22 de janeiro de 2023

23 Refutando as “20 maiores provas bíblicas” que Dave encontrou do papado de Pedro (Parte 1)


 

Nota introdutória

 
Dave Armstrong é um famoso apologista tridentino norte-americano conhecido por passar o dia inteiro atacando os protestantes na internet em vez de arrumar um trabalho, aproveitando o seu imenso tempo livre para escrever infindáveis artigos que seus oponentes não terão tempo de responder até ganhá-los pelo cansaço e cantar vitória (não à toa, sempre fugiu de debates ao vivo, onde o oponente teria o mesmo tempo que ele e ele não teria como correr para o Google). Desde o início do ano criou uma verdadeira obsessão pela minha pessoa e escreveu mais de 50 artigos “against Lucas Banzoli” antes que eu respondesse qualquer coisa. Sempre com uma linguagem hostil e provocadora, apela ainda a calúnias e difamações típicas da apologética católica (tais como que eu sou “não-teísta” e que “nego a divindade de Cristo”).
 
Depois de passar meses quase implorando pela minha atenção decidi respondê-lo com artigos que refutam linha por linha os seus impropérios, e descobri que, quando refutado, ele responde a um texto de 30 páginas com artigos de 5 páginas onde repete tudo o que já foi refutado e ignora todos os argumentos mais fortes. É superficial, fraco e desqualificado que só continua sendo respondido porque fiz das respostas ao Dave o meu novo esporte favorito (e porque estes artigos serão compilados para um novo livro de respostas às acusações papistas mais comuns, e nada melhor do que demonstrá-las na prática com alguém que se gaba por ter mais de 4 mil artigos “refutando” o protestantismo).
 
(Você pode ver minhas outras refutações ao Dave neste índice)
 
***

Um dos maiores motivos de orgulho da longa carreira de Dave foi ter encontrado 50 provas bombásticas do papado de Pedro, algo muito parecido com as várias provas de Ratanabá apresentadas pelo criador do ET Bilu. Neste artigo, ele seleciona as vinte melhores delas, ou seja, só argumentos de qualidade, que deixam patentemente óbvio que Pedro era papa e que só não vê quem não quer. Vejamos um por um desses argumentos brilhantes.
 
1. Mateus 16:18 – “E eu te digo, tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja; e os poderes da morte não prevalecerão contra ela”
 
A rocha (grego, petra) é o próprio São Pedro, não sua fé. Jesus é o Arquiteto que “constrói”. Hoje, o consenso esmagador de comentaristas bíblicos de todos os matizes favorece esse entendimento católico tradicional. São Pedro é a pedra fundamental da Igreja, tornando-o chefe e superior da família, mas não fundador da Igreja; administrador, mas não Senhor da Igreja.
 
Eu admiro o esforço, mas há vários problemas com esse argumento. Primeiro: o texto diz “tu és Pedro”, não “tu és papa”. Mesmo se o texto realmente devesse ser entendido no sentido que Dave quer e precisa (ou seja, de que Pedro era a “pedra” do texto em questão), isso ainda não faria de Pedro um papa, e a prova disso é o que ele próprio alega quando diz que «comentaristas bíblicos de todos os matizes» defendem essa interpretação. Se realmente não-católicos defendem isso, é porque o texto não prova papado nenhum (doutro modo, seriam católicos também).
 
Apenas para citar um exemplo, em outro texto Paulo não é chamado apenas de “pedra”, mas efetivamente de líder da “seita dos nazarenos”, como os cristãos eram chamados (At 24:5), e mesmo assim ninguém considera Paulo um “papa”. O grego diz prōtostatēn (líder/chefe) te (e) tēs (da) tōn (dos) nazōraiōn (nazarenos) haireseōs (seita), ou seja, “e líder da seita dos nazarenos”. Aparentemente, em plena década de 60 d.C, os judeus ainda não estavam cientes de que Pedro era o líder da Igreja, e Paulo apenas um subordinado (talvez Dave devesse explicar para eles qual era a “pedra” de Mateus 16:18).
 
O problema é maior quando consideramos que a vasta maioria dos Pais da Igreja – que para Dave eram bons católicos romanos – consideravam a pedra como sendo Jesus ou a confissão de fé de Pedro em Cristo, e não o próprio Pedro em pessoa (veja um enorme compilado de citações neste artigo do William Webster, de longe o mais completo sobre o tema em toda a web). Ou seja, para fazer de Pedro a pedra de Mateus 16:18, Dave se coloca abertamente contra os Pais da Igreja (o que significa se colocar contra a própria tradição que ele tanto diz defender quando ataca a Sola Scriptura).
 
Será que todos os Pais estariam tão enganados na interpretação de um verso que para Dave é tão fácil? Por que até mesmo Agostinho, o maior dos Pais na visão católica e um dos poucos que em algum momento chegou a dizer que Pedro era a pedra, mudou explicitamente de opinião em suas “Retratações”, que escreveu no final da vida (veja aqui)? Por que Agostinho é tratado como o maior exegeta da Igreja antiga, mas justo naquele que é provavelmente o texto que ele mais analisou a fundo e a respeito do qual teceu comentários mais longos teria se enganado em algo tão simples?
 
Quando estudamos Mateus 16:18 à luz do grego e do seu contexto maior, entendemos perfeitamente por que a leitura católica era tão impopular entre os Pais, sobretudo entre aqueles que ainda falavam e escreviam no grego bíblico, o koiné. Não só o taute usado no texto pode no grego significar o mais próximo ou o mais distante (“esta” ou “aquela”), como há muitas nuances que apontam nessa segunda direção. Não entrarei nesse debate aqui porque o próprio Dave não entrou ao formular o argumento, e também porque eu já o abordei exaustivamente em meu “Estudo exegético completo sobre Mateus 16:18”.
 
Basta dizer que o problema vai além da má exegese do texto em si, porque a interpretação católica subverte o esquema presente em todo o NT, onde Jesus é sempre e invariavelmente a rocha sobre a qual todos os cristãos (inclusive Pedro) estão edificados (Cl 2:6-7; Rm 9:32-33; 1Co 10:4; Mc 12:10; Mt 21:42; At 4:11). O próprio Pedro disse que Jesus é “a pedra principal” (1Pe 2:7) e que nós somos «pedras vivas» edificadas sobre o fundamento dele (1Pe 2:4-7). E para encerrar de vez qualquer discussão, Paulo disse que ninguém pode pôr outro fundamento além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo(1Co 3:11). Ou seja, há um só fundamento, e este fundamento é Jesus. Impossível ser mais claro.
 
É a mesma analogia do corpo, presente em tantos textos bíblicos que falam da Igreja como o “corpo” (Cl 2:17; 1Co 12:12, 27; Ef 3:6, 5:23) e de Cristo como a “cabeça” (Ef 1:22, 4:15, 5:23; Cl 1:18; 1Co 11:3), indicando autoridade e governo. Note que Pedro nunca é chamado de “cabeça”, assim como nunca é chamado de “fundamento”. Tanto a ilustração do corpo como a do edifício tem o mesmo significado básico: Jesus é o fundamento, e nós estamos “edificados nele” (Cl 2:7); Jesus é o cabeça, e nós somos “membro desse corpo” (1Co 12:27).
 
Assim, dizer que Pedro é a pedra sobre a qual a Igreja está edificada é mais do que ignorar o princípio mais básico da hermenêutica bíblica (o de que “a Bíblia interpreta a Bíblia”, isto é, que os textos mais claros lançam luz aos mais obscuros); é inferir Pedro está acima de Cristo no governo da Igreja, o que nada mais é que uma blasfêmia – tal como seria se alguém dissesse que Pedro é a cabeça e Cristo apenas um membro. Como disse Agostinho ao parafrasear o texto, “Eu a edificarei sobre Mim mesmo, não Eu sobre ela” (Sermão 26). Não é Jesus que está edificado em Pedro, mas Pedro em Jesus. Inverter o panorama é colocar a criatura acima do Criador – algo que os papistas entendem bem.
 
2. Mateus 16:19 – “Eu te darei as chaves do reino dos céus...”
 
O “poder das chaves” (segundo muitos comentadores da Bíblia) tem a ver com a disciplina eclesiástica e a autoridade administrativa no que diz respeito às exigências da fé, como em Is 22:22 (cf. Is 9:6; Jó 12:14; Ap 3:7). Isso implica o uso de excomunhão, absolvição, imposição de penitências e poderes legislativos. No Antigo Testamento, um mordomo ou primeiro-ministro é um homem que está “sobre uma casa” (Gn 41:40, 43:19, 44:4; 1Rs 4:6, 16:9, 18:3; 2Rs 10:5, 15:5, 18:18; Is 22:15, 20-21).
 
Dave aqui faz uma salada de frutas, uma verdadeira confusão acerca do propósito das “chaves” (confusão deliberada, não pense que ele é tão ingênuo). Os textos que ele cita não tem nada a ver com Pedro: o texto de Isaías diz “porei sobre os ombros dele a chave do reino de Davi; o que ele abrir ninguém conseguirá fechar, e o que ele fechar ninguém conseguirá abrir” (Is 22:22). Embora muitos católicos apliquem esse texto a Pedro, ele na verdade se refere a Jesus, como vemos na leitura paralela de Apocalipse: “Estas são as palavras daquele que é santo e verdadeiro, que tem a chave de Davi. O que ele abre ninguém pode fechar, e o que ele fecha ninguém pode abrir” (Ap 3:7).
 
É verdade que Dave, diferente de outros apologistas católicos, não diz explicitamente que Pedro tem as chaves citadas nesses textos, mas ao incluir os textos nas referências induz os seus leitores ao erro. Note ainda que os outros dois textos citados não falam nem de Pedro nem de chaves: Isaías 9:6 é o famoso texto que diz que “um menino nos nasceu, um filho nos foi dado, e o governo está sobre os seus ombros. E ele será chamado Maravilhoso Conselheiro, Deus Poderoso, Pai Eterno, Príncipe da Paz”. E Jó 12:14 diz que “o que ele derruba não se pode reconstruir; aquele a quem ele aprisiona ninguém pode libertar”.
 
Conclusão: em sua tentativa deliberada de confundir o leitor, Dave cita textos que nada falam de Pedro, junta com outros textos que nada falam de chaves, e conclui que Pedro tem as chaves no sentido de ter o governo sobre toda a Igreja – o que seria cômico se não fosse trágico. Ele literalmente tenta usar os textos que dizem que Jesus tem as chaves no sentido de autoridade, e aplicá-los a Pedro (como se Pedro tivesse as chaves/autoridade que Jesus tem, o que não chega nem a ser um argumento ruim, mas uma blasfêmia mesmo).
 
Se fôssemos tão desonestos quanto Dave e usássemos o mesmíssimo critério que ele usa nessa salada de frutas de textos bíblicos, poderíamos concluir que Pedro também tem as chaves da morte e do Hades, já que Jesus disse que “estive morto mas agora estou vivo para todo o sempre! E tenho as chaves da morte e do Hades” (Ap 1:18), e, para Dave, qualquer texto que mencione a utilidade das chaves pode e deve ser aplicado a Pedro por extensão. Pior do que isso, por esse mesmo critério, até mesmo os fariseus teriam as chaves da morte e do Hades(!), já que eles “se apoderaram da chave do conhecimento” (Lc 11:52), e para Dave qualquer “chave” é a mesma “chave” e faz a mesma coisa. Este é o nível grosseiro da exegese de Armstrong, e o que ele faz para encontrar as doutrinas católicas na Bíblia.
 
Mas se a exegese de verdade não consiste em pegar um texto falando de “chaves” e juntar com outro texto em outro lugar em outro contexto com outra linguagem e falando de outra pessoa, qual a exegese correta para entender o texto em questão? Simples: comparando-os com textos que falem do mesmo assunto, com uma linguagem similar, em um contexto próximo e onde o mesmo sujeito estava inserido. É assim que se faz exegese, não forçando uma conexão entre textos aleatórios. A questão é: temos realmente um texto análogo a Mateus 16:19, que sirva para lançar luz ao mesmo? E a resposta está apenas dois capítulos adiante, em Mateus 18:18:
 
“Digo-lhes a verdade: Tudo o que vocês ligarem na terra terá sido ligado no céu, e tudo o que vocês desligarem na terra terá sido desligado no céu” (Mateus 18:18)
 
Por «vocês», Jesus se referia a todos os doze apóstolos (Pedro incluso, mas não somente ele). Note que a linguagem é exatamente a mesma de Mateus 16:19, que diz que “o que você ligar na terra terá sido ligado nos céus, e o que você desligar na terra terá sido desligado nos céus”. Ou seja, estamos lidando aqui com rigorosamente a mesma coisa. Jesus entregou a Pedro o mesmo que ele entregou a todos os discípulos, não algum encargo especial ou diferenciado dos outros, que o colocasse acima deles.
 
O contexto não tem nada a ver com jurisdição universal sobre toda a Igreja, mas fala apenas da excomunhão: “Se ele se recusar a ouvi-los, conte à igreja; e se ele se recusar a ouvir também a igreja, trate-o como pagão ou publicano” (Mt 18:17). Até mesmo Paulo ordenou a excomunhão em certa ocasião (1Co 5:5), o que prova que (1) isso não era uma prerrogativa de um papa, e (2) Mateus 18:18 não se limita apenas ao grupo dos doze (embora Jesus tenha falado com os doze), assim como Mateus 16:19 não se limita só a Pedro (embora Jesus tenha falado com Pedro).
 
É comum na Bíblia uma declaração ser feita a um grupo sem excluir um grupo maior, ao qual aquilo igualmente se aplica (do contrário, o Sermão da Montanha, que Jesus dirigiu originalmente a um público limitado que o ouvia na ocasião, não poderia jamais ser usado por nós hoje como se aplicando a nós). Se as mesmas palavras que foram dirigidas a Pedro também foram dirigidas a todos os doze, e se o conceito ao qual elas remetem se aplicam além dos doze, é óbvio que nem de longe Jesus estava dizendo algo que fizesse de Pedro um “papa” ou qualquer coisa perto disso.
 
Isso também refuta o terceiro argumento, que é basicamente uma repetição do segundo:
 
3. Mateus 16:19 – “...tudo o que ligares na terra será ligado no céu, e tudo o que desligares na terra será desligado no céu”
 
“Ligar” e “desligar” eram originalmente termos técnicos rabínicos, que significavam “proibir” e “permitir” com referência à interpretação da lei e, secundariamente, “condenar” ou “absolver”. Assim, São Pedro (e por extensão lógica, os futuros papas) recebe autoridade para determinar as regras obrigatórias para a doutrina e a vida da Igreja. “Ligar e desligar” representam os poderes legislativo e judiciário do papado e dos bispos (Mt 18:17-18; Jo 20:23) e o poder de absolver. São Pedro, porém, é o único apóstolo que recebe esses poderes por nome e em sentido singular, tornando-o preeminente.
 
Dave só se esquece de dizer que o “ligar e desligar” também é dirigido a todos os apóstolos e não somente a Pedro (Mt 18:18), e que esse poder, como vimos, não tem nada a ver com um papado, mas com a excomunhão (que é um atributo de qualquer pastor ou padre). Na verdade, ele até parece reconhecer o primeiro ponto, mas tenta fazer de Pedro um papa mesmo assim, só porque ele foi o único “mencionado por nome” (como se os outros tivessem menores poderes só por não terem sido mencionados nominalmente).
 
Dave precisa se decidir: ou as palavras de Jesus sobre “ligar e desligar” remetem ao governo supremo da Igreja (o que necessariamente faria de Pedro um papa, mas faria o mesmo com todos os apóstolos), ou elas não têm nada a ver com isso, e a única coisa que pesa é o fato de Pedro ter sido mencionado nominalmente (o que enfraquece consideravelmente o argumento).
 
Neste caso, o fato de Paulo ser mencionado de forma igualmente singular como «líder da seita dos nazarenos» em Atos 24:5 seria uma prova muito mais forte de que Paulo era “papa” (porque o contexto aqui é propriamente de liderança, não do simples poder de excomunhão). Dave parece ter ciência da fraqueza dos dois argumentos, então tenta fazer uma síntese de ambos, lembrando o que William Lane Craig disse em seu famoso debate (ou sessão de espancamento) com o ateu Peter Atkins: “Duas falácias juntas não formam um argumento sólido”. Ele se esforça pra tentar provar que Mateus 18:19 leva ao papado e ao mesmo tempo tenta tirar os outros apóstolos da jogada, como um mágico ilusionista.
 
É curiosa também a parte em que ele diz “por extensão lógica, os futuros papas”, quando Jesus não falou nada sobre “futuros papas” por “extensão lógica”, nem mesmo que outro tomaria a liderança de Pedro quando ele morresse (isso se Pedro fosse mesmo o líder supremo). Isso que Dave chama de «extensão lógica» é simplesmente a “lógica” de araque que Roma impõe ao texto, não qualquer coisa que flua naturalmente do uso da razão. Por que, por exemplo, o sucessor de Pedro teria que ser um bispo romano, e não um outro apóstolo que continuou vivo após ele, como João?
 
Por que a sucessão teria que ser a partir de Roma, onde Pedro teria morrido, e não a partir de Jerusalém, onde o próprio Cristo morreu? E se a própria tradição afirma que Pedro foi bispo de Antioquia antes de ser bispo de Roma, por que o bispo de Antioquia, como sucessor de Pedro, não tem tanto poder quanto o bispo romano? Nem Dave nem qualquer apologista católico tem uma resposta sensata a isso, porque sua “extensão lógica” é uma extensão da fada da conveniência, que decide a “lógica” a partir do que ela ache mais útil para tapear os leigos.
 
4. Somente Pedro entre os apóstolos recebe um nome novo e solenemente conferido, Rocha (Jo 1:42; Mt 16:18).
 
Eeeeeeeee daí?
 
Deus também mudou o nome de “Sarai” para “Sara”. Significa que Sara virou uma papisa? Até mesmo Barnabé, o companheiro de Paulo, se chamava José antes, “a quem os apóstolos deram o nome de Barnabé, que significa encorajador” (At 4:36). Isso significa que Barnabé estivesse acima dos demais apóstolos (como Tiago e João), só porque teve o nome trocado e os outros não? Ou Dave prova que mudar o nome de alguém implica em tornar a pessoa um papa (ou um líder supremo do povo de Deus), o que trará sérios problemas bíblicos, ou admite que esse argumento bobo é totalmente insuficiente para fazer de Pedro um.
 
Se pelo menos Jesus tivesse mudado o nome de Simão para algum que significasse “líder”, “chefe” ou “pai” (de onde vem a palavra “papa”), poderíamos até abrir discussão. Mas o nome “Pedro” remete apenas à fé dele, sólida como uma rocha (como já vimos no estudo exegético de Mateus 16:18). Portanto, nada que fizesse de Pedro o líder de toda a igreja. Se esse argumento prova alguma coisa, não é que Pedro era papa, mas o quão baixo nível os papistas precisam descer para encontrar argumentos que possam usar a seu favor, mesmo que sejam os mais infantis do mundo. E por falar em argumento infantil, aqui vem mais um:
 
5. O nome de São Pedro aparece em primeiro lugar em todas as listas de apóstolos (Mt 10:2; Mc 3:16; Lc 6:14; At 1:13). Mateus até o chama de “primeiro” (10:2). Judas Iscariotes é invariavelmente mencionado por último. Isso significa alguma coisa.
 
Se o fato de Pedro ser citado por primeiro nas listas dos discípulos significa que ele era papa, o que dizer quando Pedro não é citado por primeiro em textos que mencionam alguém de fora dos doze? Vejamos um exemplo:
 
“Reconhecendo a graça que me fora concedida, Tiago, Pedro e João, tidos como colunas, estenderam a mão direita a mim e a Barnabé em sinal de comunhão” (Gálatas 2:9)
 
Note, em primeiro lugar, que Pedro é chamado de coluna, e não de fundamento – o que por si só já refuta a interpretação católica de Mateus 16:18, de que Pedro é o próprio fundamento da Igreja. Para quem não sabe, a coluna está edificada sobre o fundamento – exatamente como vimos na relação entre Cristo (o fundamento) e a Igreja (a coluna), que eu já abordei amplamente na minha refutação ao Dave sobre 1ª Timóteo 3:15. Para piorar, Pedro não é nem mesmo citado como a única coluna, porque ele divide espaço (só nesse texto) com Tiago e João. E para piorar mais ainda, Pedro não é nem mesmo o primeiro a ser citado, porque Tiago aparece na frente!
 
Ou seja, Pedro não é o fundamento, não é a única coluna e nem mesmo a coluna principal. Antes que você subestime o fato de Pedro não ser mencionado primeiro, lembre-se que é o próprio Dave que faz muita questão disso, pois usa o fato de Pedro ser citado primeiro nas listas dos doze como uma “prova” de que ele era papa. Como se não bastasse, Gálatas 2:9 fala especificamente de liderança (representada pelo termo “coluna”), enquanto as listas de discípulos não estão num contexto que falam de autoridade, mas tem apenas a intenção de nomear os discípulos para que o leitor os conheça.
 
Se perguntarmos a Dave por que Pedro tem que ser papa por ser citado na frente dos discípulos mas Tiago não pode ser papa mesmo sendo citado na frente de Pedro, novamente entrará em ação ela, ela mesma: a fada da conveniência. Com alguma desculpa das mais esfarrapadas, o texto que coloca Tiago antes de Pedro não serve para concluir que Tiago era mais importante que Pedro, mas os textos que colocam Pedro antes dos discípulos continuam servindo para concluir que Pedro era mais importante que os outros onze.
 
Vale lembrar que o Tiago mencionado em Gálatas 2:9 é o irmão de Jesus, não o filho de Zebedeu ou o de Alfeu. Ou seja, Pedro nunca é citado na frente de Tiago irmão de Jesus (que foi inserido no grupo apostólico mais tarde porque ainda era incrédulo durante o ministério de Jesus); ele é apenas citado na frente dos onze. Isso deve explicar por que é Tiago, e não Pedro, que lidera o Concílio de Jerusalém em Atos 15, como já vimos aqui. Mesmo que Pedro fosse o mais proeminente entre os doze, ele não era mais proeminente do que Tiago (citado à frente dele em Gálatas 2:9 e que liderou o concílio em vez dele) ou Paulo (citado como principal líder dos cristãos em Atos 24:5), que surgiram mais tarde.
 
E mesmo “ser o mais proeminente” é muito diferente de ser “papa”, que significa exercer um governo sobre os demais. Neste sentido, o próprio Cristo foi claro em dizer que “a ninguém na terra chameis vosso pai, porque um só é o vosso Pai, o qual está nos céus” (Mt 23:9), que é de onde vem o termo “papa”, e também que “aqueles que são considerados governantes das nações as dominam, e as pessoas importantes exercem poder sobre elas, mas não será assim entre vocês (Mc 10:42). E disse isso justamente quando os discípulos discutiam entre si sobre “qual deles era o maior” (Lc 22:24), discussão que nem existiria, se já estivesse claro que o maior era Pedro.
 
Quando Dave diz que Mateus chama Pedro de “primeiro” (Mt 10:2), ele mostra desconhecer não só a Bíblia, mas o grego, que usa o adjetivo protos, que significa primeiro «em alguma sucessão de coisas ou pessoas» (#4413 de Strong), não primeiro no sentido de autoridade. Quando a intenção é falar de “primeiro” no sentido de liderança, o termo usado é arché, que significa «o líder, primeiro lugar, magistrado, reinado» (#746 de Strong). Curiosamente, arché nunca é usado em relação a Pedro, embora seja usado não menos que 56 vezes no NT.
 
A ignorância de Dave é tanta que ele não sabe que a Bíblia frequentemente costuma mencionar o “menos importante” antes do “mais importante”. Por exemplo, na maioria das vezes em que Josué e Calebe são citados juntos, Calebe é mencionado à frente (Nm 14:30, 26:36, 32:12), apesar de Josué ter sido o sucessor de Moisés como líder dos hebreus, e não Calebe. E na maior parte das ocasiões em que Paulo e Barnabé são citados juntos (o que acontece muitas vezes em Atos), é Barnabé que aparece primeiro, apesar de nem precisarmos dizer qual dos dois era mais proeminente.
 
É só na cabeça não muito sóbria de Dave que o fato de alguém ser mencionado antes tem que necessariamente significar que é mais importante – ou, pior ainda, que exerce um papado sobre todos os demais, com «poder pleno, supremo e universal», como diz o catecismo católico (#882). O tipo de argumento que é muito mais jocoso do que infantil, mas que ainda não chega nem perto desse próximo:
 
6. Cristo ensina do barco de Pedro, e segue-se uma pesca milagrosa (Lc 5:1-11): talvez uma metáfora do papa como “pescador de homens” (cf. Mt 4:19).
 
Eu procurei algum vídeo que reproduzisse exatamente a minha reação a esse icônico argumento, e encontrei esses três:

 
Quando o próprio Dave é quem diz que TALVEZ seja uma metáfora(!) para o papado de Pedro, já podemos imaginar o que vem por aí. Este argumento deveria ser emoldurado num quadro colocado em um museu para servir de memorial eterno do nível de argumentação que os papistas precisam chegar para encontrar o papado de Pedro na Bíblia – e ninguém melhor do que Dave para nos ilustrar isso. E olha que ele disse que estes são os vinte melhores argumentos dos 50, pra você ter uma leve noção do nível dos outros 30.
 
Para piorar, o próprio texto que ele cita não fala só de Pedro, mas também de seu irmão André:
 
“Andando à beira do mar da Galileia, Jesus viu dois irmãos: Simão, chamado Pedro, e seu irmão André. Eles estavam lançando redes ao mar, pois eram pescadores. E disse Jesus: ‘Sigam-me, e eu os farei pescadores de homens’” (Mateus 4:18-19)
 
O texto diz “eu os farei”, não “eu farei só a Pedro, porque só ele será papa, você não amigão”, pra fazer André chorar de tristeza. Lembre-se: este é o sexto melhor argumento que o melhor apologista católico tem a nos oferecer para o papado de Pedro. Eu não digo mais nada.
 
7. Pedro foi o primeiro apóstolo a entrar no túmulo vazio de Jesus ressuscitado (Jo 20:6).
 
Agora, ser o primeiro a entrar em sepulcros virou um critério para ser identificado como papa. Eu me pergunto se Dave Armstrong cursou exegese na Escolinha do Professor Raimundo ou na do professor Girafales. A diversão é garantida, mas eu francamente sinto falta de algo para refutar. O pior é que Pedro nem mesmo foi o primeiro a entrar no sepulcro, porque se Dave voltasse apenas cinco versículos, descobriria que Maria Madalena chegou no túmulo antes dele (Jo 20:1).
 
Aqui, a fada da conveniência entra em ação novamente, e faz o fato de Madalena ter sido a primeira a chegar no túmulo não significar nada, e o fato de Pedro entrar depois dela significar que ele era papa. É rir pra não chorar. Eu ainda não sei como nenhuma autoridade católica (um bispo, um cardeal ou o próprio papa) não percebeu a genialidade de Dave e elevou Madalena à categoria de papisa. Talvez eles pensem que Dave é um daqueles típicos casos que pra ser burro ainda precisa aprender muito, ou eles simplesmente ainda não conseguiram acompanhar o raciocínio de uma mente tão à frente do seu tempo.
 
8. São Pedro é especificado por um anjo como o líder e representante dos apóstolos (Mc 16:7: “diga a seus discípulos e a Pedro...”).
 
Minha Nossa Senhora, isso está cada vez mais surreal. O texto diz “diga aos discípulos e a Pedro”, e Dave lê “diga aos discípulos e a Pedro, o líder e representante dos apóstolos”. Não dá, chega uma hora que deixa de ser engraçado e se torna um caso clínico. Eu não sei se o lugar certo é um hospital psiquiátrico ou uma clínica veterinária, mas é claramente um caso de internação compulsória (preferencialmente numa camisa-de-força, pra nunca mais correr o risco de voltar a escrever). A única razão por que eu continuo refutando essas coisas é por puro profissionalismo, porque às vezes eu mesmo me sinto mais burro só de ler tanta burrice.
 
Talvez Dave imagine que porque o anjo destacou Pedro dos discípulos, é porque Pedro não era mais um discípulo, mas o Sumo Pontífice, o príncipe dos apóstolos, o vigário de Cristo, o Santo Padre infalível e overpower. Quando na verdade Pedro é destacado pelo simples fato de ficar absolutamente devastado após suas três negações, que o fizeram chorar amargamente (Lc 22:62) por não ter sido fiel a Cristo, como ele havia dito que seria (Lc 22:33). Em outras palavras, Pedro era o único apóstolo que precisava ser restaurado (Judas havia tido apenas um remorso e preferiu se suicidar, e os outros apóstolos não chegaram a negar o Senhor como Pedro fez).
 
É como acontece numa final de campeonato em que um dos jogadores faz uma péssima partida e ainda perde o pênalti decisivo, e no final é consolado por todos os companheiros e recebe uma atenção especial do treinador – não por ser o melhor jogador, o capitão da equipe ou o dono do time, mas porque é o que mais precisa de apoio nesse momento crítico. O anjo sabia que Pedro precisava dessa atenção especial, razão por que o mencionou nominalmente (note que o mesmo nunca acontece no restante dos evangelhos, onde são mencionados apenas “os discípulos”, e não “os discípulos e Pedro”). Era o momento que exigia um cuidado especial, não um cargo eclesiástico acima dos demais.
 
Também chama a atenção que esse argumento seja usado justamente pelo “maníaco dos nomes citados por primeiro”, que acha que Pedro é papa porque é citado antes dos discípulos, quando no texto em questão «os discípulos» aparecem antes de «Pedro». Por mais bobo que isso seja, para alguém que faz tanto caso com isso seria de se esperar que o texto dissesse “Pedro e os discípulos”, e não “os discípulos e Pedro”. Isso reforça o fato de que Pedro é destacado não por ser mais importante que o grupo dos discípulos, mas por ser o que mais precisava de apoio naquele momento. É justamente por isso que Pedro é o único (além do discípulo amado) que vai ver o túmulo vazio, algo que lhe era de interesse particular já que precisava tanto de uma reconciliação com o Mestre.
 
9. Pedro é considerado por Jesus como o Pastor Supremo depois dEle mesmo (João 21:15-17: “Apascenta os meus cordeiros... apascenta as minhas ovelhas... apascenta as minhas ovelhas”), singularmente pelo nome, e sobre a Igreja universal, embora outros tenham um papel semelhante, mas subordinado (por exemplo, Atos 20:28, 1ª Pedro 5:1-2).
 
Nenhuma parte do texto chama Pedro de “Pastor Supremo”. Isso é mais uma vez Dave colocando os seus devaneios para dentro do texto, em vez de extrair do texto simplesmente o que o texto diz. O que o texto efetivamente diz é apenas “apascenta as minhas ovelhas”. Que é, por sua vez, rigorosamente o mesmo dos outros textos citados:
 
Cuidem de vocês mesmos e de todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo os colocou como bispos, para pastorearem a igreja de Deus, que ele comprou com o seu próprio sangue” (Atos 20:28)
 
“Portanto, apelo para os presbíteros que há entre vocês, e o faço na qualidade de presbítero como eles e testemunha dos sofrimentos de Cristo, como alguém que participará da glória a ser revelada: Pastoreiem o rebanho de Deus que está aos seus cuidados. Olhem por ele, não por obrigação, mas de livre vontade, como Deus quer. Não façam isso por ganância, mas com o desejo de servir” (1ª Pedro 5:1-2)
 
Como Dave sabe que a mesma ordem de pastorear o rebanho que foi dada a Pedro também foi dada a todos os líderes da Igreja, ele precisa inventar da cabeça dele que no caso de Pedro o texto se refere a um “Pastor Supremo”, e nos outros dois casos a “subordinados”. O problema é que os próprios textos não chegam nem perto de fazer essa distinção, o que mostra que Dave segue à risca a máxima de que “se não está no texto, coloque no texto”. Ele não está minimamente preocupado em fazer uma exegese (que é extrair do texto o que ele realmente afirma), apenas em praticar a eisegese (que é quando o intérprete tenta a todo custo colocar a sua ideia para dentro do texto).
 
Para piorar, em 1ª Pedro 5:1-2, o próprio Pedro explicitamente diz que «o faço na qualidade de presbítero como eles», não na qualidade de um superior, como alega Dave. Se ele tivesse razão na sua tese de que João 21:15-17 se refere a um “Pastor Supremo” e nestes outros textos apenas a “pastores subordinados”, Pedro teria dito que “o faço na qualidade de Pastor Supremo acima deles”, e não de “presbítero como eles”. Essa é a mesma forma com que Jesus se refere ao mestre e seu senhor:
 
“O discípulo não está acima do seu mestre, mas todo aquele que for bem preparado será como o seu mestre” (Lucas 6:40)
 
“Acima” expressa superioridade, e “como” denota igualdade. Note que é dessa segunda forma, e não da primeira, que Pedro se refere aos presbíteros, os quais deveriam apascentar a Igreja tal como ele. Como se não bastasse, apenas dois versículos adiante, Pedro diz realmente quem é o “Supremo Pastor”, que Dave afirma ser o próprio Pedro:
 
“Quando se manifestar o Supremo Pastor, vocês receberão a imperecível coroa da glória” (1ª Pedro 5:4)
 
Sim: o “Supremo Pastor” é Cristo, não Pedro, que jamais usa o termo para si, o qual também jamais é usado por qualquer outro autor em relação a ele. Diante disso, dizer que há outro “Supremo Pastor” além de Jesus é mais do que dizer o que texto nenhum diz: é uma blasfêmia, que tenta roubar de Cristo o seu lugar e dá-lo a Pedro (e, pior do que isso, aos papas “por extensão lógica”!). É por isso que o papa se autointitula o vigário (literalmente “substituto”) de Cristo, num exemplo supremo de usurpação daquele que é chamado de o único sumo pontífice (ou sumo sacerdote) dos cristãos (cf. Hb 4:14, 6:20, 8:1, 8:6, 9:11, 10:21).
 
Mas então – dirá o papista – por que em João 21:15-17 Jesus se dirige especificamente a Pedro? A resposta não é que Pedro fosse maior que os demais discípulos, mas a mesma que levou o anjo a destacar Pedro em Marcos 16:7. Era Pedro quem estava se sentindo “menos do que um discípulo” e precisava ser restaurado à posição à qual foi chamado. Por isso Jesus dirige aquelas palavras a Pedro, dando-lhe uma missão que, de fato, é a de todos os líderes: apascentar o rebanho de Deus.
 
Lembre-se que nessa ocasião Pedro havia voltado a viver da pesca (Jo 21:2-3), como se tivesse desistido de sua função apostólica (como pregador do evangelho e pescador de homens). Entre a ressurreição de Jesus e este episódio, não vemos Pedro pregando a quem quer que seja. Então, quando Jesus diz para apascentar as ovelhas, ele não está dizendo para governar sobre os outros apóstolos, mas para voltar a cumprir a missão para a qual foi chamado, a de ser pescador de homens (e não só de peixes). Este era o chamado de Pedro; este é o chamado da Igreja.
 
10. Somente Pedro entre os apóstolos é mencionado nominalmente como tendo recebido orações de Jesus Cristo para que sua “fé não desfaleça” (Lc 22:32).
 
E por que Jesus orou para que a fé de Pedro não desfalecesse (e não pela fé de todos os apóstolos)? Porque Pedro era o Sumo Pontífice e os outros não importavam? Não, mas porque era Pedro que seria tentado a negar Jesus – como de fato ocorreu –, e Jesus não queria que ele reagisse igual Judas, que abandonou o grupo apostólico e se suicidou. Foi por isso que Jesus orou especificamente pela fé de Pedro, e não porque a fé dos outros não fosse importante por não serem papas – uma noção impossível de ser mais ridícula.
 
Acredite se quiser, estes foram os dez melhores argumentos que Dave tem para o papado de Pedro. No próximo artigo, eu comentarei os dez seguintes, que fecham aqueles que ele chamou de “os vinte melhores” (nem queira saber dos piores). Preciso agradecer particularmente ao Dave pela dose de entretenimento semanal. Espero que os seus artigos sejam sempre divertidos assim, mantendo esse alto nível (cômico) de argumentação.
 
Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Por Cristo e por Seu Reino,
Lucas Banzoli (youtube.com/LucasBanzoli)

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23 comentários:

  1. Lucas, Jesus e os Apóstolos fundaram uma denominação? Me parece que não se a igreja de Cristo é composta por todos os crentes em Cristo, mas muitos cristãos pensam que a Igreja era uma denominação e que ela se corrompeu, o que pensa sobre isso?

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    1. Não, Jesus não fundou nenhuma denominação. Eu escrevi recentemente sobre isso aqui:

      http://www.lucasbanzoli.com/2022/12/1-timoteo-315-ensina-que-igreja-romana.html

      E também fiz um vídeo recente sobre esse mesmo assunto no meu canal:

      https://www.youtube.com/watch?v=HiDpkVzpWPs

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  2. Um católico falou sobre o cânon

    Os Livros não foram acrescentados, já estavam na septuaginta antes de Cristo e dos apóstolos! E pra quem não sabe a Septuaginta era usada pelos apóstolos.

    E esses livros já estavam confirmados como escitura desde o concílio de Roma (382), Hipona (393), Cartago (397).
    E no concílio de trento 1546 a igreja Católica reafirmou o cânon que ela já tinha definido a anos.

    E mais: O cânon dos Judeus é Fariseu pois eles retiraram esses livros justamente por causa dos Cristãos.
    _____________________


    Entendo algumas coisas sobre o Cânon da Igreja,  nesse texto eu sei que a septuaginta não era um cânon em sí, sei que haviam 3 códices que não tem exatamente a mesma lista de livros da Igreja Romana.
    Sei que Cartago e Hipona eram concílios Locais e não universais.

    Sobre o concílio de Roma eu não tenho conhecimento sobre esse concílio, eu acho que protestantismo não se baseia em nenhum concílio para definir o cânon, sobre o que foi falado que os apostolos usavam a septuaginta existia algum escrito falando que apenas os 22 livros eram canônicos?

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    1. Vamos lá:

      “Os livros não foram acrescentados, já estavam na Septuaginta antes de Cristo e dos apóstolos! E pra quem não sabe a Septuaginta era usada pelos apóstolos”

      Então por que ele não aceita todos os livros que estavam na Septuaginta? Se o argumento para a canonicidade dos apócrifos é que eles estavam na LXX, deveria colocar na Bíblia também 3ª e 4ª Macabeus, 1ª Esdras, os Salmos de Salomão e etc (que tem na Bíblia dos ortodoxos). Na verdade, nenhum dos códices da LXX tem o mesmo cânon católico; em todos eles faltam alguns livros e sobram outros, de modo que esse argumento nada mais é que um tiro no pé. Como eu mostrei nesse artigo, a Septuaginta nunca foi um “cânon”, foi somente uma compilação de livros (inspirados ou não):

      http://heresiascatolicas.blogspot.com/2015/10/a-lenda-do-canon-alexandrino.html

      “E esses livros já estavam confirmados como Escritura desde o concílio de Roma (382), Hipona (393), Cartago (397)”

      E rejeitados por todos os Pais da Igreja antes deles (e por outros concílios locais, como o de Laodiceia):

      https://lucasbanzoli.no.comunidades.net/desmascarando-os-livros-apocrifos-p12

      https://lucasbanzoli.no.comunidades.net/desmascarando-os-livros-apocrifos-p2

      Sem falar que a lista de livros bíblicos do Concílio de Roma de 382 é fake, este concílio não falou nada sobre o cânon, essa lista é do século VI que só muito tempo mais tarde foi erroneamente atribuída ao Concílio de Roma:

      http://conhecereis-a-verdade.blogspot.com/2011/10/o-canon-biiblico-foi-definido-no.html

      E esses concílios africanos locais que aprovaram os apócrifos (não universalmente, mas apenas naquela região ao norte da África) também desceram a lenha nos bispos romanos e repeliram severamente qualquer tentativa de que eles tivessem jurisdição sobre o seu território. Mas isso eles fingem que não importa, porque “era só um sínodo local” (só importa se dizem algo a favor deles, aí magicamente vira um concílio universal com autoridade suprema).

      “E no concílio de Trento 1546 a Igreja Católica reafirmou o cânon que ela já tinha definido há anos”

      Por uma margem muito pequena de votos, o que nos leva a perguntar por que raios isso sequer precisaria ser discutido ou colocado à votação se já estivesse tão claro e concreto que o cânon era esse desde sempre (que é a narrativa bizarra que o interlocutor católico propõe). Se Roma sempre aceitou os “deuterocanônicos”, por que quinze séculos depois eles só passariam por uma margem apertada de votos entre os próprios bispos católicos? Aí você começa a estudar a história da Igreja e entende o porquê, já que a maioria dos doutores da Igreja eram contra os apócrifos em plena Idade Média (seguindo a linha de Jerônimo), exatamente como Lutero:

      http://heresiascatolicas.blogspot.com/2015/10/lutero-retirou-sete-livros-da-biblia.html

      “E mais: O cânon dos Judeus é Fariseu pois eles retiraram esses livros justamente por causa dos Cristãos”

      Eles não “retiraram” nada, simplesmente porque nunca estiveram lá. O cânon judaico sempre foi o de 22 livros (equivalente aos 39 da Bíblia protestante). Eu já escrevi sobre isso aqui:

      http://heresiascatolicas.blogspot.com/2014/02/o-canon-biblico-dos-judeus.html

      http://heresiascatolicas.blogspot.com/2013/06/os-judeus-e-o-canon-veterotestamentario.html

      “Sobre o que foi falado que os apóstolos usavam a Septuaginta existia algum escrito falando que apenas os 22 livros eram canônicos?”

      Sim, vários, leia os dois artigos que eu passei acima (especialmente a citação de Josefo, que é a mais cabal).

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    2. Posição oficial mais ou menos atual da Igreja Católica sobre o cânon das Escrituras. Está em espanhol, mas tá fácil de compreender os textos:

      3. Formación del canon cristiano
      18. El Antiguo Testamento de la Iglesia antigua tomó formas diversas en las distintas regiones, como demuestran las distintas listas de la época patrística. La mayoría de los escritores cristianos a partir del siglo II, así como los manuscritos de la Biblia de los siglos IV y siguientes, utilizan o contienen un gran número de libros sagrados del judaísmo, incluyendo algunos que no fueron admitidos en el canon hebreo. Sólo después de que los judíos hubieron definido su canon, pensó la Iglesia en cerrar su propio canon del Antiguo Testamento. Nos falta información sobre el modo cómo se procedió y las razones que se alegaron para incluir tal libro en el canon y rechazar tal otro. Es posible, sin embargo, delinear a grandes rasgos la evolución del tema en la Iglesia, tanto en Oriente como en Occidente.
      En Oriente, a partir de la época de Orígenes (entre el 185 y el 253), se procura conformar el uso cristiano al canon hebreo de 22/24 libros, utilizando para ello distintas combinaciones y estratagemas. El mismo Orígenes era consciente, además, de la existencia de numerosas diferencias textuales, a veces considerables, entre la Biblia hebrea y la griega. A ese problema se añadía el de las distintas listas de libros. Los esfuerzos realizados en orden a adaptarse al canon y al texto hebreos no privaron a los autores cristianos de Oriente de utilizar en sus escritos libros que no habían sido admitidos en el canon hebreo, ni de seguir para los demás el texto de los Setenta. La idea de que el canon hebreo debía ser preferido por los cristianos no parece haber producido en la Iglesia de Oriente una impresión profunda ni duradera.
      En Occidente se mantiene igualmente una utilización más amplia de los libros sagrados, que encuentra en Agustín su defensor. Cuando se trata de seleccionar los libros a incluir en el canon, Agustín (354-430) basa su juicio en la práctica constante de la Iglesia. A principios del siglo V, algunos concilios tomaron postura para fijar el canon del Antiguo Testamento. Por más que aquellos concilios fueron sólo regionales, la unanimidad expresada en sus listas los hace representativos del uso eclesial en Occidente.
      En cuanto a las diferencias textuales entre la Biblia en griego y en hebreo, Jerónimo basa su traducción en el texto hebreo. Para los libros deuterocanónicos, se contenta generalmente con corregir la antigua traducción latina (Vetus Latina). Desde entonces, la Iglesia en Occidente reconoce una doble tradición bíblica: la del texto hebreo para los libros del canon hebreo y la de la Biblia griega para los demás libros, todos en traducción latina.
      Fundándose en una tradición secular, el concilio de Florencia, en 1442, y más tarde el de Trento, en 1564, disiparon, para los católicos, dudas e incertidumbres. Su lista se compone de 73 libros, recibidos como sagrados y canónicos, en cuanto que inspirados por el Espíritu Santo: 46 para el Antiguo Testamento y 27 para el Nuevo Testamento.36 Así la Iglesia católica ha logrado su canon definitivo. Para determinar este canon, el Concilio se basó en el uso constante de la Iglesia. Adoptando este canon más amplio que el hebreo, ha preservado una memoria auténtica de los orígenes cristianos, puesto que, como hemos visto, el canon hebreo más limitado es posterior a la época de la formación del Nuevo Testamento.

      https://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_20020212_popolo-ebraico_sp.html

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    3. Como se ha dicho anteriormente, para le Iglesia Católica el reconocimiento definitivo y oficial, tanto del Canon «largo» del Antiguo Testamento como de los veintisiete escritos del Nuevo Testamento, tuvo lugar en el Concilio de Trento (D-S 1501-1503). La definición se había hecho necesaria porque los reformadores excluían los libros deuterocanónicos del Canon tradicional.

      https://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/pcb_documents/rc_con_cfaith_doc_20140222_ispirazione-verita-sacra-scrittura_sp.html#En_camino_hacia_un_Canon_

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    4. Muito bom, as próprias fontes oficiais do Vaticano refutando uma série de mitos comuns de se ver na apologética católica, por exemplo (1) que os judeus (ou parte deles) aceitavam os apócrifos, (2) que na época de Orígenes os Pais da Igreja já seguissem o cânon católico atual, (3) que depois dos concílios de Hipona e Cartago não havia mais discussão, (4) que o Concílio de Trento apenas reconheceu aquilo que já se cria desde sempre, como se esses livros já fossem aceitos oficialmente no cânon antes disso.

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    5. Exato. Essas provas documentais do próprio Vaticano já deveriam encerrar a discussão a respeito do cânon. Além disso, outra grande prova de que o Concílio de Trento foi quem definiu definitivamente o cânon católico é a Bíblia de Gutenberg, que é de 1455, e que continha o livro apócrifo de Esdras. Tinta e folhas desnecessárias gastas por Gutenberg para incluir um livro apócrifo se o cânon já estivesse fechado antes de Trento.

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  3. Lucas é verdade que a Igreja Católica é a maior instituição de Caridade do mundo? Já ví católicos afirmando isso.

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  4. Luquinhas, já assistiu a série: Jesus de Nazaré? Achei muito boa também uma série de vídeos baseado em todas as passagens da vida de Jesus chamada: Vídeos da Bíblia. É estrelada por um tal de John Foss, na minha opinião ele é o melhor ator que interpretou Jesus, conhece?

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    1. Não conheço essa série, em que plataforma eu posso assistir? Eu acabei de começar o "The Chosen", que dizem que é muito boa também.

      PS: esse ator eu também não conheço, mas vi umas fotos dele como Jesus e me pareceu bem compatível mesmo (embora eu não estivesse vivo na época pra comparar com mais propriedade xD).

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    2. A Jesus de Nazaré é fácil de achar, tem na Netflix, YouTube e num streaming gratuito chamado Vix.

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    3. Tem certeza que tem na Netflix? Procurei no catálogo e não encontrei... :/

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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  6. Bonzolão vc já ouviu falar da teóloga Jacira Monteiro? Ela é uma moça negra de tendências “conservadoras” que escreveu um livro “O Estigma da Cor", onde ela mostra como o racismo é incompatível com as escrituras.

    Conheci ela através do último do Yago Martins sobre o racismo e cristianismo, onde os dois gravaram em conjunto. A princípio achei ela uma garota bem sensata, contudo ao pesquisar mais acabei achando várias ideias esquisitas que ela defende. Em um poste ela chega a fazer apologia ao “Ubuntu” uma filosofia pagã africana defendida por pan-africanistas anti-cristãos. Ela fez praticamente um revisionismo absurdo para tentar conciliar essa filosofia com o espirito comunitário que existe em nossas Igrejas.

    https://www.instagram.com/p/CehVHM_pALo/


    O pior é que ela ataca o fato de nós, conservadores evangélicos, nos inspirarmos no Puritanismo dos EUA do século XVI e na Era Vitoriana inglesa:

    https://www.instagram.com/p/CehVHM_pALo/

    Ela chega ao ponte de afirmar que as páginas de feminilidade evangélicas "negam" a existência de uma feminilidade cristãs negras ao enfatizar a estética dos EUA. Pessoalmente achei isso bizarro. Até hoje só havia visto ideias como esta de progressistas heréticos como o Kleber Lucas, que tentam dividir a Igreja com a discórdia racial.

    Ultimamente vejo o crescimento de influenciadores evangélicos que antém contatos com lacradores inimigos da Fé. Eles possuem visão política bem secularizadas e insistem em desvincular o cristianismo do conservadorismo de Burke

    O Yago, graças a Deus, não faz parte desse grupo. Ainda que eu não concorde com ele o vejo como um exemplo de conservador cristão, contudo ele as vezes por peca em dar palanque pra esses crentes ao estilo do Felipe Cruz.


    OBS: Sei que é proibido publicar links pedindo analises. Não pedi Só postei isso caso você tenha a curiosidade de ver o

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    1. Eu nunca ouvi falar dessa teóloga, talvez quando o Yago gravou esse vídeo em conjunto com ela ele não soubesse disso, ou talvez soubesse mas achou de menor importância em comparado com os pontos em comum. De todo modo, acho que talvez tenha errado na escolha mesmo, se ela realmente defende uma filosofia pagã africana em detrimento da Bíblia.

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  7. Porque alguns católicos não gostam quando falamos que os protestantes fundaram os EUA? Eles adoram dizer que a ICAR fez isso e aquilo.

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    1. Porque pra eles tudo de bom que existe no mundo tem que ter vindo da Sancta e Una Igreja Católica Apostólica Romana. Então, eles vão se dividir em dois: os que são politicamente avessos ao americanismo vão dizer que a cultura americana é uma porcaria (por culpa do protestantismo) e que a "tradição ibérica" é muito superior, e os que são politicamente favoráveis vão dizer que os EUA só se tornou o que se tornou graças à ICAR (ou até à maçonaria, pra não ter que admitir que foi graças ao protestantismo). Tipo o Kogos, que já chegou a dizer que a prosperidade norte-americana vem do 1% de católicos que o país tinha no século XIX. Coisa bisonha, que só pode ter nascido de uma mente transtornada.

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  8. Encontrei no Google acadêmico um pequeno artigo sobre uma análise sobre o revisionismo católico chamado : A defesa da Inquisição: uma análise do discurso católico-revisionista na contemporaneidade.

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