídeo com quase 1h de prints dessa época, fora centenas de outros que tenho guardados no meu computador até hoje e outros que já postei na minha série dos “zumbis tridentinos”. Já recebi dúzias de ameaças de morte por zé cruzadinhas que defendem não a Igreja Católica de hoje, mas a medieval – incluindo alguns que diziam que eu acordaria com um saco de formigas na cabeça e outros que diziam que eu levaria uma bala na testa. Curiosamente, em tempos mais recentes um apologista católico muito conhecido, apoiado por muitos outros católicos e recomendado por gente como o Ariel, expressou seu desejo de que uma bala acertasse a minha testa, e recebeu apoio em massa do seu público.
 
Isso é apenas um panorama muito, mas muito resumido desses 17 anos de apologética. Não vou fingir que nunca vi ataques por parte de protestantes, mas nunca vi um único que chegasse ao ponto de ameaçar de morte. Nunca vi um único defendendo uma “Inquisição protestante” e dizendo que ela tinha que voltar para caçar católicos. Nunca vi alguém defendendo que católicos não poderiam ter direito de culto. Nunca vi protestante querendo fazer cruzada contra católicos. Nunca vi nem mesmo alguém usar palavrões do nível que o tal conde usava e usa cotidianamente.
 
Mesmo assim, na cabeça do apologista católico de internet, são os protestantes os malvadões que vivem “atacando a Igreja Católica”, como se eles não falassem mal de ninguém nem fizessem mal a ninguém. Em todos esses anos, nunca vi um segmento mais vitimista do que eles, e nisso incluo até mesmo a extrema-esquerda woke. É literalmente o “acuse-os do que você faz, xingue-os do que você é”.
 
Todo o discurso da apologética católica ser resume a um show de vitimismo teatral somado a uma dose inacreditável de conspiracionismo, como se o mundo todo (judeus, maçons, iluministas, ateus, esquerdistas, muçulmanos e, é claro, protestantes) estivessem envolvidos numa mega conspiração para atacar a honra da santa e imaculada Igreja Católica, que nunca fez mal a ninguém nem jamais deu motivos para ser tão “atacada”. De tanto repetir a mesma narrativa uns dos outros eles vivem num universo alternativo, onde realmente acreditam que eles são as vítimas e todos os outros são os vilões.
 
O resultado é que eles não suportam saber da existência de um canal de apologética protestante que refuta o catolicismo. Isso é intolerável, e nem seria permitido se eles ainda tivessem o poder que, graças ao bom Deus, já perderam há tempos. Eles podem ter perdido o poder político, mas não perderam o espírito inquisitorial, que permanece mais vivo do que nunca toda vez que eles veem qualquer página protestante rebatendo qualquer doutrina católica – ao mesmo tempo em que não veem problema nenhum quando uma página católica faz o mesmo contra os protestantes.
 
E é aqui que a coisa fica mais interessante, pois é extremamente fácil refutar o vitimismo católico simplesmente comparando com os dados objetivos da realidade. Ninguém nunca deve ter feito isso antes porque dá um certo trabalho, mas eu me submeti a isso apenas para comprovar a tese que eu sempre sustentei, e que é a coisa mais óbvia do mundo pra qualquer um que alguma vez já tenha tido contato com esse estranho mundo da apologética: os militantes católicos não só são muito mais radicais, como também são incomparavelmente mais numerosos que os nossos.
 
Para demonstrar isso, fiz uma tabela só com os canais de apologética católica antiprotestante no YouTube. Note que eu não incluí todos os canais de apologética católica, pois eles têm muito mais do que isso, mas somente aqueles que tem uma quantidade relevante de conteúdo antiprotestante. A maioria dos canais a seguir eu já conhecia pelo menos de nome, e outros encontrei facilmente com uma busca rápida na internet. Certamente existem muitos outros do tipo, mas como isso não é uma monografia, os seguintes exemplos já bastam:

 

Canal

Inscritos

Padre Paulo Ricardo

2,28 milhões

Bernardo Küster

1,03 milhões

Católicos de Verdade

615 mil

Centro Dom Bosco

569 mil

Marcelo Andrade

455 mil

Professor Felipe Aquino

320 mil

Apostolado Petrino

319 mil

Padre José Eduardo

204 mil

Eduardo Faria

198 mil

Lucas Lancaster

195 mil

Diácono João Victor Mariano

133 mil

Missionário Daniel Silveira

118 mil

Ecclesiam Cast

112 mil

Ariel Lazari

109 mil

Padre Douglas Pinheiro

80,6 mil

Cultura e Fé Católica

53,8 mil

Juliana Jesus Paixão

40,1 mil

Segundo Católico

31 mil

Denis o católico

26,6 mil

O Catequista

26,3 mil

Conde Loppeux

22,3 mil

Apostolado Cardeal Newman

19,9 mil

Tales Muniz

15,7 mil

Paulo Leitão

14,3 mil

Super Quesada

13,9 mil

Jampier Vedana

12,8 mil

Petter Martins

12,5 mil

Cris Macabeus

12,2 mil

João Vítor Gonçalves

11,5 mil

A Voz da Verdade Católica

9,9 mil

Católico Formado é Católico Preparado

9,6 mil

Veritatis Splendor

8,4 mil

Apologética Católica e Debates

8 mil

Universo Católico

7,7 mil

Felipe Reina

6 mil

Nicolas Porfirio

5,8 mil

Arena Católica

5,3 mil

Robson 2.0

5 mil

Confraria Dom Expedito Lopes

4,8 mil

Cláudio Campos

4,8 mil

Gêmeos Klautau

4,4 mil

Symonn Almeida

4,1 mil

Inquisição Online

4,1 mil

Johan De Maria

4 mil

Contra Sola

3,7 mil

Guilherme Souza

3,3 mil

Fraternidade Newman

3,5 mil

Cortes da Igreja Católica

3,5 mil

Gustavo Neves

2,4 mil

Álvaro Rodrigues

2,1 mil

MS Fé Católica

2 mil

Eliequim Junior

1,5 mil

José Ronaldo Rede Católica

1,4 mil

Bate Papo Católico

500

Total

7.173.900

 
Há muitos outros canais que produzem conteúdo antiprotestante que eu deixei de fora apenas por não seguir totalmente o critério estabelecido. Por exemplo, ficaram de fora o Brasil Paralelo, Guilherme Freire, Olavo de Carvalho, Miorim, Rasta, Pietra, Kogos, Lucca Almeida e Tibúrcio, pois embora eles também tenham algum conteúdo de refutação ao protestantismo e de proselitismo católico (e que nos casos de Olavo e Freire tenham sido até mais importantes para conversões ao catolicismo do que 99% dos canais listados acima), o foco deles é outro, então não entraram na lista por falarem de protestantismo apenas esporadicamente.
 
Levando isso em consideração, deixei de fora até o canal da Associação Cultural Montfort, cujo site é ferrenhamente antiprotestante e tem muito conteúdo disso, mas no canal eles quase não falam sobre. Também deixei de fora canais de linha sedevacantista (como o do Frei Tiago, o Controvérsia Católica e o do Lorenzo Lazzarotto) para que ninguém reclamasse que eles não são “católicos de verdade”, e porque o foco deles está muito mais em desconstruir a “Igreja conciliar” do que o protestantismo. Também vale dizer que deixei de fora o canal do Ortodoxo de Estocolmo, embora ele nada difira de um católico e faça um trabalho de apologética católica muito mais empenhado que quase todos da lista.
 
Mesmo com todas essas ressalvas e com tantos nomes que poderiam ter sido incluídos mas que eu deixei de fora por não atender totalmente aos critérios, ainda assim são 54 canais com significativo conteúdo antiprotestante. Isso inclui canais gigantescos, como o do padre Paulo Ricardo (o grande popstar da apologética católica que praticamente inaugurou a apologética antiprotestante no YouTube) e o do Bernardo Küster, que tem até um curso inteiro (caríssimo) ensinando a “refutar os protestantes” (onde diz que Macabeus é o último livro do Antigo Testamento).
 
Muitos desses canais são quase totalmente focados no antiprotestantismo, muito mais do que o meu é no anticatolicismo. No momento em que escrevo este artigo, meu canal tem 732 vídeos, dos quais 277 são sobre catolicismo (o que representa um total de 37%). Mas o percentual de vídeos “refutando” o protestantismo em canais como o do ex-pastor (Eduardo Faria), do diácono (João Victor Mariano), do viajante do espaço-tempo (Ariel) e do Catolibã (Tales) é de quase 100%.  
 
Se a narrativa vitimista da apologética católica fosse verdadeira (onde eles precisam muito de novos apologistas contra o protestantismo, de tão satânicos que nós somos atacando a Santa Igreja dia e noite), esperaríamos encontrar pelo menos uns 500 canais de apologética anticatólica pra narrativa fazer sentido. Mas o que temos é isso:

 

Canal

Inscritos

Lucas Banzoli

105 mil

Moisés Bichara

52,1 mil

Lucas Gesta

26,3 mil

Juan Oliveira

11,1 mil

Defensores

10,3 mil

Gabriel Ennes

8,6 mil

Pr. Alexandre Farias

5,5 mil

Bruno Lima

5,3 mil

Areópago Apologética

4,6 mil

Thiago Dutra

2,9 mil

Saulo André

800

Liberdade Cristã (Marisvan)

600

Fabiano Dias dos Santos

200

Inimigozinho da Santa Igreja

100

Total

232.300

 
Sim: de todos os canais que eu conheço e que procurei pesquisando no YouTube, são apenas 14 os focados em refutar o catolicismo (contra 54 do lado católico). É realmente uma guerra de Davi contra Golias, como no discurso vitimista da apologética católica, com a diferença de que eles dizem ser Davi, quando são o Golias. Não apenas eles têm muito mais canais do que os nossos, como os canais deles são infinitamente maiores. Somados, os canais de apologética católica têm mais de 7 milhões de inscritos, e os de apologética protestante têm pouco mais de 200 mil.
 
Isso significa míseros 3% na comparação com os canais católicos, que também têm uma quantidade incomparavelmente maior de visualizações, engajamento e de atividade. Dos poucos canais de apologética protestante que existem no YouTube, basicamente só três são realmente ativos, mesmo que por “atividade” leia-se um vídeo por semana sobre algum tema católico: o meu, o do Areópago e o do Bruno Lima. Sendo que até esses dias esses outros dois canais literalmente nem existiam (o do Bruno Lima foi criado ano passado e o Areópago criou o dele há apenas nove meses), e eu só passei a falar de catolicismo no meu de dois anos pra cá.
 
Há outros canais com bons vídeos refutando o catolicismo, mas com um percentual muito baixo de vídeos com essa temática (como o do Yago Martins, do Caio Modesto e do Pr. Mocellin, que não incluí na lista pela mesma razão que não incluí Guilherme Freire, Brasil Paralelo, Olavo e Pietra do lado católico). Moisés e Juan são quase totalmente focados no insta, assim como o Pr. Elizeu, que foi o maior ganho que a apologética protestante teve nos últimos anos, mas cujo canal no YouTube não tem quase nada de conteúdo sobre catolicismo e por isso não está na lista (ele é bem mais engajado no insta, onde posta muito conteúdo anticatolicismo e de qualidade). É verdade que no Instagram a desproporção deve ser menos brutal pro nosso lado do que no YouTube, mesmo assim continuaria grande (até porque também há muitas páginas de apologética antiprotestante no insta que não estão no YouTube).
 
Basicamente, quando um católico diz que “os protestantes estão atacando o catolicismo”, eles pegam como exemplos falas de pastores que criticam o catolicismo uma vez na vida e outra na morte, como Augustus Nicodemus, Silas Malafaia e Rodrigo Silva. Mas até mesmo as figuras mais “ecumênicas” do catolicismo (como o frei Gilson e o padre Reginaldo Manzotti) têm falas antiprotestantes, e nem por isso a gente diz que eles “odeiam o protestantismo” ou os taxamos de “antiprotestantes”. O vitimismo é todo do lado deles.
 
A apologética anticatólica é tão esvaziada de nomes que por muito tempo quem representava o protestantismo nos debates era gente que literalmente nunca tinha escrito sequer um tuíte sobre catolicismo. Foi assim que o padre de Osasco se aproveitou para fazer sua fama, crescendo pra cima de pastores que não faziam ideia do que estavam fazendo ali. Tente encontrar uma só publicação do Tassos refutando qualquer coisa do catolicismo até o debate dele com o doutor de Osasco, ou veja o quanto que o Victor Fontana critica o catolicismo no canal dele. Não preciso comentar nada.
 
Foi exatamente nesse período que se viu a maior “onda de conversões” ao catolicismo na internet, mesmo que seja um fenômeno meramente digital que não representa nem perto de 1% da sociedade como um todo (razão por que os últimos censos mostram que o catolicismo continua despencando em queda livre). As pessoas mais leigas viam um padre batendo num protestante que nem apologista era e que mal conhecia a doutrina católica, e na falta de qualquer canal de apologética protestante no YouTube que o refutasse (pois ainda não existia nenhum) o bocó caía no conto do vigário (literalmente).
 
Felizmente, as coisas estão mudando. Neste ano estamos vendo os canais de debates convidando finalmente apologistas para debater com católicos e estes sendo consequentemente derrotados de lavada, que é o que naturalmente acontece quando alguém conhece as artimanhas deles (mesmo quando é um debate 1x2, como no caso do Areópago contra Friske e Conde). Já perdi as contas de quantos comentários já recebi de gente dizendo que estava a ponto de se converter ao catolicismo quando conheceu o meu canal e viu o buraco em que estava se metendo, e vejo os mesmos comentários nos canais parceiros.
 
Apenas para citar um exemplo, recebi esse email ontem mesmo:
 
Há mais ou menos um ano atrás estava passando por algumas tribulações quanto à minha religião, em certo momento fiquei tendencioso a me tornar católico (já estava meio que aceitando essa ideia). Depois de muita oração, pedindo a Deus que me ajudasse a entender o que estava acontecendo e se essa Igreja Católica Romana era a "verdadeira" mesmo, acredite se quiser, no dia do meu aniversário (04/04) fui presenteado com o seu debate contra os católicos no RedCast.
 
Até então eu achava que não era possível debater contra católicos, eles sempre passam essa imagem de sabedoria e de terem a história à favor deles, eu tinha um certo medo de ir atrás dessa verdade então eu nunca pesquisava sobre o assunto (tal medo e mentira que eu acredito ter sido soprada ao longo dos anos por Satanás na minha cabeça, posso estar errado, mas acredito que foi isso), até que o algoritmo me trouxe seu debate de alguma forma, não sei como, pois eu não acompanho o canal do RedCast e até aquele dia eu nem sequer pesquisava sobre o assunto de religião.
 
Para finalizar a história, depois da semana que eu vi seu debate tomei a decisão de compilar todos os artigos que você, Bruno Lima e os apologistas católicos haviam feito, utilizando a IA mais imparcial e potente a época (Claude Opus 4.6), para eu verificar os dois lados da moeda e me certificar de que eu não estava sendo tendencioso (já que eu venho de berço evangélico). Para minha surpresa vocês dominaram todos, não só os brasileiros como Dave Armstrong que é idolatrado (cegamente) lá fora nos EUA (...)
 
Mesmo assim, tenha em mente que os nossos canais continuam pequenos como uma formiga na comparação com o alcance dos canais deles, e que uma quantidade significativa de almas deve continuar se perdendo todos os dias por não conhecer o contraponto ou pela preguiça de pesquisar mais a fundo (vou me conter para não fazer nenhuma piada de “duas semanas” aqui). Mesmo com a ascensão recente desses excelentes canais de apologética protestante e com um engajamento um pouco maior de canais grandes que não eram nem são focados em catolicismo, a disputa ainda é de Davi contra Golias – com a diferença de que o Davi aqui tem 3% do tamanho do Golias, bem diferente da história que conhecemos.
 
Como não podem negar essa realidade, eles dizem que não “atacam” o protestantismo, só “defendem” a Igreja Católica – como se chamar Calvino de ditador da pior teocracia da história, dizer que Lutero foi genocida e suicida, inventar a existência de uma “Inquisição protestante”, mentir dizendo que os protestantes mataram mais bruxas do que os católicos e atribuir absolutamente todos os males da humanidade na conta da Reforma (incluindo abortismo, homossexualismo, ateísmo, materialismo, liberalismo, comunismo e capitalismo) fosse apenas “defender a Igreja”, mas um protestante que diga que “todos pecaram” está “atacando” a Igreja deles.
 
E mesmo se isso fosse verdade, chega a lacrimejar os olhos de emoção essa luta heroica que uma enormidade de canais católicos travam contra meia dúzia de canais protestantes que não chegam nem a 4% do tamanho deles. Deveriam fazer um filme apoteótico narrando essa história de tanta bravura e heroísmo.
 
Basta assistir a qualquer debate entre católicos e protestantes pelo chat ao vivo ou pela caixa de comentários que basicamente só tem comentários católicos sempre, independentemente do debate e do quanto o debatedor católico apanhou, justamente porque a disparidade numérica entre ambos é brutal (e a grande culpa disso é dos apologistas protestantes da apologética tradicional, focados em bater apenas em “seitas” e a discutir questões internas menores, como já abordei neste artigo).
 
A verdade é que até eles sabem que esse discurso de “todos contra eles” é a mais pura balela, mas eles precisam manter o discurso para insuflar o ódio do bando de zumbis tridentinos que depois aparecem nos ameaçando de morte e xingando de tudo o que é nome. Da boca pra fora, eles dizem que todos os atacam, mas muito curiosamente eles nunca “se defendem” dos “ataques” de ninguém, só dos protestantes. Enquanto o meu canal tem até o momento 230 vídeos refutando o catolicismo, se somar todos esses 54 canais de apologética católica não dá 10% disso. A preocupação deles é uma só: os protestantes.
 
Não é à toa que a apologética contra o ateísmo é e sempre foi carregada nas costas pelos evangélicos, não só aqui no Brasil mas no mundo todo. Nos Estados Unidos, por exemplo, quando pensamos em apologética contra o ateísmo pensamos em William Lane Craig, Alvin Plantinga, John Lennox, Alister McGrath, Frank Turek, Norman Geisler, Ravi Zacharias, Gary Habermas, Ben Witherington, William Dembski, Paul Copan, Daniel Wallace e Lee Strobel. O que todos eles têm em comum, além de serem os principais representantes do Cristianismo contra o ateísmo? Todos são protestantes.
 
O único católico que eu me recordo de estar na linha de frente engajado contra o ateísmo nos debates é o Dinesh D’Souza, que merece uma menção honrosa. Isso não significa que os católicos não tenham muitos apologistas do lado deles: eles têm uma infinidade, mas estão todos preocupados em atacar (digo, em “se defender”) o protestantismo. Enquanto você vê uma infinidade de apologistas protestantes debatendo com ateus, você vê uma infinidade de apologistas católicos debatendo contra o James White, que está praticamente sozinho na apologética contra o catolicismo (ao mesmo tempo em que ele também se engaja na militância contra o ateísmo, enquanto parasitas como Dave Armstrong passam literalmente o dia todo vivendo só de atacar o protestantismo e nada mais).
 
Ou seja, enquanto os evangélicos estão mais preocupados em defender a fé cristã contra os ateus, os católicos estão mais preocupados em defender o catolicismo romano contra os protestantes, pois pra eles é até melhor que os evangélicos cedam espaço aos ateus. Aqui no Brasil não é diferente: quase todos os canais de apologética contra o ateísmo são protestantes (isso inclui os canais do Jadison, do Galvão, do Fugita, do Apologeta, do Yaakov, do Prof. Celio, do Luiz Eduardo, do Paulo Victor Siqueira, do Claudemir, do Rodrigo Silva, do Lutzer, do Otangelo, do Rangel, do Leonardo Oliveira, do Eberlin, do saudoso Adauto Lourenço e o meu próprio).
 
Mais uma vez, há apenas um católico que eu me lembre e que merece uma menção honrosa: Emerson Oliveira, do Logos Apologética. Isso significa que há pelo menos 54 canais católicos engajados na militância contra o protestantismo, mas apenas um engajado na militância contra o ateísmo (enquanto a quantidade de canais protestantes contra o ateísmo é bem maior do que contra o catolicismo). Mais uma vez, chama a atenção que eles se digam os perseguidos por tudo e por todos, mas os únicos realmente preocupados em defender a fé cristã sejamos nós.
 
A ironia é tanta que certo ex-protestante da lista só fazia vídeos contra o ateísmo na época em que ainda era protestante, mas foi só se tornar católico que direcionou todos os seus esforços imediatamente a combater o protestantismo e até se esqueceu que o ateísmo existe. Depois, na maior cara de pau, disse que era um “anticatólico que odiava a Igreja” quando era protestante, quando eu literalmente sequer sabia que ele era protestante de tanto que ele escondia isso a sete chaves, sem nunca ter falado um pio contra o catolicismo.
 
Mas isso resume todo o ponto: evangélicos estão mais preocupados em defender o Cristianismo, e católicos em atacar quem faz isso. Depois simplesmente repetem discursos prontos feito papagaios sem personalidade (“evangélicos odeiam o catolicismo”), mesmo quando isso contradiz o histórico de vida deles mesmos e eles sabem que estão sendo desonestos.
 
No papel, dizem eles, “todos estão contra a Santa Igreja e nós apenas nos defendemos desses ataques”. Na prática, eles não estão nem aí com todos os outros, os únicos a quem eles respondem somos nós e essa resposta está longe de ser uma apologética (defesa da fé), mas é recheada de ataques, calúnias, insultos, ameaças, zombarias e desonestidade sem fim.
 
Também no papel, dizem eles, os evangélicos “vivem atacando a Santa Igreja”. Na prática, esses evangélicos malvadões que “atacam” a Santa Igreja (leia-se: que ousam refutar as mentiras e embustes históricos deles) mal preenchem uma mão (do Lula), enquanto eles têm um verdadeiro batalhão para nos atacar dia e noite com um alcance e ímpeto infinitamente maiores. Ironicamente, a maioria desses que dizem que nós somos “obcecados com a Igreja Católica” e que “vivemos para atacar a Santa Igreja” são os mesmos que vivem por aí espumando pelos dentes e vomitando ódio contra a gente 24h por dia, parasitando em todos os canais católicos ou protestantes com suas práticas habituais de vandalismo digital.
 
A verdade é que eles não toleram o contraponto, porque o modelo de Igreja e de Estado que eles defendem é aquele em que o “herege” tem direito ao “contraponto” enquanto é torturado numa masmorra por um inquisidor ou queimado num auto da fé. É por isso que eles se irritam tanto com um simples apologista que faz dois vídeos semanais (às vezes nem isso) refutando algum católico, mesmo eles tendo uma legião de apologistas que postam com muito mais frequência contra o protestantismo ou fazem lives diárias de 6h de duração xingando e ameaçando a tudo e a todos.
 
Mas nem sempre o questionamento do título do artigo vem de católicos. Às vezes, quem pergunta isso são protestantes que queriam que eu falasse apenas sobre ateísmo, sobre outras “seitas” ou sobre as mesmas discussões de sempre que todo mundo discute por aí (pré vs pós, arminianismo vs calvinismo, etc). Já recebi comentários de gente dizendo coisas como “o catolicismo está morto, vamos refutar o Islã”, ou “o verdadeiro perigo são os adventistas”. Nem sempre isso implica que a pessoa em questão ignore o fato do catolicismo ser herético (embora muitas vezes o questionamento parta de quem julga os católicos irmãos e o catolicismo cristão), mas sempre implica que o catolicismo não deveria ser priorizado em detrimento de outros assuntos.
 
Mas embora o catolicismo esteja caindo, o maior erro que alguém pode cometer é subestimar o inimigo. Católicos ainda são a esmagadora maioria da população, com mais do dobro de evangélicos (com 56% dos brasileiros). Eles não apenas são numericamente muito superiores, mas têm muito mais recursos financeiros, muito mais influencers políticos ditos “intelectuais” e muito mais institutos que lhes garantem uma hegemonia cultural.
 
Não existe nenhuma versão protestante que sequer chegue perto de um “Brasil Paralelo”. Não existe nenhum apologista protestante que sequer chegue perto do alcance de um padre Paulo Ricardo. Não existe nenhum “guru” protestante que sequer chegue perto da influência que Olavo teve. E tudo isso significa status, influência, conversões. Até mesmo a estética é explorada por eles a fim de conseguir conversões, e num país de QI tão baixo, não são poucos os que se seduzem por ela.
 
Uma das principais lições que o estrategista chinês Sun Tzu ensinou em “A Arte da Guerra”, há 2500 anos, é que quanto mais o adversário pensar que você é fraco, melhor pra você. Só ele tem a ganhar quando você o subestima. O catolicismo ainda é a maior religião, a mais perigosa e a que mais nos ataca, e ignorar isso – como a imensa maioria dos ditos “apologistas” de nosso meio tem feito – é assinar um atestado de morte. Enquanto os papistas dizem que nós vivemos para atacá-los, a verdade é exatamente a oposta: não há nada que esteja sendo mais vergonhosamente negligenciado em nosso meio do que a apologética contra o catolicismo, como se os católicos nem existissem mais.
 
Apenas a título de exemplo, enquanto existe um punhado de apologistas contra o catolicismo, há uma imensidão de apologistas contra o adventismo, incluindo todos os mais famosos cujos nomes creio que nem precisam ser citados (spoiler: um deles é um papa do protestantismo). Não vou entrar aqui no mérito se os adventistas são seita ou não, mas mesmo se fossem seita, e mesmo se fossem uma seita tão herética quanto a católica (como sustenta o papa do protestantismo), ainda assim os números não mentem: são 56,7% de católicos frente a 0,8% de adventistas. Só uma besta quadrada acha que eles deveriam ser priorizados.
 
O problema é que a apologética protestante está cheia de bestas quadradas que ignoraram o catolicismo por décadas fazendo a fama em cima de adventistas, TJs, mórmons, calvinistas/arminianos e pré ou pós, e agora estão vendo o resultado do seu trabalho: uma desproporcionalidade gritante entre apologistas católicos antiprotestantes e apologistas protestantes anticatólicos, com os católicos controlando todas as esferas e conseguindo até aquilo que era inimaginável há pouquíssimo tempo (converter gente do protestantismo pra seita deles, incluindo pastores e filhos de pastores).
 
Eu concordo que existem coisas piores que o catolicismo. O Islamismo é pior que o catolicismo, mas eles são menos de 0,1% dos brasileiros. Não existe ninguém se convertendo ao Islã no Brasil, e se eu fizesse apologética contra o Islamismo estaria falando às moscas (caso bem diferente do que seria se eu fosse francês ou inglês). Mesmo na Europa, o Islã não cresce por converter pessoas, mas por uma taxa de natalidade imensuravelmente maior que a média europeia, e dificilmente os meus artigos evitariam que os muçulmanos tivessem mais filhos.
 
Eu também concordo que o ateísmo é pior que o catolicismo, e não à toa tenho produzido muito conteúdo sobre isso também. Mas eles ainda são cerca de 1% a 3% da população (não se engane: embora o último censo tenha registrado 9% de “sem religião”, a maioria é crente desigrejado ou gente que não gosta da palavra “religião”, mas que acredita em Deus e até frequentam igreja). Entre mórmons e católicos eu tenho sérias dúvidas, mas eles chegam no máximo a 0,7% (com estimativas que vão desde 0,1%). Focar neles e ignorar a imensa massa católica que ainda tem a hegemonia cultural e governa o nosso país é loucura.
 
Recentemente foi inaugurada no Ceará a maior estátua de Nossa Senhora do mundo, com 54 metros de altura (quase o dobro do Cristo Redentor). O detalhe: ela foi inteiramente paga com dinheiro público (singelos R$ 3,2 milhões pagos com os nossos impostos, inclusive de quem não é católico). Imagine o alarde que seria se o Estado tivesse bancado uma estátua gigantesca e caríssima de Maomé, Ellen White ou Joseph Smith com dinheiro público – o papa do protestantismo perderia os poucos cabelos que lhe restaram. Mas eles estão tão acostumados com a hegemonia e a influência católica que nem dão atenção quando é uma estátua católica da deusa católica.
 
E essa displicência assustadora com o monstro que está bem diante dos nossos olhos é exatamente o que os nossos adversários querem. Quanto mais focarmos em seitas minoritárias e em discussões internas, mais eles riem à toa.
 
Eu não estou dizendo que devemos ignorar completamente as seitas minoritárias e falar de catolicismo. Estou dizendo que elas não deveriam ser a prioridade, e a razão é tão óbvia e tão escancarada que só de eu precisar escrever um artigo inteiro explicando o porquê já mostra o quanto muitos estão numa completa desconexão com a realidade.
 
A verdade é que os evangélicos cresceram tanto nas últimas décadas que se acomodaram, e agora estão mais preocupados em não perder fiéis do que em conquistar novos. E como os que mais arrebanham fiéis são essas tais seitas minoritárias (mesmo que todas elas somadas não cheguem a 2%), elas passaram a ser o foco das atenções. E esse relaxo tem custado fiéis até mesmo para a seita majoritária da qual ninguém fala, que se engajou numa “Contrarreforma” enquanto a maioria dos apologistas protestantes sequer se deu conta disso (porque estão em Nárnia combatendo os minotauros TJ e a feiticeira adventista).
 
Mais uma vez: não se trata de não combater os erros onde quer que eles estejam; trata-se de ter em mente um senso de proporções e priorizar a maior ameaça. Concentrar todos os esforços em refutar “seitas minoritárias” e pontos secundários dentro do próprio protestantismo é como se preocupar em matar a barata no quarto enquanto bandidos armados invadem a sua casa. A única razão por que tem gente que acha isso sensato é porque este é precisamente o modus operandi da grande maioria dos ditos apologistas protestantes, e a maioria simplesmente assume que isso é o certo independentemente de fazer sentido ou não, porque estão acostumados apenas a repetir padrões e não a pensar por conta própria.
 
Alguns chegam até a passar pano para as heresias da “seita majoritária” de tão obcecados que são em refutar as “seitas majoritárias”, considerando os católicos irmãos ou criando cursos de apologética onde refutam tudo, menos o catolicismo. Isso porque é muito mais fácil bater numa minoria insignificante que não representa nenhuma ameaça real. Quando eles começam a falar sobre catolicismo, se assustam com a quantidade avassaladora de comentários católicos dos mais odiosos e virulentos, com as ameaças e perseguições, e preferem voltar à zona de conforto (i.e, falar das mesmas coisas de sempre).
 
Lembremos que estamos falando de uma religião que não só é predominante em nosso país desde sempre, mas que por muito tempo proibiu o nosso culto, destruiu nossas igrejas e assassinou nossos irmãos em praça pública (após submetê-los à tortura e a numerosas humilhações). E o mais importante: só não continua fazendo hoje o mesmo que fazia na época porque perdeu o poder político e o controle que tinha sobre o Estado, não porque todo mundo tenha se tornado bonzinho, paz e amor (basta ver quantos deles fazem abertamente apologia da Inquisição sem que ninguém se levante contra isso).
 
Enquanto a apologia do holocausto é crime (como deveria ser) e todos se horrorizam com isso, militantes católicos fazem apologia da Inquisição em plena luz do dia, em canais com milhões de espectadores, às vezes até clamando a volta dela, e ninguém se escandaliza nem faz nada a respeito. Enquanto quase todos se horrorizam com o espiritismo (e com razão) por consultar os mortos, os católicos fazem rigorosamente a mesma coisa, apenas chamando por um nome diferente (invocação de mortos), com a diferença de serem muito mais manifestadamente idólatras, e poucos se escandalizam com isso.
 
Isso acontece justamente porque a consciência de muitos está cauterizada. E aqui não me refiro à consciência dos católicos, mas de protestantes ou supostos protestantes que veem tudo isso acontecendo debaixo do nariz deles e ainda têm coragem de chamá-los de “irmãos” (e de se levantar contra quem os refuta). Como vivemos num país católico, essas práticas estão tão enraizadas e impregnadas na consciência popular que tendemos a encará-las com naturalidade, mesmo quando são verdadeiras aberrações. E quando alguma outra seita diz qualquer coisa igualmente errada, mas muito menos aberrante, a reação é desproporcionalmente mais forte, não porque a heresia seja mais grave, mas porque ninguém está acostumado com ela.
 
Não é preciso mencionar nomes, mas teve um que debateu com o padre de Osasco que só faltava pedir perdão de joelhos a cada vez que ousava fazer uma crítica ao catolicismo – e isso num debate sobre o tema –, mas para a sorte dele isso raramente era preciso, já que não criticava nada. E isso enquanto o padre atacava o protestantismo sem dó nem piedade, inteiramente desprovido de qualquer freio na língua ou receio do que as pessoas do outro lado da tela pensariam dele (especialmente os da religião que ele estava atacando). Gabriel Ennes chama esse tipo de gente de “teólogo gente boa”, mas eu preferiria chamar de teólogo acovardado mesmo.
 
Em meio a todo esse cenário caótico, uma coisa precisa ser dita: cada vez mais gente tem se conscientizado de tudo isso que eu explanei aqui, e muitos teólogos e apologistas que antes nunca nem abriam a boca para falar de catolicismo agora estão saindo da caverna, dando a cara a tapa e se expondo para debater e refutar essa gente. Seria um indício de que tempos melhores virão? Só Deus sabe. De todo modo, continuarei aqui como sempre estive, gostem ou não, queiram ou não. Por Cristo e por Seu Reino.

Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (youtube.com/LucasBanzoli)

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