25 de julho de 2026

0 A sucessão apostólica prova que a Igreja Católica Romana é a verdadeira?


 

*Nota introdutória: O artigo a seguir é extraído do livro que eu estou escrevendo, “O mínimo que você precisa saber para não ser católico”. Ele é uma continuação do tópico anterior sobre o que significa a Igreja ser a “coluna e sustentáculo da verdade”, que eu postei recentemente aqui.
 
***
 
• Argumento católico: “A Igreja Romana é a verdadeira porque possui sucessão apostólica”
 
Por “sucessão apostólica”, compreende-se os bispos que após a morte dos apóstolos ocuparam a cátedra do apóstolo em questão e deram continuidade à liderança daquela igreja. Os católicos se gabam de uma lista supostamente ininterrupta de 267 papas, que começa com Pedro e vai até Leão XIV, e para muitos essa é a prova de que a igreja deles é a verdadeira. O problema já começa quando as outras igrejas “apostólicas” também têm suas próprias listas de sucessão, que também iniciam com um apóstolo. Se a sucessão apostólica fosse um indicativo da “igreja verdadeira”, Roma deveria ser a única igreja com sucessão até hoje, mas isso está longe de ser verdade.
 
Até mesmo o Vaticano reconhece que a Igreja Ortodoxa, só pra citar um exemplo, também possui sucessão apostólica válida, o que já desmonta por si só esse argumento como uma prova cabal. A Sé de Constantinopla teria sido fundada pelo apóstolo André, que consagrou Stachys como o primeiro bispo de Bizâncio, cátedra atualmente ocupada pelo patriarca ecumênico Bartolomeu I. Na verdade, se alguém poderia usar o argumento da “sucessão apostólica” a seu favor com mais propriedade seriam os ortodoxos, já que Roma alega sucessão por parte de Pedro apenas, enquanto os ortodoxos têm sucessão por parte de nada a menos que sete apóstolos, incluindo Pedro também!
 
A tabela abaixo ajuda a entender a coisa:

 

Apóstolo

Patriarcado ortodoxo

Patriarca atual

André

Patriarcado Ecumênico de Constantinopla

Bartolomeu I

Pedro

Patriarcado Ortodoxo Grego de Antioquia

João X

Marcos

Patriarcado Ortodoxo Grego de Alexandria

Teodoro II

Tiago

Patriarcado Ortodoxo Grego de Jerusalém

Teófilo III

Barnabé

Igreja Ortodoxa de Chipre

Jorge III

Paulo

Igreja da Grécia (Atenas)

Jerônimo II

Simão Zelote

Igreja Ortodoxa da Geórgia

Ilia II

 
O caso mais fascinante é, como já abordamos aqui, o do Patriarcado Ortodoxo Grego de Antioquia, porque também tem Pedro como fundador, mas não está em comunhão com Roma. Assim, Roma diz ter Pedro apenas, e os ortodoxos dizem ter Pedro e mais seis do lado deles. Se o argumento da sucessão apostólica pesasse mais para algum lado, certamente não seria para o dos romanos.
 
Ainda temos os casos de igrejas que não pertencem nem à comunhão ortodoxa nem à romana, mas que também têm sucessão apostólica. Tal é o caso da Igreja da Armênia (Não-Calcedoniana), fundada por Judas Tadeu, da Igreja Assíria e da Igreja da Índia, fundadas por Tomé, da Igreja da Etiópia, fundada por Filipe, entre outras. O fato é que, se o argumento da sucessão apostólica prova alguma coisa, é que ele não prova coisa alguma.
 
Católicos dizem “veja, a minha igreja tem sucessão apostólica!” como se isso significasse alguma coisa, quando trocentas outras igrejas podem dizer o mesmo, e nem por isso elas são verdadeiras. É mais um argumento tosco do tipo “engana bobo”, porque alguém que não tenha familiaridade nenhuma com a história da Igreja pode ficar deslumbrado pensando que Roma é a única igreja com a tal “sucessão apostólica” e por isso ela é a verdadeira (o mesmo tipo de gente que acha que só a igreja dele existia por um milênio e meio até surgir Lutero).
 
Se muitas igrejas têm sucessão apostólica mas ensinam coisas diferentes, se excomungaram mutuamente e não estão em comunhão umas com as outras (nunca é demais lembrar que Bonifácio VIII e Gregório VII condenaram os ortodoxos ao inferno, junto com qualquer um que não se submetesse ao papa), é evidente que a sucessão apostólica não garante a preservação da doutrina. Isso é ainda mais notório quando vamos à Bíblia e notamos que os apóstolos se preocupavam sempre com a preservação da doutrina, mas nunca com a “sucessão apostólica”.
 
Tome como exemplo o texto em que Paulo se despede dos bispos de Éfeso, sabendo que “nunca mais voltariam a vê-lo” (At 20:38), e lhes diz:
 
“Cuidem de vocês mesmos e de todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo os designou como bispos, para pastorearem a igreja de Deus. Sei que, depois da minha partida, lobos ferozes penetrarão no meio de vocês e não pouparão o rebanho. Dentre vocês mesmos se levantarão homens que torcerão a verdade, a fim de atrair discípulos para si. Por isso, vigiem! Lembrem-se de que, noite e dia, durante três anos, jamais cessei de advertir com lágrimas cada um de vocês” (Atos 20:28-31)
 
Paulo se dirigia aos bispos que ele mesmo instituiu em Éfeso, sabia que nunca mais os veria outra vez, tem a oportunidade de um último discurso, e o que ele diz? Que podem ficar tranquilos, porque se a sucessão apostólica deles é legítima não tem por que se preocupar? Que se tiverem alguma dúvida é só voltarem aos olhos ao Sagrado Magistério romano que é o farol que aponta a verdade ao mundo? Que se alguma apostasia acontecer vai ser só dos que vierem de fora, de gente infiltrada sem sucessão, ou de um monge alemão um milênio e meio depois?
 
Pelo contrário: ele diz que «dentre vocês mesmos» se levantariam lobos para devorar o rebanho. Se nem os próprios bispos que Paulo instituiu em primeira mão estavam imunes à apostasia, imagine os bispos de milênios mais tarde que sucederem aqueles!
 
Outro texto-chave é o que Pedro, escrevendo já no final da vida e sabendo que seu martírio estava próximo, escreve:
 
“Penso que convém, enquanto eu estiver neste corpo, despertar a memória de vocês, porque sei que deixarei este corpo em breve, como o nosso Senhor Jesus Cristo já me revelou. Eu me empenharei para que, também depois da minha partida, vocês sejam sempre capazes de lembrar-se destas coisas” 
(2ª Pedro 1:13-15)
 
Pedro sabia que sua morte estava próxima, mas em vez de dizer para o seu rebanho confiar em seus sucessores (os bispos romanos) porque confiando no magistério é impossível errar na fé, ele faz questão de escrever para eles, porque sabia que escrevendo os cristãos se lembrariam daquelas coisas (i.e, da mensagem do evangelho). É curioso que em toda a carta não vemos um único apelo à autoridade do magistério romano, o que é bastante significativo dado que ele seria ninguém menos que um papa que muito em breve daria lugar a outro.
 
Qualquer um que simplesmente leia as páginas do Novo Testamento nota facilmente que a preocupação dos apóstolos nunca foi com a sucessão apostólica, mas com a doutrina apostólica. Veja com que duras palavras Paulo se dirige aos coríntios:
 
“Pois a dedicação que tenho por vocês provém de Deus. Eu os prometi a um único marido, Cristo, querendo apresentá-los a ele como uma virgem pura. O que receio e quero evitar é que, como Eva foi enganada pela astúcia da serpente, assim a mente de vocês seja corrompida e se desvie da sincera e pura devoção que vocês têm por Cristo. Pois, se alguém tem pregado a vocês um Jesus que não é aquele que pregamos, ou se recebem um espírito diferente do que receberam, ou um evangelho diferente do que aceitaram, vocês o toleram com facilidade” (2ª Coríntios 11:2-4)
 
Todo o temor de Paulo era que seus filhos na fé se desviassem da devoção pura e simples devida somente a Cristo. Em momento nenhum de qualquer uma de suas cartas ele se preocupa se um sucessor é “legítimo”, muito menos diz que se quisessem saber a doutrina verdadeira era só seguir os bispos com sucessão apostólica. A verdadeira sucessão apostólica à luz do Novo Testamento não é a de um bispo tomando o lugar de um apóstolo, mas da doutrina apostólica que se preserva integralmente. Eles sempre se preocupam com a mensagem, não com o mensageiro.
 
Nenhum texto deixa isso mais claro do que esse que vem da boca do próprio Cristo:
 
“’Mestre’, disse João, ‘vimos um homem expulsando demônios em teu nome e procuramos impedi-lo, porque ele não era um dos nossos’. ‘Não o impeçam’, disse Jesus. ‘Ninguém que faça um milagre em meu nome, pode falar mal de mim logo em seguida, pois quem não é contra nós está a nosso favor’” 
(Marcos 9:38-40)
 
Note que essas pessoas que expulsavam demônios em nome de Jesus não eram dos doze, razão por que João queria impedir que continuassem agindo em nome de Cristo (como se os doze fossem os únicos que pudessem falar em nome dele). De acordo com a doutrina católica, esse caso era muito mais grave que o dos protestantes, pois os protestantes não têm “sucessão apostólica”, mas esses outros também não tinham e ainda eram repreendidos pelos apóstolos! No entanto, a resposta de Jesus foi brutal: em vez de repreender essas pessoas, ele repreendeu João por tentar proibi-las!
 
De acordo com a bula de Bonifácio VIII, tais pessoas estariam fora da “barca de Pedro” e portanto não teriam chances de salvação, uma vez que claramente não se submetiam ao pontífice romano (na verdade, eles provavelmente nem sabiam bem quem Pedro era). Mas Jesus mostra que ele não estava preocupado com quem prega, mas com o que prega. Se a pregação é correta, grupos fora dos doze, que não foram diretamente enviados por Jesus nem ordenados pelos apóstolos, tinham o mesmo direito de pregar quanto os discípulos, e estavam cumprindo o mesmo propósito pelo Reino.
 
Isso não significa que os apóstolos não tenham ordenado outras pessoas (presbíteros ou bispos) para cuidar do rebanho quando eles morressem (e também enquanto ainda viviam), significa apenas que essa sucessão por si só não garantia a preservação da doutrina, e portanto tentar identificar a “verdadeira igreja” a partir dela é o mais puro sofisma. Na verdade, os tais “sucessores” dos apóstolos nem mesmo tinham a mesma autoridade dos próprios apóstolos, o que torna o argumento católico ainda mais fraco.
 
Paulo disse que Deus “estabeleceu em primeiro lugar os apóstolos” (1Co 12:28), mas não existem mais apóstolos hoje[1]. Até os tais “sucessores” reconheciam que não tinham a mesma autoridade apostólica dos doze e de Paulo, como diz expressamente Inácio de Antioquia (que sucedeu Pedro após Evódio em Antioquia): “Não vos dou ordens como Pedro e Paulo; eles eram apóstolos, eu um condenado”[2]. Inácio reconhece que tinha menos autoridade do que Pedro e Paulo justamente porque eles eram apóstolos e ele não.
 
O mesmo observamos em toda a literatura patrística. Mesmo que boa parte dos Pais da Igreja fossem sucessores de algum apóstolo, nenhum deles se considerou de igual autoridade que os apóstolos, como se hierarquicamente fosse como um. Agostinho, que é o Pai mais famoso e renomado de todos, escreveu:
 
“Esta classe de escritos [dos Pais] deve ser considerado de menor autoridade, distinguindo-se da Escritura canônica. Pois tais escritos não são lidos por nós como um testemunho do qual seria ilegal manifestar qualquer opinião diferente, pois pode ser que as opiniões deles sejam diferentes daqueles que a verdade exige a nossa concordância” (Carta 93:10)
 
“Mas quem pode deixar de estar ciente de que a Sagrada Escritura canônica, tanto do Antigo como do Novo Testamento, está confinada dentro de seus próprios limites, e que ela está tão absolutamente em uma posição superior a todas as cartas posteriores dos bispos, e que sobre ela não podemos ter nenhum tipo de dúvida ou disputa se o que está nela contida é certo e verdadeiro, mas todas as cartas de bispos que foram escritas ou que estão sendo escritas são susceptíveis de serem refutadas, se há alguma coisa nelas contidas que se desvia da verdade” (Do Batismo, Contra os Donatistas, Livro II, 3)
 
Ele explicitamente citou Cipriano, Ambrósio e a ele próprio como exemplos que incorrem nessa categoria, ou seja, de escritos que não têm a mesma autoridade que a Sagrada Escritura:
 
“Você está encantado com a autoridade desse bispo e ilustre mártir Cipriano, que nós realmente respeitamos, como eu disse, mas como bastante distinto da autoridade da Escritura canônica” (Carta 93:10)
 
“Por mais respeitado que Ambrósio seja, e por mais santo que sabemos que ele é, ele não pode ser comparado com a autoridade da Escritura canônica” 
(Da graça de Cristo e do pecado original, Livro I, 47)
 
“Pois os raciocínios de qualquer homens que seja, mesmo que seja católico e de alta reputação, não é para ser tratado por nós da mesma forma que a Escritura canônica é tratada. Estamos em liberdade, sem fazer qualquer ofensa ao respeito que estes homens merecem, para condenar e rejeitar qualquer coisa em seus escritos, se por acaso vemos que eles têm tido opiniões divergentes daquela que os outros ou nós mesmos temos, com a ajuda divina, descoberto ser a verdade. Eu lido assim com os escritos de outros, e eu gostaria que meus inteligentes leitores lidassem assim com os meus (Carta 148:4)
 
Mas por que os escritos dos Pais da Igreja não tinham a mesma autoridade que a Escritura? A resposta é simples: porque aquilo que foi escrito por um apóstolo tem mais autoridade que aquilo que foi escrito pelos seus “sucessores”, como Agostinho também destaca:
 
“Nos inúmeros livros que foram escritos ultimamente podemos às vezes encontrar a mesma verdade como está na Escritura, mas não é a mesma autoridade. A Escritura tem uma sacralidade peculiar a si mesma. Em outros livros, o leitor pode formar sua própria opinião, e, talvez, de não concordar com o escritor, por ter uma opinião diferente da dele, e pode pronunciar em favor do que ele escreve, ou contra o que ele não lhe agrada. Mas, em consequência da peculiaridade distintiva das Sagradas Escrituras, somos obrigados a receber como verdadeira qualquer coisa que tenha sido dita por um profeta, ou apóstolo, ou evangelista (Contra Fausto, Livro XI, 5)
 
Em suma, apesar dos bispos serem considerados “sucessores” dos apóstolos no sentido de que após a morte dos apóstolos foram eles que assumiram a liderança das igrejas, está claro que eles não tinham a mesma autoridade dos apóstolos. O único caso de sucessão apostólica que preservou a autoridade apostólica foi o de Matias no lugar de Judas, e mesmo assim só pra cumprir a profecia do Salmo 109:8 (cf. At 1:20-22). Tanto é que após a morte de Tiago (o filho de Zebedeu), em Atos 12:1, ninguém mais é escolhido para substitui-lo com a mesma autoridade apostólica (como aconteceu com Judas).
 
Portanto, os bispos que “substituíram” os apóstolos não eram infalíveis, não eram inerrantes nem estavam imunes à apostasia (como é evidente em Atos 20:30). Se nenhuma igreja está à salvo da apostasia por ter um bispo com “sucessão apostólica”, o próprio argumento da sucessão apostólica contra o protestantismo se mostra completamente inútil. Caberia ao católico provar que para uma igreja ser “verdadeira” ela precisa ter sucessão apostólica (como se o fato de um bispo suceder um apóstolo que viveu trocentos anos antes dele garantisse integridade doutrinária de uma forma mágica), mas isso eles mesmos sabem que não tem como provar com a Bíblia.
 
Cientes disso, o que eles vão argumentar é que Irineu apelou à sucessão apostólica contra os gnósticos, o que não deixa de ser um argumento bastante cínico, já que se existe algum Pai que eles frequentemente rejeitam é Irineu. Irineu foi um conhecido milenarista (o milenarismo é considerado uma heresia pela Igreja Católica atual) que chegou a dizer que Jesus repreendeu Maria por sua «pressa inoportuna»[3] e que “não tinha nenhuma noção da impecabilidade de Maria”[4] de acordo com Philip Schaf, ninguém menos que o maior erudito patrístico de todos os tempos.
 
Por ocasião da controvérsia da páscoa, Eusébio de Cesareia (265-339) diz que Vitor, então bispo de Roma, foi repreendido pelos outros bispos «com bastante energia»[5], e acrescenta que “entre eles estava Irineu”[6]. Irineu também denuncia que os gnósticos “praticam magia, usam imagens, encantamentos, invocações e todos os outros tipos de arte estranha[7], e acrescenta que “eles honram estas imagens, precisamente como os pagãos”[8]. Pra arrematar, ele afirma que a Igreja “não realiza qualquer coisa por meio de invocação de anjos... mas dirige suas orações ao Senhor”[9].
 
Muitos outros exemplos poderiam ser dados, mas está claro que Irineu está longe de ser um bom católico romano (na verdade, ele seria considerado um herege se defendesse hoje as mesmas coisas que defendia em vida, e dependendo da época seria até queimado). Mas quando é conveniente, como quando este mesmo Pai diz que os gnósticos não tinham sucessão apostólica mas os cristãos sim (e cita a sucessão em Roma como um exemplo), suas palavras automaticamente ganham o status de uma lei canônica e ai do protestante que discordar!
 
Irineu poderia estar errado sobre todo o resto, mas se ele diz algo que favoreça os católicos, suas palavras têm peso de Escritura canônica e servem para fundamentar o argumento da sucessão apostólica na falta de textos bíblicos que o façam (seria cômico se não fosse trágico!). Não obstante, é preciso observamos alguns pontos. Em primeiro lugar, Irineu não diz que a falta de sucessão apostólica era por si só a razão que fazia com que os gnósticos estivessem errados. Ele cita uma miríade de argumentos em todos os cinco enormes volumes de sua obra magna contra os gnósticos, recorrendo sempre às Escrituras como a autoridade suprema e mostrando como os gnósticos pervertiam as Escrituras para os seus próprios fins.
 
Entre outras coisas, ele denuncia que os gnósticos “leem coisas que não foram escritas, e procuram acrescentar às suas palavras outras dignas de fé”[10]. Em outro momento, ele escreve a respeito deles:
 
“Quando, porém, são refutados pelas Escrituras, eles se voltam contra essas mesmas Escrituras, como se não fossem corretas nem tivessem autoridade, e afirmam que são ambíguas e que a verdade não pode ser extraída delas por aqueles que ignoram a tradição. Pois alegam que a verdade não foi transmitida por meio de documentos escritos, mas oralmente” 
(Contra as Heresias, Livro III, 2:1)
 
Ou seja, o principal erro dos gnósticos era ir além das Escrituras para encontrar fundamento aos seus ensinos, recorrendo a uma suposta tradição oral sem nenhum rastro, do mesmo tipo que os papistas alegam hoje (até a forma de argumentar é a mesma; falaremos mais sobre isso no capítulo sobre a Sola Scriptura). Então, para reforçar que os gnósticos não tinham qualquer conexão histórica com os apóstolos, e que portanto não podem ter ouvido as tais tradições orais secretas que “preservaram” deles, ele cita a sucessão apostólica que os cristãos tinham e eles não.
 
O ponto todo era: se os gnósticos não tinham qualquer conexão histórica com os apóstolos, como podem ter ouvido os tais “mistérios” que teriam sido revelados a eles e passados adiante de boca em boca? Impossível. Note que o objetivo de Irineu não era refutar a Sola Scriptura ou dizer que se uma igreja não tem sucessão apostólica ela é falsa (como alguns apologistas católicos que nunca leram a obra afirmam). Era exatamente o contrário: refutar uma tradição oral extrabíblica ao mostrar que ela não tem rastro histórico que a conecte aos apóstolos.
 
Vale lembrar que Irineu viveu no segundo século, quando a Igreja ainda era incipiente e nenhum cisma significativo havia ocorrido ainda, o que dava mais credibilidade à sucessão apostólica, já que poucas gerações haviam transcorrido para que a doutrina do evangelho fosse corrompida tão radicalmente (como alegavam os gnósticos). O próprio Irineu era discípulo de Policarpo, que por sua vez era discípulo de João. Esse argumento perderia todo o peso se fosse usado hoje, após mais de duzentas sucessões em vinte séculos, e com dúzias de igrejas diferentes com sucessões diferentes pregando doutrinas diferentes (e se excomungando mutuamente).
 
Vimos no tópico anterior que existem hoje igrejas com sucessão apostólica que negam muitos dos principais dogmas católicos, incluindo aqueles que o católico é obrigado a concordar sob a ameaça de anátema e excomunhão (como a imaculada conceição de Maria, a supremacia e a infalibilidade papal, o purgatório e etc), e outras que aderem até à Sola Fide e à Sola Scriptura, além de negar os dogmas marianos.
 
Se Irineu vivesse nos dias de hoje, de que forma ele poderia usar o argumento da sucessão apostólica para identificar a “verdadeira igreja”, visto que cada igreja apostólica ensina coisas diferentes (e diferentes a ponto de romperem a comunhão umas com as outras e se condenarem ao inferno)? É evidente que tal apelo seria completamente anacrônico nos dias de hoje, embora fizesse algum sentido nos tempos de Irineu.
 
Curiosamente, na mesma época em que Irineu viveu, Tertuliano, um Pai da Igreja tão famoso quanto, escrevia:
 
“A este teste, portanto, serão submetidos pelas igrejas que, embora não derivem a sua fundação de apóstolos ou homens apostólicos (sendo de data muito posterior, pois, na realidade, são fundadas diariamente), uma vez que concordam na mesma fé, são consideradas como não menos apostólicas, porque são semelhantes em doutrina (Da Prescrição dos Heréticos, 32)
 
Tertuliano fala de igrejas sem sucessão apostólica, que não foram fundadas por apóstolos nem derivam deles, mas foram fundadas em «data muito posterior» e que «são fundadas diariamente». Qualquer católico ouvindo isso sem saber o autor poderia pensar que Tertuliano falava das igrejas protestantes, que por não terem sucessão são “falsas” e ponto final. Mas não é o que Tertuliano diz. Ele diz que essas igrejas não são menos apostólicas por não terem sucessão apostólica, já que preservam a mesma fé. O que mais importava para ele não era a sucessão em si, mas a preservação da doutrina.
 
Se Tertuliano soubesse que milhares de anos depois uma igreja com sucessão apostólica corromperia a essência do Cristianismo com doutrinas estranhas acrescentadas séculos mais tarde, e que uma outra igreja sem sucessão apostólica acreditaria basicamente na doutrina apostólica do primeiro século, de que lado você acha que ele ficaria? Do que está errado só porque tem sucessão? Embora a resposta pareça óbvia, nós nem precisamos especular nada, porque ele próprio respondeu isso em vida.
 
Ele disse que Práxeas (um herege modalista) havia “realizado dois negócios do diabo em Roma: expulsou a profecia e introduziu a heresia”[11], e satirizou o bispo de Roma chamando-o de “Pontífice Máximo” e “bispo dos bispos” por ter decretado algo sobre a penitência que ele discordava totalmente[12]. Tertuliano não aceitou a “autoridade” do papa mesmo com a sucessão apostólica, mas aceitou o movimento montanista, ao qual aderiu no final da vida mesmo sabendo que não tinham sucessão apostólica.
 
E embora muitos demonizem o montanismo baseado em espantalhos e caricaturas (como a de que Montano dizia ser o Espírito Santo, o que é completamente falso), o montanismo em sua essência era um movimento que enfatizava mais os dons espirituais, apesar de alguns exageros (naturais de qualquer movimento carismático). O fato é que Tertuliano nunca foi excomungado da Igreja ou considerado um herege em seu próprio tempo. Mesmo após sua morte, muitos Pais da Igreja continuaram citando Tertuliano como uma autoridade.
 
Outra acusação comum é que os nossos pastores são inválidos por não terem sido consagrados por alguém com sucessão apostólica, como se a sucessão apostólica fosse uma condição indispensável para a ordenação. Entretanto, é curioso notar que no capítulo que Paulo dedica só pra tratar das qualificações necessárias ao episcopado (1ª Timóteo 3) ele não mencione nem uma única vez como requisito “ter sido ordenado por um bispo com sucessão apostólica”. Ele chega até a mencionar que o bispo deveria ser “marido de uma só mulher” (v. 2) e “governar bem a sua casa, tendo os filhos em sujeição” (v. 4), acabando com o celibato obrigatório, mas não fala nada sobre “sucessão apostólica”.
 
A própria história da Igreja, desde os primórdios, está cheia de casos de bispos legítimos que não foram ordenados por outros bispos. O documento patrístico mais antigo que temos é a Didaquê (datada entre 60 e 90 d.C, quando alguns apóstolos ainda viviam), que diz:
 
Escolhei (elegei), portanto, para vós bispos e diáconos dignos do Senhor, homens mansos, desapegados do dinheiro, verazes e provados, porque eles também exercem para vós o ministério dos profetas e mestres” (Didaquê, 15:1)
 
Observe que quem escolhia os bispos não eram outros bispos, mas as próprias comunidades. Era a comunidade que tinha a autoridade de discernir quem entre eles tinha as qualificações necessárias ao episcopado, e então elegiam os mais aprovados. Que essa prática continuou comum nos séculos seguintes é evidente pela “Tradição Apostólica” de Hipólito de Roma (escrita por volta de 215 d.C), onde ele prescreve: “Seja ordenado bispo aquele que tiver sido escolhido por todo o povo”[13]. Cipriano (210-258) alude ao mesmo fato quando escreve:
 
“Vemos que vem da autoridade divina a regra de escolher o bispo na presença do povo, à vista de todos, para que todos julguem se é digno ou indigno... o povo tem o poder principal de escolher bispos dignos e recusar os indignos” 
(Epístola 67:3-5)
 
Um exemplo irônico é o da própria Sé romana. Eusébio (265-339) em sua História Eclesiástica nos informa que “estando todos os irmãos reunidos na igreja para a eleição do futuro bispo... subitamente uma pomba voou do alto e pousou sobre a cabeça de Fabiano. Então, todo o povo, como movido por um só Espírito Santo, aclamou com todo o ardor e uma só alma que ele era digno, e imediatamente o colocaram na cátedra episcopal”[14].
 
Note que não foi um bispo que ordenou Fabiano, nem um colégio de cardeais devidamente ordenados com “sucessão apostólica”, como nos dias de hoje. Foi o próprio povo que por ver uma pomba pousar sobre ele achou que isso era um sinal divino e o consagrou bispo de Roma (mesmo sem nem mesmo ter um cargo eclesiástico até então). Foi só a partir do século IV, com a cristianização do Império Romano e a consequente interferência de imperadores, reis e elites locais na eleição de bispos que essa antiga prática foi abolida, para dar lugar ao modelo atual.
 
Ademais, no Novo Testamento e nos escritos cristãos primitivos, a ministração do batismo e da Ceia do Senhor não era prorrogativa exclusiva de bispos inseridos em uma linha de ordenação episcopal. Filipe batizou o etíope (At 8:26-39) sem ser bispo ou presbítero, e a Didaquê registra profetas itinerantes celebrando a eucaristia[15], que na teologia católica é uma atribuição exclusiva dos sacerdotes.
 
Há tantos outros problemas com o argumento da sucessão apostólica que poderíamos facilmente escrever um livro todo só sobre isso. Alguns deles tratarei no capítulo sobre o papado (especialmente sobre Pedro nunca ter sido bispo de Roma, o que corta o argumento da sucessão pela raiz). Outros abordei em outros livros, como no dos “100 maiores acontecimentos da história do Cristianismo”, onde dedico um capítulo inteiro sobre o Grande Cisma do Ocidente.
 
Para resumir em poucas linhas, o Cisma do Ocidente foi quando dois papas disputavam o poder e ninguém sabia qual era o “verdadeiro”, situação que perdurou por quase 40 anos (1378-1417) onde sucessivos papas condenavam-se mutuamente com anátemas e excomunhões, até um concílio ser convocado para resolver a questão dissolvendo os dois e colocando um novo papa no lugar. Mas como nenhum dos dois aceitou renunciar, a Igreja chegou a ter incrivelmente três papas ao mesmo tempo(!), obliterando qualquer apelo a uma linha “ininterrupta” de papas.
 
Outro problema é que essas listas de sucessão (especialmente a romana) estão cheias de erros, com lacunas históricas, fontes duvidosas e fontes conflitantes entre si. Quando um católico entra na Wikipedia ou no site do Vaticano, encontra uma lista bonitinha com 267 papas que leva os leigos a pensarem que isso foi aceito desde sempre como algo certo e líquido, quando na verdade diferentes listas corriam à solta ainda nos primeiros séculos, cada uma diferente da outra e nenhuma concordando entre si.
 
Na lista oficial dos papas atualmente aceita, Pedro é o primeiro, Lino é o segundo, Anacleto é o terceiro e Clemente o quarto. Em Eusébio, Lino é o primeiro[16] e Clemente é o terceiro[17]. Jerônimo diz que a maioria dos latinos de sua época pensava que Clemente tinha sido o segundo[18], embora ele achasse que fosse o quarto[19] e Agostinho achava que era o terceiro[20]! Como se não pudesse piorar, Tertuliano diz que Clemente foi ordenado bispo por Pedro[21], embora na cronologia oficial Clemente tenha começado a governar mais de 20 anos após a morte de Pedro!
 
O primeiro documento a colocar Pedro como o primeiro bispo de Roma é o Catálogo Liberiano (354), que também é o primeiro que se propôs a fazer não só uma lista dos bispos romanos até aquela época, mas também do tempo que cada um governou. Nesse catálogo, após Clemente quem assume é um tal de Cleto, que governou por 6 anos, 2 meses e 10 dias, e depois dele quem assume é Anacleto, que governa por 12 anos, 10 meses e 3 dias. O problema é que esse “Cleto” simplesmente não existe, pelo menos não na lista oficial do Vaticano e em outras listas da época.
 
Alguns podem pensar que foi um erro de copista, que “duplicou” Anacleto encurtando o seu nome, mas isso não explica por que o catálogo dá a cronologia exata do tempo que cada um governou, detalhando informações sobre cada um que são únicas de cada um deles. Isso mostra que essas listas são tão pouco confiáveis que não só alteram a ordem, como até acrescentam nomes que não existem.
 
A razão por que essas listas não apresentam qualquer padrão confiável é que, como os próprios historiadores católicos reconhecem hoje, nenhum desses era um bispo de fato, se levarmos em conta o conceito de episcopado monárquico (onde um bispo sucede outro bispo e está acima de todos os demais). Paul Johnson, o maior historiador católico do século passado, diz que “provavelmente o primeiro bispo romano, em algum sentido significativo, foi Sotero (166-174)”[22], que é da segunda metade do segundo século, um século e meio após a suposta coroação de Pedro.
 
Na obra do Pastor de Hermas, de meados do segundo século, quem governa a igreja de Roma são os presbíteros[23], o que sugere que nessa época Roma ainda não tinha a liderança de um bispo único. E Inácio, que sempre menciona repetidas vezes a autoridade do bispo de cada uma das igrejas às quais escrevia, ignora por completo o suposto bispo romano na carta que escreveu aos romanos (é literalmente a única carta que ele não menciona o bispo, enquanto em todas as outras o bispo é mencionado uma dúzia de vezes).
 
Hoje praticamente já não existe estudioso católico que assuma que Roma tinha um episcopado monárquico desde o início[24], como diziam no passado. Esse é um discurso que só continua vivo na apologética de internet do mais baixo nível, onde estão se lixando para os acadêmicos de sua própria Igreja (mesmo os PhDs que ocupam os mais altos cargos na Igreja e cujos livros foram aprovados pelo próprio Vaticano), porque só o que interessa é o que serve para fins proselitistas para ser usado contra os protestantes.
 
O famoso padre, historiador e teólogo Raymond Brown, classificado como o maior estudioso católico dos Estados Unidos, cujos livros até hoje têm o Imprimatur da Igreja (garantindo que estão livres de erros teológicos), escreveu que “em algum lugar no segundo século (provavelmente na metade do século) a Igreja Romana desenvolveu a estrutura de um singular bispo e colégio de presbíteros, assim como outras igrejas tinham desenvolvido ou desenvolviam essa estrutura durante o segundo século”[25]. Ele acrescenta que
 
é muito improvável que Clemente fosse chamado de o bispo de Roma. Ele seria, numa moderna terminologia, o secretário executivo da Igreja. No entanto, desde que ele foi lembrado como o mais proeminente dos presbíteros de seu tempo, seu nome aparece na lista como bispo de Roma.[26]
 
Em outras palavras, nenhum desses “primeiros papas” era realmente um papa, porque pra começo de conversa nem bispos de Roma eles eram. Eram apenas presbíteros destacados, e mais tarde (quando Roma desenvolveu o modelo de episcopado monárquico) retroprojetaram seus nomes de forma anacrônica como se fossem bispos. É por isso que nos séculos seguintes ninguém sabia ao certo quem sucedeu quem, já que nenhum deles havia de fato “sucedido” o outro, uma vez que eram todos presbíteros que viveram numa mesma época. Naturalmente, então, qualquer tentativa de fazer uma “lista” seria artificial e falha.
 
Uma vez que a própria “lista dos papas” é uma lista falsa, que falha justamente onde mais deveria acertar (no começo de tudo), argumentar com base em uma sucessão apostólica de bispos nada mais é que uma falsificação histórica. E mesmo se não fosse o caso, como já vimos, esse argumento é inteiramente desprovido de base bíblica, não tem sustentação lógica, contradiz todo o ensino do Novo Testamento e nem mesmo nos ajuda a encontrar a tal “igreja verdadeira”, já que numerosas igrejas com sucessão apostólica sequer estão em comunhão umas com as outras, mostrando o quão completamente inútil é o apelo à sucessão.
 
E agora a cereja do bolo: ainda que todo o argumento católico fizesse algum sentido e passasse no teste bíblico, lógico e histórico, nem assim isso nos levaria necessariamente a abandonar o protestantismo, haja vista que a Igreja Anglicana (que é protestante) tem sucessão apostólica. A razão por que Roma não reconhece a sucessão apostólica dos anglicanos não é por uma razão histórica, porque historicamente falando os mesmos bispos “legitimamente ordenados” (como católicos) adotaram uma confissão de fé protestante e consagraram outros bispos legitimamente ordenados (como protestantes).
 
Diferente do que pensa o papista de internet que nunca pegou um livro de história na vida pra estudar, a Igreja Anglicana não foi “fundada no século XVI por Henrique VIII”. Esse mito é tão popular na internet que até eu me impressionei quando comecei a estudar o que os historiadores sérios disseram a esse respeito e como até os católicos são unânimes em reconhecer que Henrique VIII não era protestante nem fundou igreja nenhuma, mas um católico nacionalista que se manteve fiel aos dogmas católicos até o último suspiro (com exceção do papado, pois na cabeça dele o único “papa” era ele).
 
Não há necessidade de me delongar sobre isso porque já dediquei uma longa seção a esse respeito no primeiro volume do meu livro dos “500 Anos da Reforma: Como o protestantismo revolucionou o mundo”, onde mostro inclusive as confissões de fé de Henrique VIII que eram todas católicas, e como os protestantes eram assassinados em massa no seu regime de terror (um deles, John Lambert, foi queimado a fogo lento após debater pessoalmente com Henrique VIII sobre a transubstanciação e se recusado a aceitar o dogma católico[27]).
 
A Igreja da Inglaterra (que já era chamada de “anglicana” desde muito antes de aderir à Reforma, cujo nome remete aos anglo-saxões dos quais os ingleses provêm) só passaria a adotar as doutrinas reformadas no breve reinado de Eduardo VI, logo sucedido por Maria a Sanguinária, que restaurou o regime de terror católico em plena comunhão com o papa e celebrou esse retorno com um banho de sangue de protestantes do país (período no qual John Foxe escreve o famoso “Livro dos Mártires”). Foi só com Isabel que o protestantismo é consolidado na Igreja da Inglaterra, mais precisamente no Ato de Uniformidade de 1559.   
 
Tudo isso é apenas para pontuar que o protestantismo não criou uma igreja nova na Inglaterra, como se antes existisse a Igreja Católica e ela tivesse sido substituída pela “Igreja Anglicana”. A Igreja Anglicana nada mais é do que a Igreja da Inglaterra que já existia desde que o Cristianismo chegou ali, mantendo a mesma hierarquia, os mesmos bispos e até os mesmos ritos, apesar da doutrina da Igreja ter sido reformada. Portanto, se a sucessão apostólica for entendida como uma “corrente física” de imposição de mãos repassada de bispo pra bispo através dos séculos, os anglicanos possuem sucessão apostólica no sentido mais pleno do termo.
 
A razão por que Roma não reconhece essa sucessão não é histórica, mas teológica. Ela não aceita a sucessão apostólica anglicana porque para ela a sucessão só é válida se acompanhada da continuidade doutrinária, e como eles abandonaram a doutrina católica (em especial a transubstanciação), essa sucessão é considerada inválida. Curiosamente, o argumento que eles usam para invalidar a sucessão dos anglicanos é um verdadeiro presente para os protestantes, pois é justamente o que sempre dissemos: a sucessão de um bispo por outro não tem nenhum valor se não acompanhada da continuidade doutrinária.
 
O problema é que quem rompeu essa continuidade doutrinária não foram os anglicanos, mas os próprios romanos. A partir do momento em que Roma inventou doutrinas que não constam na Bíblia, que nunca foram aceitas pelos Pais e que não são recebidas por nenhuma outra igreja (como é o caso da imaculada conceição), ela está inserindo uma inovação doutrinária que quebra com a continuidade – exatamente o mesmo que eles denunciam nos anglicanos e usam como pretexto pra invalidar a sucessão deles.
 
Na verdade, os anglicanos apenas deram continuidade à doutrina original, descartando a descontinuidade romana (como um programa antivírus que elimina um vírus para restaurar o pc à sua integridade original). De todo modo, o fato de Roma admitir que a sucessão apostólica só é válida quando há continuidade doutrinária prova exatamente o nosso ponto: o que realmente importa no fim das contas é a ortodoxia doutrinária, não a mera sucessão física. E isso é o maior tiro no pé que eles poderiam dar, pois não há nada mais estupidamente fácil do que provar biblicamente e historicamente a descontinuidade das inovações romanistas.
 
A verdadeira “sucessão apostólica” sempre foi a preservação da doutrina apostólica, que é o que os próprios apóstolos sempre prezaram em primeiro lugar. A “genealogia” de um bispo nunca foi garantia de que esse bispo não pudesse cair em apostasia, assim como eu ter um antepassado milionário não é garantia de que eu seja rico (nesse caso nem isso eu tenho, mas isso são outros quinhentos). No AT a “linha ininterrupta” de sacerdotes judeus não os impediu de caírem na apostasia, e não há nada que sugira coisa diferente no contexto da nova aliança.
 
E mesmo se estivéssemos totalmente errados sobre tudo o que dissemos até aqui, nem isso faria diferença, já que com ou sem sucessão apostólica o próprio catecismo católico reconhece – lembremos bem – que as nossas igrejas e comunidades eclesiais são nada a menos que MEIOS DE SALVAÇÃO[28] (faço sempre questão de frisar isso em negrito e caixa alta porque parece que os tradicionalistas católicos têm dificuldade em ler esses trechos desse maravilhoso livro amarelinho que é o catecismo de João Paulo II).
 
Se no fim das contas o que importa mesmo é ser salvo, estamos no caminho certo mesmo sem a tal sucessão. Obrigado, Concílio Vaticano II!
 
Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (youtube.com/LucasBanzoli)


[1] Pelo menos não stricto sensu, embora qualquer missionário seja um “apóstolo” no sentido mais amplo (“apóstolo” significa literalmente “enviado”), mas não com a mesma autoridade apostólica dos doze.

[2] Inácio aos romanos, 4.

[3] Contra as Heresias, Livro III, 16.

[4] Philip Schaf, História da Igreja Cristã, v. 3.

[5] História Eclesiástica. Livro V, 24:10.

[6] História Eclesiástica. Livro V, 24:11.

[7] Contra as Heresias, Livro I, 24:5.

[8] Contra as Heresias, Livro I, 25:6.

[9] Contra as Heresias, Livro II, 32:5.

[10] Contra as Heresias, Livro I, 8:1.

[11] Contra Práxeas, 1:5.

[12] O bispo de Roma (provavelmente o Papa Calixto I) havia emitido um decreto pastoral declarando que a Igreja poderia absolver pecados graves de cunho sexual (como o adultério) caso a pessoa se arrependesse e cumprisse penitência, o que ia na contramão da disciplina mais rigorosa defendida por Tertuliano, que ironizou: “Ouço também que foi emitido um édito, e decisivo. O Pontífice Máximo, ou seja, o bispo dos bispos, decreta: 'Eu remito os pecados de adultério e fornicação àqueles que cumpriram a penitência’” (De Pudicitia, 1.6).

[13] Tradição Apostólica, c. 2.

[14] História Eclesiástica, Livro VI, 29.

[15] O texto diz: “Permiti, porém, aos profetas dar graças como quiserem” (Didaquê 10:7). “Dar graças” aqui não tem a ver com dizer “glória a Deus” no culto, mas é a palavra grega eucharistein, de onde vem a “eucaristia”. Que o texto se referia à oração eucarística, fica claro pelo contexto, que havia acabado de apresentar os formulários e orações fixas que a comunidade devia utilizar para abençoar o pão e o cálice (nos capítulos 9 e 10).

[16] História Eclesiástica, Livro III, 2:1.

[17] História Eclesiástica, Livro III, 4:9

[18] Dos Homens Ilustres, 15.

[19] ibid.

[20] Epístola 53.

[21] Prescrição contra os Hereges, 32.

[22] JOHNSON, Paul. História do Cristianismo. Rio de Janeiro: Imago Ed., 2001, p. 78.

[23] Pastor de Hermas, 8:3.

[24] Veja uma lista aqui: <https://www.lucasbanzoli.com/2019/03/imperdivel-historiadores-e-teologos.html>. Acesso em: 24/07/2026.

[25] BROWN, Raymond E. Responses to 101 Questions on the Bible. Mahwah, New Jersey: Paulist Press, 1990, p. 132.

[26] ibid.

[27] CANTÚ, Cesare. História Universal. São Paulo: Editora das Américas, 1954. v. 22, p. 122.

[28] #819 do catecismo católico.

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